Manaus, 24 de Setembro de 2018
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Pioneiras da política amazonense

Por: Evaldo Ferreira - eferreira@jcam.com.br
18 Jul 2018, 14h42

Crédito:Edmar Perrone/Aleam
No dia 10 de julho passado a Assembleia Legislativa do Amazonas ganhou um espaço, uma galeria de fotos, dedicado às mulheres que ocuparam (e ocupam) o cargo de deputadas no Estado. E não foi fácil conquistar o pequeno espaço, da mesma forma como não tem sido fácil, nesses 166 anos de elevação do Amazonas à categoria de província (hoje Estado), as mulheres serem eleitas para ocupar um cargo político.

"Fui transferida da Seduc para trabalhar aqui na Assembleia e trouxe comigo a ideia de valorizar a história da instituição através de um memorial parlamentar", falou Maria Auxiliadora de Melo Iwasara, assessora da diretoria da Escola do Legislativo, e idealizadora da galeria. "Comecei a trabalhar na Assembleia em agosto de 2013, e como outubro seria o Outubro Rosa, achei interessante mostrar as mulheres que haviam sido deputadas estaduais. Mal sabia do árduo trabalho que teria pela frente", recordou.

Pra começar, não havia verba para viabilizar o projeto de Auxiliadora. Ela precisou esperar até o ano passado quando a Casa Legislativa elegeu um novo presidente. "No início de 2017, reapresentei o projeto para o presidente Davi Almeida e ele deu carta branca para tocá-lo. Comecei a fazer as pesquisas para descobrir quem eram as mulheres que haviam sido deputadas estaduais, e desde quando. Pesquisei na Biblioteca Nacional e Biblioteca do Exército, no Rio de Janeiro; em anais da Assembleia, em Manaus, e com os familiares", contou.

"No Rio não deu pra fazer quase nada. Passei só três dias lá. Como pesquisar mais de 150 anos de história em tão pouco tempo? Nos anais, em Manaus, encontrei bom material e com a família consegui as fotos e a biografia", falou.

Vasculhando os documentos, Auxiliadora descobriu os nomes das 15 mulheres que foram deputadas estaduais, uma média de uma a cada dez anos, desde que o Amazonas passou a ter seus próprios políticos, a partir de 1852, e 83 anos após o Estado se tornar independente politicamente. Somente em 1933, na eleição para a Assembleia Nacional Constituinte, a mulher conquistou o direito de votar e ser votada no Brasil. Dois anos depois, em 1935, o Amazonas ganhava sua primeira deputada, Maria de Miranda Leão, que também foi a primeira assistente social do Estado.

Mulheres pioneiras e guerreiras

"Das quinze mulheres que pesquisei, eu destacaria duas: a pioneira Maria de Miranda Leão (mandato de 1936 a 1937), e a segunda, Léa Alencar Antony, que só seria eleita em 1966. Além de terem sido mulheres pioneiras, foram guerreiras. Numa época em que as mulheres eram muito mais discriminadas que hoje, elas se impuseram e conquistaram seu lugar. Maria fundou o Hospital Dr. Fajardo, que atendia crianças orfãs, além de criar a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, defendendo o direito feminino ao voto; já Léa foi uma das fundadoras do Educandário Gustavo Capanema, para crianças pobres. Léa foi eleita em dois mandatos seguidos (1967 a 1970 e 1971 a 1974)", explicou.

"O principal problema para se organizar uma galeria como essa é a falta de documentação, e fotos. As pessoas, em Manaus, não tem o hábito de guardar coisas antigas e com isso a história se perde. Voltando a falar de Maria e Léa, essas fotos delas que estão na galeria são as únicas existentes. Teve ex-deputada que não mora mais nem no Brasil e uma até que, mesmo tendo exercido o mandato há pouco tempo, não quis dar nenhuma informação para a sua própria biografia", revelou.

Atualmente as fotos das quinze deputadas ficam iluminadas com a cor rosa, "mas essas cores irão mudando de acordo com as cores que agora marcam determinados meses, como o Novembro Azul, por exemplo", adiantou. "Também deixei espaços entre cada uma das fotos. São os lugares reservados para as futuras deputadas federais que, espero, consigam ser eleitas em cada vez maior número", adiantou.
Agora Auxiliadora pesquisa o passado dos presidentes da Assembleia. "É um trabalho bem mais difícil, mas tenho descoberto situações bastante interessantes e curiosas sobre esses 163 homens. Aguardem a inauguração da próxima galeria para saber mais sobre eles", riu.

Palavras sobre a galeria


"É importante manter a história e saber que houveram mulheres importantes no parlamento: Amine Daou, Beth Azize. Esse é o momento para homenageá-las. O tempo passa, mas não devemos esquecer as mulheres que fizeram esse trabalho nesta casa", falou Terezinha Ruiz, deputada de 2007 a 2010.
"Essa é uma homenagem a todas as mulheres que se atreveram a se meter na política. Imagine a coragem delas, naquela época. Lembro da minha avó quando eu era criança. Sabia que ela viajou com Santos Dumont, num dos balões dele?", lembrou Homero de Miranda Leão, neto de Maria de Miranda Leão.

"Fico muito feliz com essa homenagem, porque nossa passagem por aqui marcou uma época. Eu tenho certeza que deixei alguma coisa de legado para a posteridade. Esse espaço evidencia nossa história. Hoje, infelizmente, a mulher está totalmente fora da política e quando entra, é marginalizada, poucas participam, inibidas não sei por que. E vem gente de fora representar e envergonhar nosso Estado", reclamou Beth Suely, deputada de 1987 a 1990, e 1991 a 1994.

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