Manaus, 22 de Setembro de 2018
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Diretor: liderança didático-pedagógica

Por: Daniel Nascimento
27 Jul 2018, 14h34

O diretor de campus ou de centro institucional precisa ser líder. Entenda-se a liderança como a capacidade que o indivíduo tem para influenciar as pessoas a fazerem algo de uma forma tal, que, sem essa influência, ninguém jamais faria. Tomemos um exemplo bem burlesco, para que se possa compreender tanto a dimensão quanto a importância da liderança. Imagine um grupo de professores, em uma sala, que, ao entrarem, percebem que o chão está sujo, mas não o limpam. Sabem também, todos eles, que o diretor é um indivíduo que privilegia a limpeza e a higiene. Quando adentram a sala, os professores esperam que alguém da limpeza ou algum deles mesmos limpem a sujeira. Mas ninguém o faz. No exato instante em que veem o diretor chegando, todos se apressam e deixam a sala limpa. Isso é liderança. Neste sentido, este ensaio tem como objetivo mostrar a liderança didático-pedagógica que todo indivíduo precisa ter para exercer a posição estratégica de diretor.A liderança é sempre referencial. Isso quer dizer que as pessoas lideradas baseiam suas atitudes com referência a alguém ou a algum padrão, no caso normativo. Quando as atitudes têm como referência alguém, esse alguém é o líder. Não significa, nem de longe, qualquer forma de imitação das atitudes daquele que é referenciado. O referenciado é apenas um Norte. Vejamos esse caso interessante, de liderança de diretor de uma instituição federal de pesquisa, que, ao mesmo tempo, era considerado excelente professor.Todas as aulas ministradas pelo diretor eram diferentes das suas conferências, que eram diferentes das suas palestras, que eram diferentes de tudo o mais que fazia. Isso chamava a atenção de todos: aquele indivíduo de rosto comprido, com mais de dois metros de altura, não conseguia misturar os tipos de exposições que fazia e tampouco os materiais que utilizava. Para cada tipo de aula, por exemplo, tinha uma metodologia própria e única; para cada tipo de palestra, idem. No entanto, apesar da metodologia de aula ser própria e única, diferenciavam-se entre si todas as aulas que ministrava. A capacidade criativa daquele diretor era simplesmente espetacular, tão espetacular que chamava a atenção de todos os que viriam a ter algum tipo de relação didático-pedagógica para com ele. Amoroso, tentava sempre ensinar seus procedimentos e técnicas para todos os que o procuravam. Alguns conseguiam de tal forma o domínio desses recursos e procedimentos, que chegaram a se aproximar daquele líder. Apesar de belo, este relato apresenta apenas o que é liderança. Isso todo mundo parece entender. Infelizmente, quase todos os indivíduos que compõem as comunidades acadêmicas param o seu entendimento aqui: conseguem diferenciar quem é e quem não é bom professor. Sabem quem é referência no ensino e sabem quem é capaz de fazer seus alunos aprender com adequação. Mas isso não é suficiente para fazer de alguém diretor. Essa liderança precisa estar vinculada a objetivos institucionais e setoriais a serem alcançados. E é aqui que começa o desafio de transformar o professor enquanto líder didático-pedagógico em líder institucional.A liderança didático-pedagógica é um recurso, um meio a partir do qual algum fim precisa ser materializado, alcançado. Quase sempre o ponto final ou o norte das atividades de ensino são o que chamamos de eficiência. Eficiência é a divisão do número de saída pelo número de entrada de alguma categoria analítica. Deixando o palavreado científico de lado e adentrando a prática gerencial do ensino, o índice de evasão é um tipo de eficiência (ou ineficiência), da mesma forma que a eficiência da formação. O índice de evasão é a divisão do número de entradas (ou matrículas) pelo número de abandonos de alunos, enquanto a eficiência de formação é a divisão do número de alunos que saem pelo número dos que entram no sistema. A liderança didático-pedagógica precisa estar vinculada a isso, em primeiro lugar. A razão dessa preocupação por parte do diretor é simples: quanto menor a eficiência, maior a probabilidade de o seu sistema de ensino falir. Em termos práticos, a ineficiência pode ser visualizada pelo número reduzido de alunos a cada semestre/ano, à medida que se aproxima dos últimos semestres/anos do curso, reduzidíssimo número de formandos, alto número de abandono, excessivo número de faltas individuais e totais, dentre inúmeras outras formas de manifestação da falta de liderança didático-pedagógica do diretor. A liderança é dele porque é ele, o diretor, que deve imprimir e visar aos índices que devem ser alcançados, ainda que outros executem as ações para tal.A segunda razão é em relação à qualidade. Quanto menor a qualidade do profissional formado ou da educação fornecida pela instituição e recebida pelo aluno, pior é a liderança didático-pedagógica. Como não dá para ser eficiente e ter alta qualidade simultaneamente nos primeiros instantes de operação, a ciência recomenda que, primeiro, seja alcançada a eficiência mínima (que a formação seja feita) para, em seguida, os padrões de qualidade sejam materializados. Em termos operacionais, primeiro deve-se garantir que a maioria dos alunos que ingressam no sistema saiam, para que sejam avaliados os fluxos de formação; em seguida devem-se ajustar os processos, que garantirá a melhoria contínua da formação. É para essas duas dimensões de operações que a liderança didático-pedagógica do diretor precisa estar voltada.O que se tem visto hoje, rotineiramente, é que os ocupantes de posições máximas de campus ou centros universitários se desvinculam quase completamente com os resultados operacionais, como se não fossem os resultados operacionais que justificassem as suas posições estratégicas. Os diretores só ocupam as mais altas posições porque precisam garantir a efetividade das produções que se fazem no nível operacional. E sem liderança, sem ser referência didático-pedagógica, o diretor será apenas mais um exemplo de ridicularizações pelos seus subordinados e alunos quase todas as vezes que for visto.


*é PhD, professor e pesquisador do Ifam (Instituto Federal do Amazonas) - danielnss@gmail.com

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