Manaus, 19 de Setembro de 2018
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"Onde se ouvia ao longe a batida do tambor"

Por: Evaldo Ferreira - eferreira@jcam.com.br
30 Abr 2018, 19h06

Crédito:Divulgação
Editado pela Universidade Federal Fluminense, acabou de chegar a Manaus o livro 'Tambor dos pretos: processos sociais e diferenciação étnica no rio Jaú, Amazonas', escrito pelo antropólogo amazonense João Siqueira. Resultado da pesquisa de doutorado de Siqueira, o livro apresenta uma ampla reflexão sobre a formação de unidades sociopolíticas identificadas com o Tambor, o primeiro quilombo reconhecido no Amazonas. O livro traz a trajetória dos principais responsáveis pelo estabelecimento do Tambor: José Maria dos Santos e sua esposa, Otília Maurícia dos Santos. Foram eles os desbravadores do lugar, que se tornou mais tarde locus de organização e de resistência de seus descendentes. João Siqueira falou um pouco mais sobre o livro ao Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio - Tambor é um quilombo, pois seus habitantes não são ex-escravos? O que realmente é um quilombo?
João Siqueira - É importante ter em mente que as comunidades reconhecidas como remanescentes de quilombo, não são necessariamente formadas por ex-escravos ou descendentes diretos destes.
O que realmente importa na formulação desta noção de quilombo é a constatação sociológica relativa à trajetória histórica própria do grupo, a sua relação com determinada territorialidade, à presunção de ancestralidade negra relacionada com resistência às situações de opressões historicamente sofridas.
Ressalta-se neste conceito, portanto, a ideia de que os grupos sociais descritos como remanescentes de quilombo não apenas apresentem uma 'identidade histórica', que pode por eles ser assumida, mas é preciso, sobretudo, que na condição de sujeitos históricos presumíveis eles existam no presente e sejam relacionados com a ocupação de uma terra que, por direito, é de responsabilidade do Estado brasileiro titulá-la em nome do grupo.
JC - Quando o Tambor começou a ser formado? De onde vieram seus fundadores e por que foram parar ali?
JS - A presença das famílias negras das quais descende parte dos moradores do Tambor no rio Jaú remonta ao final da primeira década do século 20. Consta que nesse período o casal Jacinto Francisco de Almeida e Maria Leopoldina, acompanhado de um conhecido chamado Isídio Caetano Nascimento, se instalaram na localidade Arpão, na margem direita do médio Jaú.
Com a exceção de Isídio, cuja origem aparece como incerta em alguns relatos, mas em outros aparece como oriundo da Bahia, os demais negros vieram de Sergipe. De acordo com as informações disponíveis, a chegada de Jacinto e da esposa Leopoldina ao Arpão se deu entre 1908 e 1909. A vinda desse casal foi seguida, posteriormente, pela chegada de seu sobrinho José Maria dos Santos e da esposa Otília Maurícia dos Santos. Sobre as condições e circunstâncias que motivaram essas famílias a avançar rio acima e se instalar em local de tão difícil acesso ainda restam dúvidas que não puderam ser esclarecidas pelas fontes que consultei. No entanto, me parece razoável imaginar que a vinda delas possa ter se dado em função de coação ou de adversidades próprias do seu lugar de origem. Assim, uma primeira hipótese é de que elas teriam se evadido de alguma situação ameaçadora ou socialmente degradante, algo muito comum no período seguinte à abolição da escravatura. Uma segunda hipótese a ser considerada é de que essas famílias, ao migrarem inicialmente para Manaus, não se acharam em condições de fixar moradia na cidade, optando pela subida em direção à cabeceira do rio Jaú, onde à época ainda havia intensa exploração de atividade extrativista.

JC - É verdade que o nome Tambor originou-se dos batuques de seus atabaques, que eram ouvidos longe, no rio?
JS - Segundo Jacinto Maria dos Santos, hoje o mais antigo morador do Tambor, o nome "era antigo, vinha de longe". Há uma narrativa interna que associa o nome a determinadas práticas de coesão social marcadas por festejos "onde se ouvia ao longe a batida do tambor".
Percebi, em seguida, que essa mesma narrativa era também enredada por elementos mágicos, em que determinados rituais eram redimensionados, e, assim, o "ronco do tambor" podia tornar-se audível no presente mesmo por pessoas de fora da comunidade. Por outro lado, havia relatos que associavam o nome Tambor ao processo de exploração da borracha. De acordo com informações de outros moradores e de pessoas que viveram muito tempo no Jaú, esse nome estaria relacionado à existência, no passado, exatamente naquela localização, de um ponto de armazenamento de combustível, algo parecido com um entreposto.
As embarcações que pretendiam subir até à cabeceira do Jaú, em busca da goma elástica e de outros produtos da floresta, deixavam naquele ponto suas reservas de diesel, gasolina e demais suprimentos. Considerando que a navegação é bastante dificultada à montante do rio pela existência dos muitos obstáculos geográficos e, além disso, os barcos subiam transportando mantimentos para abastecer os barracões, a redução de sua carga em determinados pontos estratégicos tornava-se uma prática de extrema necessidade.
Assim, foram-se estabelecendo vários lugares de armazenamento ao longo do rio para facilitar a navegabilidade entre os quais estava o Tambor, de modo que o nome pode ser também uma alusão aos tambores de diesel que lá eram armazenados.

JC - Onde fica exatamente o Tambor e como se chega lá? Pode-se ir lá, conhecer seus moradores?
JS - Situa-se na margem esquerda do rio Jaú, a uma distância de 172,4km de Novo Airão, e 293,3km da cidade de Manaus, em linha reta, respectivamente núcleo e centro urbanos com os quais seus moradores mantêm contatos frequentes. Porém, na prática, deve-se considerar que a distância por via fluvial do Tambor até Novo Airão, para onde as pessoas da comunidade se deslocam com mais frequência, é de 274km, o que equivale a aproximadamente três dias de viagem, se pequenos barcos ou 'rabetas' forem utilizados como meio de transporte. O acesso à comunidade é possível somente pelo rio Jaú e a visita à comunidade pode ser feita normalmente, mas é preciso antes solicitar permissão do ICMBio, responsável pela administração do PNJ (Parque Nacional do Jaú).

JC - Quantas pessoas vivem no Tambor, o que fazem, como vivem?
JS - Quando minha pesquisa de campo encerrou, em agosto de 2011, havia aproximadamente 25 famílias morando em toda a área que corresponde à comunidade do Tambor. Atualmente é muito certo que haja número maior de famílias. Todavia, importa ressaltar que mesmo depois dos primeiros anos da criação do PNJ havia pelo menos uma centena de famílias morando ao longo do rio Jaú.
A violência e as pressões dirigidas contra essa população que se seguiram logo após a instalação da base de controle do PNJ quase provocou o chamado 'esvaziamento' pretendido pela administração da unidade de conservação. Todas as famílias que moram no Tambor trabalham e vivem da agricultura com base na roça e da coleta de produtos da floresta como castanha, óleos, sementes e fibras.

JC - Existem outros quilombos no Amazonas, na Amazônia?
JS - Sim. Atualmente já foram reconhecidas mais três situações com tais características, além do Tambor que foi a primeira delas.
Existem as comunidades quilombolas do rio Andirá, em Barreirinha, a comunidade quilombola do Sagrado Coração do Lago da Serpa, em Itacoatiara, e a comunidade quilombola do Barranco, em Manaus, esta constituindo-se em um quilombo urbano.
Em termos da Amazônia brasileira, os Estados com a maior concentração desses povos são Amapá e Pará, mas há também reconhecimento e identificações nos demais Estados, como Rondônia, Mato Grosso e Acre.

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