Manaus, 18 de Setembro de 2018
Siga o JCAM:

Longe de casa, fazendo arte

Por: Evaldo Ferreira - eferreira@jcam.com.br
23 Mar 2018, 19h02

Crédito:Walter Mendes
Suas cidades e seus países ficaram para trás e agora Manaus é a terra que lhes acolheu, ainda que as lembranças de seus locais de origem nunca tenha saído de suas mentes.

A peruana, de Iquitos, Tatiana Lopez pode ser conhecida apenas por seus amigos, mas quando surge a cantora Taty Corazón, não há manauara amante da música latina dançante que não a conheça. Taty mora em Manaus há 12 anos, sempre cantando. "Meu pai, Igor Lopez, é instrumentista. Entre 1986 e 1987 ele viajou por várias cidades brasileiras se apresentando com um grupo de música folclórica peruana e se apaixonou pelo Brasil. Em 2005 ele resolveu vir para cá com toda a família: minha mãe, meus dois irmãos Igor e Antony, e minha irmã Talina. Da primeira vez ele nem havia passado por Manaus, mas também se apaixonou pela cidade quando a conheceu", contou.

"Nessa segunda vez viemos parando por cidades do alto Solimões, Tabatinga, Tonantins, até chegar a Manaus. E aqui ficamos", recordou. "Naquela época era a Talina quem cantava, e eu, com 15 anos de idade, apenas fazia a segunda voz. O Igor tocava teclado e o Antony, vários instrumentos. Depois a Talina casou e voltou para o Peru e eu assumi o vocal do grupo. Meus irmãos continuam comigo até hoje e meu pai é o nosso empresário", falou.

Taty Corazón se tornou profissional da arte de cantar e vive disso. "A música latina sempre fez sucesso, porque é vibrante e dançante, mas agora, com sucessos como 'Despacito' e 'Subeme la rádio' estourando no mundo, está fazendo ainda mais sucesso. Todo final de semana faço shows. Tenho como base o restaurante colombiano La Finca, mas aparecem vários outros shows, inclusive com artistas amazonenses", explicou.

Apesar de ter vindo para o Brasil ainda adolescente e já ter uma filha amazonense, Taty Corazón disse nunca esquecer do Peru. "O povo de Iquitos é igual ao de Manaus, alegre, festeiro. O clima da cidade também é o mesmo, mas eu sinto saudades de algumas comidas que só existem lá, como certos temperos típicos. Minha mãe está pra lá, agora, passeando, e eu fiz uma lista de coisas pra ela trazer pra mim. Eu e minha família amamos o Peru da mesma forma que amamos o Brasil", finalizou.

Um 'brachileno' com muito orgulho

Jorge Andrés Uribe Rojas Seixas veio de um dos lugares mais inóspitos do planeta, de El Salvador, um acampamento mineiro localizado no deserto do Atacama, no Chile, onde o pai trabalhava. Ele está no Brasil desde 2006, e em Manaus, desde 2011, onde veio pra estudar, mas acabou ficando.
"Entrei na Universidad Católica de Chile com 20 anos, para cursar engenharia, mas logo vi que não era a minha área. Queria ser músico e no ano seguinte, 2001, já estava cursando música, aprendendo a tocar contrabaixo. Antes, tocava baixo elétrico", recordou.

"Em 2006, através da professora brasileira Ana Maria Pólis, que estava no Chile, consegui uma bolsa para estudar na Universidade Livre de Música, em São Paulo e, nesse mesmo ano, com outra bolsa, desta feita ganhando, fui tocar na Orquestra de Câmara da USP (Universidade de São Paulo)", falou.

Quatro anos depois, ainda em São Paulo, Jorge Andrés conheceu o maestro Luiz Fernando Malheiro, então diretor artístico e regente titular da Orquestra Amazonas Filarmônica, e este o convidou para vir tocar no Festival Amazonas de Ópera daquele ano. Malheiros também disse a Jorge que havia duas vagas de contrabaixista na Amazonas Filarmônica. "Não perdi tempo. Fiz o concurso e passei. Em fevereiro de 2011 estreei na orquestra e desde então estou morando em Manaus", contou.

"Apesar de o clima do Atacama ser quente, é diferente daqui de Manaus. Lá é seco, aqui é úmido. Estranhei isso no começo. Mas depois comecei a gostar dos peixes, da sardinha frita, do tambaqui assado e me apaixonei pela cidade. Gosto da natureza amazônica, das cachoeiras", listou.

"Pra completar, casei com uma 'índia' amazonense e já tenho uma filhinha", riu. "Nas minhas férias, volto ao Chile para rever meus pais, que agora moram na cidade de La Serena. Eles já vieram conhecer Manaus. Atualmente estou ensaiando para o Festival Amazonas de Ópera. Minha rotina é: ensaiar, me apresentar, ser pai e marido. Não penso em ir embora daqui. Sou um 'brachileno' com muito orgulho", finalizou.

Sem tempo para pensar em voltar

Minsk, na Bielorrússia é longe, muito longe de Manaus. Foi de lá que o clarinetista Vadim Ivanov veio, há 20 anos, para tocar na Filarmônica do Amazonas, e aqui ficou.

"Em 1996 a Orquestra de Teatro de Ópera e Balé de Minsky veio se apresentar no Teatro Amazonas e o secretário de Cultura, Robério Braga, perguntou quem dos músicos tinha interesse em ficar em Manaus, para atuar na Filarmônica. Deveria ficar para tocar e ensinar o seu instrumento. Eu aceitei e, em setembro de 1997, me mudei para Manaus", contou.

"Comecei muito cedo na música. Com três anos de idade a professora informou aos meus pais que eu tinha talento para tocar. Com sete anos entrei para a Escola de Música, onde estudei clarinete por onze anos. Depois estudei mais cinco anos na Academia de Música e fiz mais dois anos de mestrado", recordou. "Toco um pouco de piano, porque na Academia temos que aprender. Nos ajuda a desenvolver o ouvido para afinar instrumentos", ensinou.

"Em Manaus, encontrei várias barreiras, mas nada assim tão difícil de transpor. O calor foi uma delas. Cheguei aqui em setembro, o mês do verão, e as pessoas diziam que aquele ano era o mais quente de todos, mas tudo foi questão de eu me acostumar. A língua não foi tão fácil de aprender, mas muitos termos musicais são italianos e isso ajudou, e também porque o ouvido dos músicos sente melhor a vibração das palavras", explicou. "Quanto à comida, era mais ou menos o que eu comia na minha cidade: verduras, frutas, carne. Mas a variedade de frutas é que me chamou a atenção. Também gosto muito dos peixes daqui. Conheço mais de 100 cidades em todo o Brasil e nenhuma tem peixes tão gostosos como os do Amazonas", afirmou.

Vadim está casado com uma amazonense e tem um filho de três anos. Fazia sete anos que não ia a Minsk. Esteve lá em janeiro. "Sou muito ocupado e as passagens para lá são caras. Depois, tenho família e trabalho aqui e não tenho tempo para ficar pensando em voltar para Minsk. De lá sinto falta de algumas comidas típicas e dos artistas e festivais de música que existem em quantidade", falou. Em Manaus, além da Filarmônica, Vadim é professor na UEA. "Sinto orgulho de ter músicos, tocando ao meu lado, que aprenderam comigo, e outros que se tornaram professores de música", enfatizou.

Comentários (0)

Deixe seu Comentário