Manaus, 14 de Novembro de 2018
Siga o JCAM:

"A floresta amazônica beira um colapso climático"

Por: Evaldo Ferreira - eferreira@jcam.com.br
01 Mar 2018, 19h40

Crédito:Walter Mendes
Em toda a existência do planeta Terra sempre houveram variações naturais do clima, assim como a relativa adaptação e sobrevivência das espécies a estas condições. Agora, no entanto, as mudanças climáticas não são naturais. Estão sendo provocadas pela ação humana. Nunca o planeta aqueceu tão rápido, como mostra o crescimento acelerado das temperaturas globais médias desde o início do Período Industrial, no ano de 1850. A poluição da atmosfera tem contribuído para o aquecimento global, e este está associado a outras mudanças climáticas como alterações nos padrões de chuvas, nuvens e ventos. Na Amazônia, espécies começam a ser ameaçadas de extinção devido a essas mudanças, conforme explicou ao Jornal do Commercio o biólogo, arte educador, e mestre em ecologia do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Emerson Pontes da Silva, que realizou pesquisas com uma espécie de lagarto amazônico em perigo de extinção.

Entre 2014 e 2016, sob a orientação da dra. Fernanda Werneck e do dr. William Magnusson, em parceria com outros pesquisadores brasileiros e estrangeiros, Emerson realizou expedições de coleta em florestas fechadas e úmidas do Amazonas, Pará e Amapá, e em florestas abertas, mais quentes e secas do Tocantins na transição Amazônia-Cerrado.

Jornal do Commercio - Por que você resolveu pesquisar, especificamente, o lagarto amazônico Kentropyx calcarata?
Emerson Pontes - Porque é uma espécie amplamente distribuída na Amazônia (precisávamos dela em várias localidades), com abundância populacional relativamente alta (precisávamos de um número padrão de indivíduos da espécie em cada local) e por ser uma espécie sobre a qual já se tem muitos estudos (poderíamos utilizar essa base de estudos para as perguntas, análises e discussão).

JC - E o que descobriu?
EP - Descobrimos que populações da espécie de lagarto Kentropyx calcarata variam em sua fisiologia térmica, dentro e entre populações. Isso significa que indivíduos da espécie que vivem no mesmo local podem tolerar mais calor ou frio ou sofrer impactos diferenciados da temperatura no movimento de seu corpo em relação a outros indivíduos. Isso também ocorre para populações que vivem em locais, ambiental e termicamente, bem diferentes, como dentro de florestas densas, sombreadas e mais chuvosas em comparação à florestas mais abertas, quentes e secas da transição Amazônia-Cerrado, em Tocantins, por exemplo. Também mostramos que a espécie corre alto risco de extinção futura e sugerimos que, para que ocorram os processos adaptativos e ecológicos de sua manutenção, é preciso que a floresta continue em pé.

JC - O perigo de extinção que sofre o Kentropyx calcarata é o mesmo que sofrem as demais espécies que vivem na floresta amazônica?
EP - Não. Cada espécie é um caso diferente. Às vezes o risco de extinção por mudanças climáticas pode ser maior ou menor. Muitas espécies tropicais correm riscos de extinção comprovados e as características desse processo são espécie-específicos. A realidade é que os ambientes tropicais permanecem como os menos estudados nessa ênfase e isto influi na nossa baixa compreensão atual de riscos de extinção de espécies amazônicas ou tropicais, de modo geral.

JC - Para a ciência, o que significa a extinção de uma espécie animal, ainda que seja um lagarto?
EP - O desaparecimento de todos os indivíduos de uma espécie significa o empobrecimento da biodiversidade, a perda de todo o potencial de conhecimento científico que pode se conseguir através dela, além dos impactos que essa extinção podem causar no funcionamento do ecossistema, uma vez que cada espécie o compõe e o regula.

JC - O que está sendo feito para salvar o Kentropyx calcarata?
EP - Principalmente novas pesquisas. Algumas das perguntas e hipóteses levantadas pelo trabalho de Pontes da Silva e colaboradores estão sendo investigadas pelo grupo de pesquisas da dra. Fernanda Werneck, no Inpa, através de estudos e projetos adicionais que integraram abordagens ecológicas e genéticas para inferir a história populacional, prever riscos de extinção local e potenciais respostas adaptativas para diversos lagartos sob cenários de mudança climática futuras em paisagens de vegetação florestal e aberta amazônicas e no ecótono Amazônia-Cerrado.

JC - Alguma espécie tem conseguido se adaptar às mudanças climáticas que, hoje, afligem o planeta?
EP - Sim, mas são poucos os casos registrados. O principal deles é de espécies que mudam sua distribuição, isto é, os indivíduos passam a viver em áreas novas devido às melhores condições ali, como já registrado para árvores e lagartos, por exemplo. No caso de Kentropyx calcarata, é possível que alterações de distribuição ocorram, como migrações para áreas com temperaturas adequadas mas, por ser um lagarto florestal, é fundamental que a floresta não seja devastada.

JC - Na sua opinião, qual seria a solução para manter a floresta em pé?
EP - Hoje a floresta amazônica beira um colapso climático quase irreversível, pois cerca de 20% da sua cobertura florestal já foi desmatada. Está mais que evidente que precisamos de políticas ambientais de conservação da floresta e de sua biodiversidade que efetivamente funcionem, pois muitas das atuais políticas nesse âmbito estão apenas no papel ou deixam de existir com a chegada de um grande empreendimento na Amazônia. Com nossos resultados científicos, esperamos ajudar a prever as tendências da biodiversidade em relação às mudanças climáticas e apoiar estratégias de conservação.

Comentários (1)

  • Jardel03/03/2018

    A culpa é da indústria e principalmente da pecuária, quando paramos de comer carne de seres vivos vamos resolver todos os problemas ambientais e sociais, isso tá destruindo nosso país, a maior parte do desmatamento é para criação de gado que tem uma vida e não quer morrer, mas se continuarmos a contribuir com a destruição da nossa saúde e do planeta, se continuarmos a enxerga a carne de um ser vivo que não queria ser morto como alimento vamos continuar todos os dias a destruí a biodiversida e contribuí com o massacre da VIDA em todas as suas formas.

Deixe seu Comentário