Manaus, 12 de Novembro de 2018
Siga o JCAM:

Açaí: o poder além da polpa

Por: Evaldo Ferreira - eferreira@jcam.com.br
07 Mai 2018, 19h27

Crédito:César Pinheiro
O açaí faz sucesso há muito tempo, no Pará e no Amazonas, e mais recentemente no Brasil, mas o que quase ninguém sabe é que o caroço do açaí, desde sempre, jogado no lixo, possui várias utilidades.
"Um fruto de açaí possui de 10% a 15% de polpa e os restantes 85% a 90% são o caroço. Percebendo que toda essa quantidade de matéria-prima não utilizada era jogada fora, resolvi pesquisá-la", falou o pesquisador Antonio Carlos Tinoco, proprietário da PRB (Produtos Regionais do Brasil), localizada em Manaus.

Em 2000 Tinoco começou a pesquisar o açaí e, em 2005, lançou o livro 'Açaí, novas perspectivas de negócios', uma verdadeira Bíblia para quem planta açaizeiros e pretende explorar 100% do fruto.
"As pessoas sempre acharam que os caroços não serviam para nada e os descartavam no meio ambiente, em lixões à beira de ruas ou rodovias. Até há poucos anos esses caroços eram utilizados apenas como adubo, mas em quantidade insignificante. Segundo estudos da Universidade Federal do Pará, só em Belém são descartados por dia, entre 300 e 350 toneladas de caroços. Mas o açaí é produzido em todos os Estados amazônicos e cada um deles pode produzir de 400 a 450 toneladas/dia de caroços, em safras que ocorrem o ano inteiro, variando de Estado para Estado", disse.

Através das pesquisas de Tinoco e de várias outras realizadas por pesquisadores em toda a Amazônia, sabe-se hoje que os caroços de açaí podem ser utilizados na indústria automobilística, de móveis, fitoterápica, cosmética, de alimentos, como ração animal, e mais recentemente veio à tona, após uma matéria veiculada por um canal de televisão, a utilização do caroço torrado acrescido de pó de café.
"As pessoas que apareceram naquela matéria aprenderam comigo a técnica da torrefação do caroço de açaí através de um curso que eu promovi em Codajás", falou. "Após torrado e moído, obtém-se o A4 que, acrescido de 20% a 30% de café, adquire o aroma e a cor deste, porém a bebida fica rica em inulina, fibras e minerais e é recomendada aos diabéticos e obesos, porque contribui para a redução da glicose e do colesterol, além de possuir qualidades nutricionais que o café não tem", assegurou.

A4 bebida sabor café

Sobre a 'briga' a respeito de qual açaí é melhor, se o do Pará ou o do Amazonas, Tinoco tem a resposta para a questão. "Realmente os dois Estados possuem espécies diferentes de açaí: o do Pará é o Euterpe oleracea Mart, com frutos ligeiramente ovais, cor interna marrom e elevado teor de tanino (antioxidante, anti-radicais livres, previne doenças degenerativas, cardiovasculares, reduz os riscos de câncer de mama, próstata e pulmão); e o do Amazonas é o Euterpe oleracea precatoria, com frutos perfeitamente redondos, cor interna clara e baixo teor de tanino, mas um tem substâncias que o outro não tem, ou seja, ambos são bons", garantiu.

Tinoco chegou a lançar o A4, em pacotes, mas vendeu a empresa. "Trata-se de um produto de enorme potencial em termos econômicos, pois as sementes, os caroços, do açaí depois de extraídos diversos produtos, passam a valer de três a quatro vezes mais que as sementes frescas, pois estão prontas para se tornarem A4, a bebida sabor café", explicou.

"O A4 tem como finalidade atender a uma fatia do mercado na qual as pessoas, por algum motivo, não podem ingerir cafeína, presente na bebida derivada do café e que estimula o sistema nervoso central. Algumas pessoas sentem insônia, outras mal estar, dor estomacal, taquicardia ou simplesmente não aprovam o gosto forte do café. O A4 sabor café não é o café como conhecemos e sim um mix de café + A4 com cor, sabor e aparência de café, porém, com valores nutricionais saudáveis", revelou.

"Atualmente os caroços são mais valiosos e rentáveis como subproduto do que a polpa, e podem ser utilizadas em escala muito grande, sem agredir os ecossistemas da Amazônia, pelo contrário, preservando o meio ambiente e gerando renda ao homem amazônico", revelou.

"Infelizmente as coisas no Brasil andam muito devagar. Desde a década de 1950 sabe-se da potencialidade do açaí, em vários segmentos, mas até agora, muito pouco é explorado desse fruto amazônico, e menos ainda dos caroços. Espero que o A4 retorne com força ao mercado", concluiu.

Como tratar as sementes

O primeiro passo é, após recolhidas, despolpar as sementes. Em seguida devem ser secas ao sol ou em secador mecânico, até atingirem a umidade necessária para que não venham a mofar pelo excesso de umidade quando estocadas. Sementes devidamente secas são selecionadas em peneira mecânica a fim de remover a palha, talhos e impurezas. Obtido grãos limpos e secos, estes serão processados em secador para remoção das fibras existentes. O produto limpo é estocado em sacos de aniagem, ou de juta, para a formação de estoques a ser consumido pela indústria de torrefação, ração e outros. Contatos com Tinoco podem ser feitos através do e-mail: prbltda@hotmail.com

Comentários (0)

Deixe seu Comentário