Manaus, 22 de Setembro de 2018
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Manaus sob risco da escassez

Por: Artur Mamede amamede@jcam.com.br
25 Mai 2018, 19h17

Crédito:César Pinheiro
Já considerada a maior greve de trabalhadores de carga do país, a paralisação iniciada no dia 21 já conta com a adesão de 1 milhão de caminhoneiros. A princípio uma iniciativa de motoristas autônomos, a greve logo ganhou a adesão de transportadoras e Manaus, já isolada geograficamente do resto do país, começa a sofrer sinais de desabastecimento de combustíveis e alimentos e a interrupção de alguns serviços, entre eles o de transporte público.

Como mote para a paralisação a categoria apontava os altos valores cobrados pelos combustíveis e foram esses produtos que começaram a faltar no mercado. Na noite de quinta-feira as filas nos postos eram longas e foram observadas a formação ilegal de estoques por parte de condutores e a remarcação abusiva de preços vinda de alguns postos. Já na manhã da sexta-feira (25), a crise era visível.

Transporte e delivery

O serviço de transporte de passageiros via aplicativos começou a dar sinais de paralisação na manhã de sexta-feira (25) e segundo o motorista do serviço Sandro Abecassis, além da falta de combustível, existe o baixo rendimento que ainda sofre com as taxas do aplicativo, o que motiva a parada. "Nos grupos de conversa entre motoristas, a parada é dada como certa. As tarifas por corrida estão baixas, longe do que chamamos de 'dinâmicas', o que tem mantido os motoristas imóveis. Já que são poucos rodando, seria natural que houvesse mais corridas, nas isso não está acontecendo. São corridas curtas de pouco mais de R$ 6, não vale a pena gastar gasolina e não ter o retorno", ressalta.

"Consegui encher o tanque, mas temos um fim de semana que pode terminar com um início de semana sem combustível. Prefiro ficar em casa, e usar o carro para uma possível eventualidade, do que ficar rodando, ganhar pouco e não ter como abastecer depois", disse Abecassis.

Um dos serviços mais procurados nos fins de semana, o delivery de alimentos também será afetado pela falta de combustível. O empresário Enoque Mendes, do Lanche da 7 Delivery, precisou correr para garantir o funcionamento do serviço de entrega no fim de semana. "Enchi o tanque das duas motos de entrega e ainda tenho um pouco no carro, que pode ser usado para uma eventual falta de gasolina nas motos. Depende muito do movimento, mas a expectativa é que o que temos de combustível dure até o fim do domingo", conta.
"A atual crise abriu os olhos de pequenos empresários que achavam que o que acontecia nos bastidores, não seria sentido aqui tão longe. Mesmo sabendo, ainda não havia recorrido a estoques e será preciso correr atrás agora, principalmente de carnes e frios que não são produzidos aqui. É preciso estocar, já que não sabemos quanto tempo iremos funcionar até que tudo pare", fechou o empresário.

Feiras e mercados

O perigo de desabastecimento de alimentos na cidade já é visto desde a tarde de quinta-feira (24), e em cascata vem afetando o comércio de víveres em todos os níveis, principalmente para pequenos negociantes que possuem estrutura reduzida e não esperavam uma redução tão drástica no abastecimento. Em alguns pontos tradicionais de abastecimento como Ceasa e Manaus Moderna, já iniciou a corrida para garantir a compra de alimentos para revenda.

Dependente de fornecedores de outros Estados para hortifrutis, a microempresária Daniela Branício já sente a falta de alguns produtos. "Os comerciantes da Ceasa já estão sem estoques e há a majoração da parte de alguns outros fornecedores. Trabalho com frutas, verduras e legumes que não são produzidas na região", comenta a microempresária.

"Consegui receber o que havia saído antes da greve, mas semana que vem já não vai haver entrega. Segundo alguns fornecedores, é arriscado embarcar a carga e essa ficar presa nas estradas. São produtos perecíveis e alguns dependem de refrigeração que nos caminhões utilizam o diesel", explica a microempresária. "Pouco antes da greve havia iniciado a negociação de uma carreta com 1.400 caixas de tomate, uma média de 28 toneladas, para revender. Se desse certo, teria dado errado, pois a carga sairia de Sorocaba (SP) e teríamos perdido tudo", conta.

Os pequenos negócios já sentem a escassez, que é ampliada pela estrutura reduzida bem diferente das grandes redes, explica Mário Branco, proprietário de um mercadinho na Cidade Nova. "Temos carne e hortifruti até hoje (sábado) e será difícil recorrer a estoque. Por não termos frigorífico, a saída é comprar para dois dias, às vezes só para a demanda diária, mas logo nosso fornecedor de carne também ficará sem estoque. Os hortifrutis ainda podem ser encontrados na Manaus Moderna, pois o que vem via fluvial ainda não foi afetado pela falta de combustíveis, mas não sabemos até quando podemos contar com isso", afirmou.

O que pode ser estocado com mais facilidade e sem risco de perdas, como os não perecíveis continuam nas prateleiras, continua Branco. "Produtos de limpeza e higiene não correm o risco de acabar. Assim como bebidas alcoólicas e refrigerantes. Nossa maior preocupação é mesmo com uma possível falta de carne, frutas e verduras", disse.

Diretamente ligados ao setor primário, que por sua vez depende de diesel e gasolina para o escoamento da produção, os restaurantes já ligaram o alerta para a escassez, conta o empresário Maycko Soares proprietário de um restaurante na área central. "Comprei mantimentos para duas semanas, mas alguns produtos como alface, tomate e outros percíveis não podem ser congelados. Tenho que buscar alternativas e mudanças no cardápio. Mesmo contando com fornecedores e o mercado na área central, no caso de a greve se estender por mais dias, sentiremos sim a escassez. Felizmente o movimento do restaurante ainda se mantém na normalidade", encerra.

Paralisações históricas

Em 1999 a mobilização de cerca de 700 mil caminhoneiros, pedia o congelamento do preço do diesel, que subiu 37% de janeiro a junho daquele ano. Em menos de uma semana a categoria teve atendida a maioria de suas reivindicações, como o congelamento por alguns dias do preço do diesel e das tarifas de pedágio.

No ano de 2012, uma paralisação para protestar contra normas da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) que regem as atividades dos profissionais, mobilizou novamente a categoria. Em poucos dias o governo cedeu em três dos 12 pontos da pauta de reivindicação, flexibilizando a lei que passou a regulamentar a carga horária dos caminhoneiros que passarama a ter um descanso de 30 minutos a cada quatro horas de trabalho e um descanso diário de 11 horas contínuas.

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