Manaus, 19 de Novembro de 2018
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"Não é inteligente ir contra a ZFM"

Por: Fred Novaes fnovaes@jcam.com.br
22 Jun 2018, 14h03

Crédito:Andréia Leite
Com 42 anos de experiência de vida pública através de mandato eletivo, o senador Álvaro Dias (Podemos) lançou seu nome na corrida presidencial num exercício de saltar do inconformismo em relação ao estado atual da política brasileira para o estabelecimento de uma proposta de pacto nacional por mudanças estruturais num projeto que ele denominou como "refundação da República". Em entrevista exclusiva cedida na sede do Jornal do Commercio, mas precisamente no estúdio da Rádio Baré, Álvaro Dias disse que pretende arregimentar gente do bem para dar efetividade a essa proposta numa grande coalizão por mudança no sistema político e no sistema de governança na Presidência da República.

Jornal do Commercio - Por que o senhor deseja ser presidente da República?

Álvaro Dias - Às vezes eu também me faço essa pergunta. Por que, ao invés de ficar confortável e viver minha vida, vou atrás deste desafio e buscar sofrimento? É certo que o próximo presidente vai enfrentar sofrimento já que receberá uma herança maldita. Nós estamos mergulhados num oceano de dificuldades, um rio Amazonas de dificuldades, uma vez que a corrupção e a incompetência administrativa nos levou a esse caos. E para resolver isso vai ser necessário muito sofrimento. Então por que me confronto com essa realidade? Eu estou há 42 anos na atividade política com mandato eletivo, mas quase sempre na oposição. Eu só fui governo quatro anos como governador do Paraná e depois sete meses no segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso. De resto, eu fui oposição, inconformado, insatisfeito, desconfortável com esse sistema. Sempre contestador do sistema político vigente no país. Então cheguei à conclusão que ou eu ia para casa definitivamente ou me apresentava para construir algo diferente. Que seria a refundação da República oferecendo a alternativa a essa inspiração nacional. Porque isso não é um slogan de campanha, é uma necessidade. O que temos aí parece um império. Uma minoria assaltou as riquezas do país, abrindo portas à corrupção e hoje a operação Lava Jato joga o mal à luz para ser preso, julgado e condenado. Nós achamos que é possível substituir esse sistema político e esse sistema de governança que é uma verdadeira fábrica de escândalos de corrupção. Nossa missão é exatamente fazer essa substituição e por isso me disponho a concorrer nesta eleição.

JC - Mas é uma árdua missão desconstruir um sistema adoecido por anos, cujas engrenagens duramente estão contaminadas. Como o senhor pensa em mudar na prática essa estrutura que afeta profundamente a máquina pública?

Álvaro Dias - Realmente boa parte dos políticos atuais sobrevivem à custa deste sistema. Se substituir esse sistema, você interrompe a carreira de muitos políticos que não saberão sobreviver nesta nova ordem onde se rima governabilidade com respeitabilidade e não como é hoje, quando a rima é governabilidade com promiscuidade. Gente que não acredita num projeto político sem fazer dele um balcão de negócios. Para mudar isso, é necessário buscar o apoio da sociedade. Convocar o país para um pacto nacional. Um acordo nacional como houve na Espanha, o Pacto de Moncloa, de buscar a adesão de forças vivas no país, políticas e não políticas, empresários, trabalhadores, representantes de entidades, associações, pessoas de bem. Só não terão lugar neste pacto as pessoas que jogam no time do quanto pior melhor. Mas certamente encontraremos gente de bem para essa coalizão na esperança de arrumarmos o Brasil outra vez. Acredito que seja possível nos primeiros cem dias de governo aprovar as reformas essenciais. Alguém pode dizer que o Congresso não funciona. Ele não funciona porque o presidente não funciona. Se o presidente é honesto e tem capacidade de se comunicar com a população ele é capaz de ser o instrumento dessa transformação. Eu acredito nisso.

JC - O senhor é conhecedor da condição logística diferenciada que o Amazonas enfrenta pela sua dimensão continental. Como o senhor vê obstruções para projetos como a da BR-319 ou outros que visam oferecer competitividade logística para reduzir o chamado custo Amazonas?

Álvaro Dias - Há realmente uma complexidade ímpar diante da dimensão territorial. Falamos de uma área 4,3 vezes maior do que a Alemanha. A questão de infraestrutura regional precisa ser fortemente atacada pela União. Sabemos que a região Norte é a mais prejudicada com esse sistema federativo atual. É a que oferece mais e tem menos retorno. Nós precisamos inverter essa lógica. Precisamos priorizar a região. Na questão da logística, além das estradas, como a BR-319, precisamos dar condição plena para o transporte hidroviário. Sobre a estrada, ela tem 40 anos e só agora compromete o meio ambiente? Certos tabus precisam ser quebrados. É preciso conectividade. Há 12 mil rios cortando o solo brasileiro. É preciso estabelecer uma relação com o transporte multimodal.

JC - A Suframa deveria ser uma agência promotora do desenvolvimento regional, mas tem servido mais como um instrumento da burocracia estatal, engessada, sem autonomia institucional e sem recursos. Como o senhor vê essa situação e qual a saída para ela ser realmente agente indutora de uma política industrial para a Zona Franca de Manaus?

Álvaro Dias - É preciso desburocratizar, facilitar, porque no Brasil tudo é difícil. É difícil criar uma empresa, é difícil pagar imposto, é difícil registrar uma patente, muitas vezes você leva 12 anos para isso enquanto em outros país você faz isso em dois anos. Essa burocracia está nos órgãos públicos, como a Suframa. Todas as estruturas do país estão contaminadas por esse mal que emperra o desenvolvimento. Além disso desperdiçamos recursos, como o que foi feito com o BNDES. Os últimos governos adotaram uma política de aproximação com ditaduras corruptas e sanguinárias na América Latina e levaram o dinheiro que poderia ser investido no Norte do país, quem sabe através da Suframa, mas investiram no Porto de Mariel em Cuba, em um aeroporto fantasma em Moçambique, em metrô em Caracas, hidrelétricas e estradas em outros países. Foram bilhões de dólares remetidos ao exterior quando poderíamos redirecionar os recursos do BNDEs em setores fundamentais para o desenvolvimento. Temos que buscar criativamente recursos que permitam o desenvolvimento. O desafio do novo governo é exatamente desamarrar isso tudo para permitir o desenvolvimento regional.

JC - No Senado tramitam matérias para apagar o incêndio causado pelo decreto do presidente Temer que afetou diretamente o polo de concentrados do PIM. Um polo importante para o Amazonas que viabiliza exportações para a nossa balança comercial e, principalmente, contribui para a interiorização do desenvolvimento através da cadeia produtiva desse tipo de produto. Qual a sua posição na luta da bancada local pela manutenção desses empregos no Amazonas?

Álvaro Dias - O desemprego é a grande questão nacional. Com 52 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, é evidente que o desemprego é bem superior aos indicadores oficiais. Essa medida do governo vai na contramão da geração de empregos. Um modelo bem sucedido como o da ZFM, que atraiu investimentos, impulsionou o desenvolvimento e pode impulsionar ainda mais, precisa de incentivos e não de freios. O que o governo oferece hoje com incentivos fiscais para a ZFM é muito pouco diante do resultado. O retorno é muito superior. Então não é inteligente ir contra a ZFM, você alterar as regras. Devemos fazer o contrário. E isso é um compromisso que quero assumir de criar uma regulação definitiva e competente oferecendo segurança jurídica para o modelo ZFM e aos investidores para retomar a geração de empregos em Manaus. A ZFM no meu ponto de vista é intocável.

JC - Como seria essa regulação para evitar que a ZFM fique vulnerável às canetadas dos burocratas?

Álvaro Dias - A ZFM não pode estar ao sabor das circunstâncias. Ficamos na dependência do governante de plantão. Precisamos de uma legislação construída para evitar que algum governante tire daqui recursos para tapar buracos criados pela incompetência e pela corrupção, colocando a mão grande em cima da ZFM.

JC - A Constituição de certa forma já faz isso, mas infelizmente não é respeitada.

Álvaro Dias - Esse é um grande mal do país e por isso defendo refundar a República porque temos que ser todos sujeitos à lei.

Pacto de Moncloa

Citado por políticos brasileiros em momentos de crise nas últimas décadas, o Pacto de Moncloa é um marco da redemocratização da Espanha. O célebre acordo foi assinado, em 25 de outubro de 1977, por partidos políticos, sindicatos e empresários. O Pacto conseguiu colocar numa mesma mesa todos os presidentes de partidos políticos, chegando a um consenso histórico sobre todos os assuntos que afetavam ao país e sobre todas as reformas necessárias (sendo as principais as reformas fiscal, previdenciária, jurídica, política e de representação popular) de maneira que prevalecesse o conteúdo que fosse de maior interesse para o país e para seus cidadãos.

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