Manaus, 18 de Setembro de 2018
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Amazonas deixa de faturar R$ 50 milhões

Por: Hellen Miranda - hmiranda@jcam.com.br
03 Abr 2018, 20h08

Crédito:Walter Mendes
Mesmo com o título de maior produtor de juta e malva do país, a produção da atividade tem registrado queda no Amazonas, segundo dados da pesquisa "Observações Juta /Malva - Importações 2017", do consultor técnico Ivo Naves. Os registros apontam que o interior do Estado deixou de movimentar cerca de R$ 50 milhões. Em 2017, as importações do produto atingiu a marca de 6,7 mil toneladas contra 9,9 mil toneladas geradas no ano anterior. Atualmente, existem entre 10 a 20 mil produtores rurais que fazem a colheita das fibras às margens dos rios.
Na avaliação do presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Amazonas), Muni Lourenço, de fato a produção de fibras tem mostrado uma trajetória descendente na região. Ele lamenta que embora a produção de fibras têxteis tenha ganhado espaço no mercado em substituição aos populares sacos plásticos, o Amazonas não acompanhou essa tendência.

"Esse fator impulsiona a importação da matéria-prima oriunda de outros países, principalmente do sudeste asiático. Ao nosso ver é uma vulnerabilidade. Temos uma crescente demanda por produtos orgânicos como as embalagens ecologicamente corretas, usadas boa parte no café, cebola e batata, que se fossem feitas aqui a partir dessas duas plantas, poderiam estar gerando emprego e renda para o produtor local", afirma Muni.

Para o presidente, um conjunto de fatores tem contribuído para o encolhimento da produção de fibras no Amazonas, entre eles, a questão climática da região. "A fibra é produzida em áreas de várzea, que no Amazonas são imensas, mas que são duramente atingidas pelas grandes cheias", disse. O Estado detém cerca de 24 milhões de hectares de áreas de várzea, que além da juta e malva, também são usadas em outros cultivos, como de mandioca e criação de animais.
Além disso, Muni cita ainda a necessidade de políticas públicas viáveis voltadas para a atividade. "É preciso ter o fortalecimento de apoio, a viabilização ao acesso de sementes naturais e do pagamento da subvenção ao produtor. Também é importante a substituição de sacos plásticos pela sacaria de fibras naturais nos estoques públicos, que já tem um decreto federal, onde estabelece a prioridade nas compras desses produtos sustentáveis", destaca.

Ele ressaltou ainda que para projetar a produção e demanda deste ano, é preciso aguardar a concretização de algumas ações importantes. "Tem o início do programa de substituição por sacos de fibras da Conab e a questão da inclusão de sementes de fibras naturais no PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) do governo federal, que poderão mudar essa trajetória de queda", prevê.

O Programa de Aquisição de Alimentos foi criado em 2003 com o objetivo de adquirir diretamente dos agricultores familiares produtos para formação de estoques estratégicos e distribuição à população. Em 2015, o governo autorizou a inclusão das sementes como nova modalidade do programa.

"Outro fator fundamental para a revitalização da cadeia produtiva, que são os investimentos em tecnologias com intuito de melhorar a produtividade das fibras naturais para o uso em outros segmentos, como da construção civil e medicina. Além disso, pretendemos desenvolver uma máquina para atender a atividade em terra firme, porque ainda temos um trabalho anfíbio, onde dentro d'água podem haver acidentes e doenças", acrescenta Muni.

Autossuficiente na produção

Segundo o ex-superintendente da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) e especialista do setor de agronegócio, Thomaz Meirelles, a safra deste ano deve chegar apenas a 3 mil toneladas, quando precisaria de 15 mil para atender a demanda local. "Com investimentos de apenas R$ 3 milhões, por exemplo, a cadeia da malva ganharia impulso e começaria a movimentar economia. Mas falta prioridade dos gestores para o setor primário, ainda somos voltados para o PIM (Polo Industrial de Manaus)", frisa.

Ele defende que é preciso ter um olhar "carinhoso" para a revitalização da atividade. "Parece que a atual gestão do governo vai fazer algo para levantar a produção, tanto que o primeiro passo foi dado em Brasília, onde foi anunciado que o Amazonas vai voltar a comprar semente do Pará. É um bom sinal, já que se isso não acontecer, a tendência é acabar com ela", sentencia.

Thomaz lembrou que pela falta de produção local, tem indústrias comprando a matéria- prima do outro lado do mundo, principalmente de países como Bangladesh e Índia. "Estamos abrindo mão dessa atividade e deixamos de movimentar no interior cerca R$ 50 milhões, podendo esse dinheiro ficar na economia dos municípios envolvidos com ela", afirma. O especialista defende também a atualização do pagamento da subvenção adicional, que hoje é R$ 0,40 kg, além de apoiar as iniciativas da Ufam e Embrapa na produção interna de sementes.

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