Manaus, 16 de Novembro de 2018
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O velho trabalho que dignifica

Por: Evaldo Ferreira - eferreira@jcam.com.br
27 Abr 2018, 18h58

Crédito:Walter Mendes
Atividades laborais parecem ter vida própria. Por algum motivo surgem, algumas duram séculos, outras apenas décadas, podem transmutar-se ou permanecer sempre do mesmo jeito, virar uma profissão, ou continuar apenas como simples atividade laboral, e até desaparecer.

O livreiro Celestino Neto lembra que na sua infância, há mais de 40 anos, era comum ver pelas ruas de Manaus o vendedor de rala-rala, o cascalheiro, o piruliteiro e o vendedor de roletes de cana-de-açúcar. "Mas foram sumindo, até não se ver mais nenhum. Com a chegada dos haitianos a Manaus, vi voltar o vendedor de rala-rala e o cascalheiro, mas o piruliteiro e o vendedor de roletes de cana-de-açúcar, estes faz muito tempo que não vejo", falou.

O historiador e escritor Aguinaldo Figueiredo buscou no fundo do baú atividades laborais que não existem mais há muito tempo na capital amazonense. "Tinha o vendedor de gelo, que levava as barras até a casa das pessoas. Como não tinha energia, e nem geladeiras, as barras eram cobertas com pó de serragem para aguentar mais tempo. Da mesma forma tinha o leiteiro, que caminhava pelas ruas vendendo o leite dentro de grandes vasilhas de metal e outras menores, onde media a litragem. E o teco-teco. Esse profissional, com uma máquina que fazia teco-teco, cortava o mato que teimava em nascer entre os paralelepípedos que cobriam algumas ruas de Manaus antes do asfalto", ensinou.

Saudades do projetista

A escritora e jornalista Elza Souza lembrou de personagens ligados ao seu mundo infantil e adolescente no bairro de São Raimundo, na década de 1960. "Eram profissões que se destacavam pela sua importância, porque eram muito necessárias, como o sapateiro, por exemplo. Manaus não tinha lojas de sapatos, então você tinha que fazer o seu durar o máximo possível, sempre com boa aparência, e o responsável por isso era o sapateiro. Tinham os bucheiros, no matadouro, o Curre, que existiu no São Raimundo de 1912 até 1973, abastecendo Manaus de carne. Os bucheiros ganharam esse apelido porque vendiam na cidade o bucho dos bois, que 'ninguém' queria porque dos bois só se comia a carne. Depois que o matadouro fechou e abriu o Frigomasa, mais higiênico e organizado, os bucheiros sumiram. Tinham os catraieiros, que transportavam as pessoas do São Raimundo para o centro de Manaus e vice-versa. Estes foram sumindo, após a inauguração da ponte, em 1987, até desaparecerem por completo.Tem os barbeiros, que a partir dos anos de 1970 foram substituídos pelos cabeleireiros, mas agora estão de volta, na moda; e um profissional que marcou minha adolescência de menina romântica, apaixonada por cinema, foi o operador de filmes, ou projetista. Esse profissional pode até existir, mas não é mais romântico como antigamente. Quem assistiu o filme 'Cinema Paradiso' sabe do que estou falando", lamentou. "No Cine Ideal, que ficava no São Raimundo, tinha o Flávio Pereira de Souza. Ele nasceu em 1933 e, segundo minhas pesquisas, trabalhou toda a vida como projetista do Ideal, que funcionou do início da década de 1950 até 1972. Minha casa era vizinha ao cinema e via o Flávio brigando com os moleques que queriam entrar no cinema, sem pagar, pela porta dos fundos. Ele, como projetista, acabou junto com o Cine Ideal", recordou.

De geração pra geração

Gerson da Silva Sá se enquadra numa atividade considerada uma das mais antigas do mundo. Documentos ingleses de 1297 já registram a existência do tailor, o cortador de tecidos, o mesmo alfaiate (do árabe alkhayyát). Gerson começou a cortar tecidos com uns dez anos de idade, ajudando a mãe, a costureira Maria da Silva Sá, há mais de 50 anos.

"Ela tinha uma fábrica de roupas, na Chapada, ali pelas imediações do (ex-hospital psiquiátrico) Eduardo Ribeiro, na década de 1960. Quando eu completei 18 anos, entrei pro Exército, e lá comecei a costurar e fazer os uniformes dos meus colegas e dos oficiais, e cobrava pelo trabalho. Não parei mais até hoje. Desde os tempos do serviço militar, em 1973, nunca deixei de fazer uniformes para o Exército. Depois passei a fazer para a Marinha, a Aeronáutica e a Polícia Militar", contou.

"Sou dos últimos alfaiates ainda existentes em Manaus. O que praticamente acabou com a profissão foi a vinda das roupas industrializadas, importadas, que chegaram à cidade com a Zona Franca. Logo surgiram lojas de roupas por todo lado, baratas, e as pessoas pararam de mandar fazer roupas no alfaiate, ainda que só quem tivesse dinheiro pudesse mandar fazer um terno num alfaiate, mas estes também migraram para as lojas. Ainda faço casacos, ternos, smokings, mas é difícil aparecer um pedido assim. Os uniformes militares é que mantêm em alta a alfaiataria. As encomendas nunca cessam. A vantagem de se fazer uma roupa num alfaiate é que ela sai perfeita, sob medida", disse.

Assim como a mãe de Gerson havia aprendido a costurar com a mãe dela, e o ensinou, os filhos dele aprenderam o ofício com ele, e os quatro hoje trabalham na Alfaiataria Manaus, da família, na rua Itamaracá, 94, no Centro.

"Minha esposa Célia Borges casou comigo em 1975 e começou a me ajudar e os filhos, Emerson, Genison, Ester e Cintia, foram aprendendo e se tornando alfaiates. Eu penso em me aposentar. Já estou há 45 anos fazendo roupas todos os dias. Estou cansado, mas meus filhos ainda têm muito chão pela frente, enquanto tiver encomendas", finalizou.

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