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Espaços de aprendizagem

Por: Daniel Nascimento
16 Abr 2018, 14h31

O início do século 21 tem se caracterizado pela profusão de informações. Tem sido, até agora, o século das informações. E informação não é conhecimento. Há diferenças cruciais entre esses dois fenômenos, ambos essenciais para a aprendizagem. A impressão que se tem, por exemplo, é que a profusão de informações tem feito aparecer, também, inúmeros espaços de aprendizagem, enquanto ambientes físicos, virtuais ou semifísicos ou semivirtuais, onde ela acontece. O conhecimento, produto do manuseio de dados e informações, é consequência da aprendizagem, de maneira que se poderia estabelecer uma rede relacional do seguinte tipo: dados e informações permitem a aprendizagem que produz o conhecimento que, por sua vez, é capaz de produzir mais dados e informações, em um processo infinito. Este artigo tem como objetivo explicar o que são espaços de aprendizagem.

Consulta feita neste mês de abril à base de dados Elsevier mostrou a existência de 28.384 textos sobre ambiente de aprendizagem (learning environment) e 1.636 sobre espaços de aprendizagem (learning spaces). Para que se tenha uma ideia do que isso representa, o mesmo levantamento feito para ambiente pedagógico retornou apenas 149 textos e espaços pedagógicos, somente 92 míseros textos em toda a base de dados! Descobriu-se, também, uma diferença abissal: os textos com a visão pedagógica vêm diminuindo ao longo das décadas, enquanto os relativos à aprendizagem vêm aumentando enormemente, principalmente nos últimos 10 anos.

Por que isso acontece? Alguém poderia se perguntar, com razão, uma vez que temos problemas gravíssimos e crônicos com a educação nacional, desde a pré-escola ao pós-doutorado. Porque os espaços e ambientes de aprendizagem estão por todos os lados, enquanto os pedagógicos, que também fazem parte dos ambientes de aprendizagem e deles são apenas uma pequena parte, são os espaços e ambientes voltados apenas para crianças. Evidentemente que essa é uma posição da ciência, tomada em seu sentido pleno, que é o esforço de todos os pesquisadores do planeta para construir conhecimentos que permitam que os indivíduos do planeta aprendam mais e de forma mais consequente.

Por essa razão os estudos sobre os ambientes e os espaços de aprendizagem focam questões praticamente esquecidas pelos profissionais da educação brasileira, como a influência do psiquismo, e toda sorte psíquica, intrapsíquica, psicológica e psicanalítica, sobre a aprendizagem. E aqui está precisamente a grande preocupação da educação em praticamente todos os países do mundo: a aprendizagem. Os pesquisadores, e seus estudos mostram isso, têm como foco principal a aprendizagem, desde o indivíduo em estágio fetal e pré-fetal até os instantes imediatamente anteriores à morte. Estudos há, inclusive, que mostram que os indivíduos continuam a aprender (e mais intensamente) após o desencarne!

Que espaços são esses, afinal? São todos aqueles que permitam algum tipo de aprendizagem. É meio esquisita a resposta, mas é perfeitamente possível compreendê-la a partir de alguns exemplos. Creches são ambientes de aprendizagem (espaços pedagógicos) porque ali há os objetivos, recursos, estratégias e as pessoas suficientes e adequadas para que a aprendizagem aconteça. Isso é óbvio, alguém poderia dizer, com razão. Mas a exposição artística, digamos que uma amostra de artes plásticas, também é um espaço de aprendizagem. Lá estão os recursos e as pessoas suficientes e adequadas para tal, se o sujeito, que é aquele que quer aprender, apresentar os objetivos e as estratégias para capturar a aprendizagem pretendida.

Veja outro exemplo corriqueiro no meio educacional à distância. O ambiente virtual de aprendizagem (notem os termos "ambiente" e "virtual") está lá com os recursos e as pessoas adequadas e suficientes para que a aprendizagem aconteça. É necessário, contudo, que o sujeito (o aluno ou o aprendiz, como se fala hoje) entre com a vontade de aprender alguma coisa (seu objetivo) e efetivamente o faça (a estratégia). Como objetivo e estratégia são os dois componentes obrigatórios de existência de qualquer plano, poderemos sintetizar os espaços de aprendizagem como aquele composto por um sujeito com um plano, recursos e pessoas adequadas e suficientes para que a aprendizagem aconteça.

De posse dessa definição, poderemos visualizar infinitos espaços de aprendizagem por todos os lugares. Uma escola, por exemplo, tem diversos espaços de aprendizagem: salas de aula, laboratórios, quadras de esportes, auditórios, biblioteca, dentre outros ambientes físicos visivelmente destinados para tal, mas também os jardins, corredores, calçadas, gabinetes de trabalhos, cantinas e até instalações sanitárias são espaços perfeitamente transformáveis em ambientes de aprendizagem. Aliás, o que se tem visto na realidade efetiva e no que é retratado nos estudos científicos é o aproveitamento cada vez maior desses outros espaços, em detrimento dos espaços tradicionais. Diversos estudos também explicam por que isso acontece; dentre os fatores mais constatados está a mudança, nos sujeitos de aprendizagem, de auditivos para visuais. As pessoas, hoje, aprendem mais vendo e interagindo do que ouvindo e repetindo, como era antigamente.

O mundo mudou assombrosamente nos últimos vinte anos. Nos espaços de aprendizagem, parece que a mudança é milenar. Na área de educação, como um todo, a mudança é revolucionária. É tanta revolução, por exemplo, que grande parte das invenções e descobertas científicas da última década sobre aprendizagem não vêm de pesquisadores da educação, mas da neurologia, psicologia, genética, ciências da informação, medicina, enfermagem, administração, linguística, semiótica, semiologia, lógica e matemática. A impressão que se tem, como primeira conclusão, é que a área de aprendizagem está substituindo a ideia de educação (no sentido pleno de compreensão do fenômeno aprender), quase sempre sinônima de ranços autoritários e aprisionada ao passado.

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