Manaus, 16 de Novembro de 2018
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Os kambeba do rio Cuieiras

Por: Evaldo Ferreira - eferreira@jcam.com.br
12 Mar 2018, 18h45

Uma única mulher já é forte (ainda que a maioria delas não saiba), imagine quando dez delas se unem em torno de uma causa. Pois foi o que aconteceu na comunidade indígena kambeba Três Unidos, localizada às margens do rio Cuieiras, um afluente do Negro, a 80 km de Manaus, quando Neurilene (Miskui) da Silva se uniu a nove amigas e resolveu abrir o restaurante Sumimi, 'o restaurante da floresta', com destaque para as comidas típicas de seu povo.

"Foi há sete anos. Apesar de distante de Manaus, sempre vinham embarcações até aqui trazendo turistas, e eles queriam comer as nossas comidas. Aí resolvemos abrir o restaurante", contou Miskui.
Mas a comida indígena era a mais natural possível. Gourmetizar era uma palavra que as indígenas Kambeba jamais haviam ouvido falar, ainda assim, serviam seus pratos para os turistas, que se deliciavam, pois para eles interessava saber exatamente o que comiam os 'selvagens' da floresta.
Em novembro de 2016, durante um encontro de lideranças indígenas ocorrido em Manaus, Miskui conheceu o chef André (Dedé) Parente, proprietário da cachaçaria do Dedé. Apaixonado por gastronomia (até hoje, com empreendimentos em Manaus, Belém e Fortaleza, Dedé encontra tempo para ir para a cozinha preparar seus pratos), o empresário logo se interessou em fazer um trabalho com as garotas do Sumimi.

"Achei muito bacana o trabalho delas, principalmente porque as garotas haviam ganho naquele ano o Prêmio Consulado da Mulher de Empreendedorismo Feminino, uma importante ação social da Consul que premia mulheres empreendedoras por todo o país, então eu quis passar os meus conhecimentos gastronômicos para elas no que diz respeito a melhorar o sabor de um prato através dos temperos, tornar o visual do prato mais atraente, se preocupar com a manipulação e a higiene dos alimentos e do local onde são preparados, saber servir uma mesa e atender o cliente da melhor maneira possível, e elas assimilaram muito bem meus ensinamentos", falou Dedé. As garotas Kambeba ainda aperfeiçoaram seus conhecimentos como empreendedoras no Sebrae.

Sumimi é o nome kambeba para os passarinhos japiim, que têm seus ninhos característicos construídos em várias árvores do local. Quanto ao restaurante, é todo construído com madeira, em local privilegiado da comunidade, com uma bela vista do Cuieiras, tendo a floresta ainda quase intocada do outro lado do rio.

"Servimos café da manhã e almoço regionais. No almoço, além da banda assada de tambaqui e da farofa de farinha de uarini com banana, entre outros pratos, destacamos uma comida que é típica dos Kambeba: o fani (macaxeira cozida e ralada, recheada com pirarucu salgado, enrolado na folha de pariri). Fica parecendo uma pamonha, mas é peixe", disse.

Os 'parentes' vieram vindo

Sabe-se que os Kambeba, os mesmos Omaguás, são habitantes do alto Solimões há séculos, mas um dia o indígena Waldemir da Silva veio até Manaus com a mulher e os cinco filhos e resolveu ir conhecer um 'parente', que já morava no Cuieiras. Gostou do local e lá resolveu ficar com a família. Era 1991.
"Aqui era tudo mato fechado, cheio de espinhos. Abri um espaço para a nossa casa e fomos construindo nosso lar. Com o passar dos anos, outros 'parentes' foram sabendo que aqui era um bom local para se viver, farto de caça e pesca, e vieram vindo", contou Waldemir, hoje tuxaua da comunidade Três Unidos e pai de Miskui.

Atualmente 26 famílias vivem na comunidade, 89 pessoas, 32 crianças. "Minha primeira preocupação foi construir uma escola, no começo ensinando somente a nossa língua, kambeba, depois, com a ajuda de professores, passaram a ensinar as matérias dos brancos. Hoje a escola tem o apoio da Samsung e possui os ensinos médio e fundamental", explicou.

Além da escola, a comunidade tem a Igreja católica Divino Espírito Santo; um 'shopping' com artesanatos feitos, principalmente, pelas mulheres; e um posto de saúde "com dois técnicos indígenas, uma enfermeira, um médico e um dentista, estes últimos com visitas periódicas", completou Waldemir, cuja função de tuxaua foi herdada do sogro. "Quando ele já estava com 95 anos, me passou a função de tuchaua, e tem sido assim desde então", lembrou.

Semanalmente a comunidade recebe a visita de embarcações turísticas e com o dinheiro deixado pelos visitantes, todos conseguem viver muito bem conciliando o socialismo indígena com o capitalismo dos brancos que, diante do conhecimento adquirido pelos outrora 'selvagens', não conseguem mais ser opressores.

Quando os visitantes chegam para o café da manhã, são recepcionados ainda na praia pela comunidade, com música cantada em kambeba, no restaurante Sumimi. Depois, o tuchaua conta a história do seu povo, desde os omágua, até chegarem à Três Unidos. Em seguida, os visitantes são levados a passear pelas trilhas do local, e podem tomar banho nas águas negras e mornas do Cuieiras. Depois do almoço, descanso nas redes. Na hora de ir embora, danças rituais com os jovens e crianças, não sem antes serem levados a conhecer o 'shopping' do artesanato. Foi-se o tempo em que índio só queria apito.

Como chegar lá

Quem desejar ir até à comunidade Três Unidos, embarcações ajato partem diariamente, do porto do roadway. Pode-se informar sobre as que vão para lá. A viagem demora entre duas e três horas, dependendo da velocidade da embarcação. Pode-se agendar a visita através do (92) 9 9612-5222, o telefone do tuchaua Waldemir.

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