Manaus, 19 de Setembro de 2018
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Guardar dinheiro pra quê?

Por: Evaldo Ferreira - eferreira@jcam.com.br
09 Mar 2018, 19h01

Crédito:Walter Mendes
Quantos pares de sapato você tem? 25? E peças de roupa? Teria 68 saias ou 13 jeans? E sandálias Havaiana? Seriam sete? Você é daquelas pessoas que quando sai um modelo novo de celular, sai correndo até a loja pra garantir o seu? Pois a jornalista Elimara Cardoso Damasceno, ou simplesmente Eli, faz tudo isso e um pouco mais. "Era para ter muito mais peças de roupa, mas quando já tem demais de algum modelo, eu dou e compro outras, novas", disse.

Eli nasceu em Manacapuru e foi lá, na Princesinha do Solimões, que conseguiu seu primeiro emprego, como recepcionista numa loja de roupas e, com o dinheiro do primeiro salário no bolso em quantidade nunca vista antes, fez suas primeiras compras, lógico, roupas. "Eu tinha 17 anos e, adolescente, já viu né? Comprei tudo de roupa. A partir de então o comprar se tornou um prazer para mim. Todos os meses, quando recebia, já gastava na loja, adquirindo duas, três, quatro peças. Quantas gostasse, e parcelava o pagamento. Nem acabava de pagar as parcelas e já comprava mais roupas, e parcelava novamente", contou.

"Perdi um namorado por causa disso. Ele reclamava dizendo que eu só vivia comprando roupas para mim. Na realidade ele era um pão-duro. Usava as roupas até ficarem bem velhas e achava que eu deveria ser assim também", riu.

Em 2004, com 19 anos, Eli veio para Manaus, já com emprego certo como caixa numa loja e, na capital amazonense, descobriu o Paraíso. "No interior não temos acesso a tantos objetos de consumo como em Manaus. Quando cheguei aqui descobri as bolsas, os perfumes, os produtos de beleza. Eu sou de uma família evangélica e não sabia nem o que era se maquiar. Uma amiga me ensinou. Foi a partir daí que conheci o famoso catálogo da Avon e não mais parei de comprar aqueles produtos", falou.

Com pouco tempo em Manaus, Eli alugou uma quitinete e tratou de mobiliá-la. "Fui ao setor de avarias do Makro, onde tudo é bem mais em conta, e comprei fogão, geladeira, máquina de lavar. No outro dia fui à Apa Móveis e comprei uma estante e um jogo de mesa. Mas tem uma coisa que jamais fiz nesses mais de dez anos de consumismo: dever. Detesto dever. Sempre tive o meu nome 'limpo na praça' exatamente para eu poder comprar quando quiser. Também não guardo dinheiro. Gosto é de comprar", revelou.

Cartão de crédito pra quê?

Em 2010 Eli casou, e teve sorte, "porque o meu marido, além de reclamar bastante dos meus gastos (ele reclama até hoje, quando eu me excedo), mas me ensinou a 'segurar' mais os meus gastos. E tem me aturado até hoje", brincou.

Em 2012 o casal resolveu investir na compra de uma casa, mas o terreno que adquiriram era da prefeitura. E eles já estavam até construindo quando descobriram que haviam sido enganados. "Os tratores foram lá e derrubaram tudo. Tivemos um prejuízo de mais de R$ 15 mil, e estávamos devendo o banco. Foram os três piores anos da minha vida, porque tanto eu quanto meu marido tivemos que cortar ao máximo nossos gastos para poder pagar o banco", recordou.

"Quando, finalmente, depois de três longos anos quitamos as dívidas, no dia do meu aniversário meu marido me presenteou com três belos pares de sapato. Eu fui pras nuvens. A partir daquele dia voltei a poder comprar como antes", comemorou.

Surgido na década de 1920, mas popularizado somente na década de 1950, nos Estados Unidos, o cartão de crédito só passou a fazer parte da vida de Eli em 2015, mas não demorou mais de um ano sendo utilizado. "Com o cartão as compras ficaram tão fáceis que eu nem percebia que estava comprando. O dinheiro sumiu das minhas mãos e só o cartão era utilizado para pagar tudo, e o valor das faturas foi aumentando mês a mês até chegar a um total que o meu salário não deu pra pagar. O meu marido mandou cancelar imediatamente o cartão, e olha que uma das compras de R$ 300, tinha sido de camisas para ele", lembrou.

"Não me considero uma compradora compulsiva, até porque meu marido me ensinou bastante a me controlar e, na medida do possível, eu me controlo. Mas gosto de comprar. Gosto de ter várias peças de tudo o que uso. Tenho seis óculos de grau, 13 blazers, 25 vestidos, 13 jeans e só não tenho mais porque sempre estou renovando meu guarda roupa. Já estou no terceiro celular, porque quando sai um Iphone novo, eu corro pra comprar. E o mais importante: gosto de pagar tudo em dia. Eu e meu marido compramos um carro e, para termos descontos nas prestações, guardamos nossos salários por um tempo e pagamos sete prestações de uma só vez, tudo já pensando em acabar de pagar esse, vender e comprar um novo", completou. "Se somos ricos? Não. Longe disso. Apenas trabalhamos e gastamos o nosso salário. Depois, eu não guardo dinheiro. Nunca guardei dinheiro. Tudo o que ganho é pra comprar as coisas que gosto e preciso e, às vezes, nem preciso", finalizou.

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