Manaus, 24 de Setembro de 2018
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Produtos amazônicos em reinvenção

Por: Artur Mamede amamede@jcam.com.br
22 Jun 2018, 19h13

Crédito:César Pinheiro
Produtos amazônicos ou adaptados à região como as castanhas-do- Brasil, juta e malva, que já foram responsáveis por gerar grandes divisas ao Amazonas, hoje pedem socorro pela falta de fomento e pouca inserção no mercado exterior. Os problemas vão da concorrência desleal aos baixos preços praticados, passando pelos sistemas de plantação, colheita e beneficiamento, que não mudaram muito com o passar dos anos.

Um dos casos mais graves é o da produção de fibras naturais no Amazonas, que na década de 1960 tornou o Estado autossuficiente no produto. Os principais produtores estavam nos municípios do Baixo Solimões e a produção ganhava beneficiamento em cidades como Parintins e Manaus, até que a autossuficiência fosse abalada pelas fibras vindas de Bangladesh e pela falta de pesquisas que tornassem as plantações mais produtivas e geneticamente mais fortes.

O resultado é uma produção descendente nos últimos anos. Segundo dados da pesquisa "Observações Juta /Malva - Importações 2017", do consultor técnico Ivo Naves, o Estado deixou de movimentar cerca de R$ 50 milhões em 2017 em vendas ao exterior que caíram de 9,9 mil toneladas em 2016 para 6,7 mil toneladas em 2017.

A compra de fibras de Bangladesh, que já chegou a 80%, desestabiliza a produção do Estado já há alguns anos, explica o presidente da Faea (Federação da Agricultura e pecuária do Estado do Amazonas) Muni Lourenço. "A concorrência com as fibras naturais de Bangladesh é desfavorável para a produção nacional principalmente porque esses países têm custo de produção menor", comentou.

Agora, distante dos tempos áureos, o setor de fibras busca subsídios e subvenções governamentais e a implantação de novas políticas públicas para se manter em funcionamento. Entre as soluções, está a compra da produção pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) e distribuição de sementes aos produtores.

Um dos melhores resultados até agora foi a criação na última terça-feira (19) de um GT (Grupo de Trabalho) com a participação de representantes da Câmara Setorial de Fibras, da Conab, da Secretaria Política Agrícola do Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e Sepror-AM (Secretaria de Produção Rural do Amazonas) para, no prazo de até 180 dias, concluir a análise sobre a proposta do projeto piloto localizado de implementação da substituição de sacos plásticos por sacos de fibras naturais em estoques públicos. "Temos capacidade de produção de sacos de fibras suficiente para atender a iniciativa", afirma o presidente da Faea.

Castanha-do-Brasil espera valorização comercial sustentável

A produção de castanha-do-Brasil no Amazonas, que já foi apontado como o maior produtor da amêndoa, com quase 15 mil toneladas em 2016, segundo dados da pesquisa Pevs (Produção da Extração Vegetal e Silvicultura) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), ainda carece de valorização comercial sustentável, explica o engenheiro florestal e coordenador da Recabaam (Rede de Cooperativas e Associações de Beneficiamento Agroextrativista do Amazonas), Marcelo Mendes do Amaral. "A Recabaam é formada por quatro cooperativas e uma associação que juntas comercializam os produtos da sociobiodiversidade como açaí, copaíba, pirarucu, polpas de frutas, óleos vegetais, borracha, fibras naturais (cipós, piaçaba, arumã) e produtos da agricultura familiar. Sabemos do potencial comercial desses produtos, mas no caso desses e da castanha-do-Brasil, não temos fomento para torná-los viáveis comercialmente mantendo os princípios da sustentabilidade e pagando o extrativista de forma justa", disse Amaral que também é coordenador do Programa Conservação para Gente da FVA (Fundação Vitória Amazônica).

"Tenho levado a castanha de nossos parceiros extrativistas para feiras setoriais em outros Estados com a intenção de alcançar o mercado, mas em uma dessas visitas verifiquei que o valor do produto é de R$ 40 enquanto a castanha embalada a vácuo que levamos tinha o custo de R$ 30. Não vemos competitividade sem fomento e temos 60 toneladas para vender. A produção anual pode chegar a 400 toneladas, mas como conseguir um preço justo para o extrativista poder trabalhar melhor?", questiona Mendes.

O próprio engenheiro responde a parte do questionamento. "Nosso melhor e maior cliente seria o próprio Estado, se este fosse mais firme na introdução da castanha-do-Brasil na merenda escolar. O governo poderia estar mais presente. Das 60 toneladas estocadas, o Preme (Programa de Regionalização da Merenda Escolar) poderia pagar R$ 29 por quilo, o que daria R$ 1,8 mi. Um valor bem representativo para a cadeia produtiva", disse.

De acordo com o engenheiro florestal a entidade já enviou ao Governo a proposta comercial que colocaria a amêndoa no cardápio das escolas e fomentaria a produção no interior. A carta enviada ao governo lista as propriedades da amêndoa: alimento rico em vitamina A, E e em óleos, além de estimular a produção de colágeno, capaz de prevenir o envelhecimento precoce, Alzheimer e câncer.

Ainda na carta, a recomendação de que uma castanha diariamente pode reduzir os triglicerídeos, colesterol e baixar a pressão arterial, eliminando o risco de AVC e infarto e diminuindo as taxas de açúcar no sangue, evitando o desenvolvimento da Diabetes tipo dois, fazem da castanha um alimento importante para ser inserido na merenda escolar. "Neste sentido se cada aluno consumir uma amêndoa na alimentação, terá a oportunidade de 'conhecer', degustar e se alimentar de um produto da sociobiodiversidade valorizando o produto da floresta e a cultura local associado à conservação da floresta no Estado do Amazonas".

"Se considerarmos que cada quilo de castanha contém de 100 a 150 castanhas, isso implica no fornecimento potencial de 6 milhões a 9 milhões de unidades por refeições para a rede pública do Amazonas", explica Mendes. A certificação orgânica, segundo Mendes, daria um up na comercialização.
"Buscamos junto a ADS (Agência de Desenvolvimento Sustentável do Amazonas) o selo orgânico que agregaria valor à produção. Com o selo, a castanha teria um acréscimo de 30%, o que daria R$ 37,70/quilo, bem próximo de uma remuneração justa para o extrativista manter-se em um ambiente sustentável", encerra.

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