Manaus, 19 de Novembro de 2018
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"Trabalho mais difícil da minha trajetória"

Por: Evaldo Ferreira - eferreira@jcam.com.br
16 Abr 2018, 19h19

Crédito:Walter Mendes
A Editora Valer acabou de lançar 'Poranduba Amazonense', um dos livros mais importantes sobre a cultura popular da Amazônia, escrito pelo grande cientista Barbosa Rodrigues, e que estava há mais de cem anos sem edição alguma. A reedição de 'Poranduba Amazonense' foi organizada pelo escritor Tenório Telles que, conforme contou ao Jornal do Commercio, foi o trabalho mais difícil de sua trajetória como editor.

Jornal do Commercio - Qual a importância de 'Poranduba Amazonense' e por que esse livro ficou tanto tempo sem ser editado?
Tenório Telles - Barbosa Rodrigues prestou relevante contribuição aos estudos sobre a Amazônia. 'Poranduba Amazonense' é um livro seminal para a compreensão de nosso processo cultural e uma fonte valiosa para os pesquisadores da cultura oral em nossa região. A razão de ter ficado mais de um século sem edição, deve-se ao pouco apreço pela memória das nossas populações autóctones e à complexidade da obra: as narrativas foram colhidas em nheengatu e transcritas para o português. Além disso, a atualização da linguagem para os nossos dias era um fator limitativo. Confesso que foi um trabalho exaustivo.

JC - Fale um pouco sobre o conteúdo do livro.
TT - 'Poranduba' é uma palavra que significa 'história' ou 'notícia', o que explica, de certo modo, a própria estrutura da obra: compõe-se de quatro blocos de narrativas e cantigas: 'Lendas mitológicas', 'Contos zoológicos', 'Contos astronômicos' e 'Cantigas'. Fiz incluir nesta edição, inclusive, o 'Vocabulário indígena comparado' -Português/Nheengatu, organizado por Barbosa Rodrigues. Este livro é um tesouro de histórias de nossa terra.

JC - Como você descobriu esse livro e como soube da importância de seu conteúdo?
TT - Tomei conhecimento do 'Poranduba' na Universidade do Amazonas, quando cursava Letras. Fiz uma pesquisa sobre as obras mais importantes produzidas no e sobre o Amazonas -e cheguei a diversos títulos, que, anos mais tarde, foram incorporados ao projeto editorial da Editora Valer. Alguns conseguimos reeditar e outros estão à espera de retornar ao convívio com os leitores. Na época tinha poucas informações sobre o seu conteúdo. Quando consegui uma cópia me apaixonei pelo trabalho de Barbosa.

JC - Você ficou dez anos trabalhando nos textos de 'Poranduba'. Por que tanto tempo?
TT - Trata-se de um livro complexo de ser produzido em termos editoriais, até pelo fato de ter sido escrito na segunda metade do século 19. Tive que fazer a atualização da grafia (na época da primeira edição muitas palavras tinham outra escrita), checar, após a digitação, as palavras em nheengatu, fazer a translineação e a correspondência dos vocábulos em língua indígena e português. Corrigir os erros de composição da edição original. Ao final, os ajustes, as revisões e o cotejamento para conferir se não tinha havido mutilação dos textos. Tive que estudar um pouco de nheengatu, consultar livros sobre o tema. Foi o trabalho mais difícil da minha trajetória como editor.

JC - Barbosa Rodrigues é um desconhecido para os amazonenses, ainda que tenha realizado pesquisas relevantes para a região.
TT - Desde que Barbosa Rodrigues foi embora do Amazonas, com o advento da República, sua obra e sua história ficaram em suspenso: um grande e longo silêncio, principalmente em nossa terra. Em âmbito nacional, algumas poucas iniciativas foram empreendidas para recuperar sua contribuição, especialmente no campo da botânica. Ele foi um grande estudioso da flora brasileira, reconhecido internacionalmente. Seu trabalho sobre a Amazônia é um aspecto da sua produção científica.

JC - O que de importante ele deixou para as gerações atuais?
TT - Barbosa Rodrigues é exemplo de dedicação à ciência e de persistência, pois, em meio às condições mais adversas, não se deixou abater e empreendeu iniciativas importantes para os estudos sobre a cultura popular na Amazônia, sobre a flora, sobre a antropologia, a arqueologia e a pesquisa linguística sobre as línguas indígenas. Seu legado tem um grande significado nos dias de hoje, pelo seu compromisso e amor pela ciência -e seu reconhecimento da importância da Amazônia para o Brasil.

JC - O sonho de um Museu Botânico do Amazonas, idealizado por Barbosa Rodrigues, ainda que tenhamos uma das floras mais ricas do planeta, até hoje não se realizou.
TT - Penso que a descontinuidade do Museu Botânico foi uma das maiores tragédias para o progresso da ciência no Amazonas. Um prejuízo incomensurável, com grande repercussão ainda hoje. Fico imaginando o que seria o Amazonas, em termos científicos, se a inveja, a maldade e o revanchismo não tivessem levado o Museu sonhado por Barbosa Rodrigues à ruína. Com os conhecimentos que poderiam ter sido produzidos, o processo econômico regional teria tido outros desdobramentos, com o aproveitamento da riqueza da biodiversidade de nossa região. É um sonho à espera de algum governante com sensibilidade e compromisso com o futuro da terra.

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