Manaus, 22 de Novembro de 2018
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Indústria 4.0 aguarda inovação

Por: Hellen Miranda - hmiranda@jcam.com.br
01 Mar 2018, 17h57

Crédito:Walter Mendes
Realidade em países mais avançados economicamente, como China, Alemanha e EUA, a Indústria 4.0 é uma caminho sem volta no meio global, mas por aqui o conceito ainda ensaia uma imersão na cadeia produtiva. Isso porque implantar a chamada quarta revolução industrial nas fábricas brasileiras e principalmente no PIM (Polo Industrial de Manaus) esbarra em alguns pontos cruciais, que incluem produção com competitividade em escala global e a geração de tecnologia.

O consultor empresarial e ex-secretário de Estado de Planejamento, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (SeplanCti), José Jorge do Nascimento Júnior, explica que a indústria 4.0 criou uma nova lógica de produção, com base na digitalização dos processos industriais, onde toda fábrica se conecta, da produção ao estoque, do setor fiscal até o de compras.

"O homem nesse processo produtivo é apenas um observador porque as máquinas têm inteligência artificial apurada, identificam os problemas, discutem e apresentam as soluções. Essa conversa é chamada de internet das coisas ou internet em todas as coisas", afirma.

Ele acrescenta que a indústria 4.0 é composta por dois pilares básicos: processos integrados de produção customizada e os produtos inovadores. "A revolução industrial e o dinamismo econômico dão a oportunidade de mudar o padrão de um produto específico, sem parar a linha de produção, no caso do primeiro pilar. Já o segundo é ter produtos novos, como exemplos, o drone e a impressora 3D", disse.
Em termos de Brasil, o maior gargalo das fábricas e do PIM é referente a falta de produtos internacionalmente competitivos, diz Jorge Júnior. "Grande parte da produção é destinada para consumo próprio. Em específico a ZFM (Zona Franca de Manaus) é pior porque 98% da produção é para atender o mercado interno e com a geração de tecnologia, é quase que zero, uma vez que só copiamos elas de outros países", contou.

Novo modelo para antigos setores

De acordo com indicadores da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus), os três maiores segmentos do PIM são duas rodas, eletroeletrônico e químico. Juntos representam quase 60% do faturamento anual do Distrito Industrial. Jorge Júnior explica que o processo produtivo do Polo de Duas Rodas, por exemplo, não vai mudar ao longo dos anos com a revolução 4.0, apenas a forma fabril será atualizada.

"Será que uma grande fábrica como a Moto Honda ainda continuaria com 3 mil funcionários nesse novo modelo de produção? Acredito que não porque já entra a internet das coisas", argumenta.

Referente a maior produção na ZFM, que é de TV, ele lembra a necessidade em dispor de uma série de insumos importados como plásticos, placa de circuito, fontes, entre outros. "Mas já existem aparelhos avançados que não usam mais alguns desses itens, é o caso da Windows TV com tela translúcida criada no Japão. Também se fala na TV holográfica e até agora nenhuma dessas evoluções chegaram aqui", critica.
Ao contrário do que se pensa, não serão o travamento de PPBs (Processos Produtivos Básicos) em Brasília, nem da guerra fiscal de ICMS e tão pouco a briga do Paraguai fatores enfraquecedores do polo em Manaus. "O que pode acabar com o PIM e outras indústrias no Brasil é o processo fabril não acompanhar a evolução de novos produtos", sentencia o ex-secretário.

Capacitação tecnológica

Com fábricas mais automatizadas, novas demandas surgirão enquanto algumas deixarão de existir, como os trabalhos manuais. Surge um novo mercado para profissionais tecnicamente capacitados, com formação multidisciplinar, fazendo com que as fábricas inteligentes aumentem a demanda por P&D ((Pesquisa e Desenvolvimento).

Para Jorge Júnior, o maior legado para o Amazonas a partir do PIM é a capacitação de RH (Recursos Humanos). Segundo ele, ao fomentar a criatividade, a região ganharia mais competitividade no mercado mundial. "Com quase R$ 500 milhões em recursos de P&D dar para criar um instituto de desenvolvimento de tecnologia, que pode vir ajudar nas chamadas startups, gerando emprego e renda, após saída de uma grande fábrica do polo".

O especialista reforça que é preciso investir na formação do capital intelectual para geração de tecnologia visando competitividade em escala global. "A revolução 4.0 faz com que o nosso dever de casa seja atrair novos negócios, capacitação de RH que nos dará mão de obra altamente qualificada para gerar tecnologia", frisa.

Um case de sucesso, citado por Jorge Júnior como resultado da indústria 4.0 no PIM foi a criação da máquina de bebidas em cápsulas B.Blend da fabricante de eletrodomésticos Whirlpool. A máquina produz café, chocolates, chás, coquetéis, sucos, refrigerantes e energéticos, além de purificar água.

Faturamento x Mão de obra

Com a crise histórica dos últimos anos, o PIM que já chegou a ter 120 mil funcionários, perdeu do montante 50 mil empregos e hoje atua com média de 80 mil pessoas. Porém, com a melhora dos indicadores econômicos em 2017, o setor industrial já aumentou em 20% o faturamento na contramão que criou apenas 1% de novas vagas.

"O faturamento voltou a crescer, mas os empregos não. Isso mostra que as empresas para sobreviver a crise tiveram que se reinventar e buscar novos processos, logística e linha de produção. Após isso, o mercado voltou a aquecer, mas elas não precisaram contratar a mesma quantidade de pessoas devido a automatização e é esse o perigo", ressaltou Jorge Júnior.

Para ele, as pessoas desempregadas devem migrar para outras áreas, como serviços. "É aquilo, mais de 50% das atuais profissões vão sumir e novas surgirão, por isso a necessidade de capacitação de RH. Senão, vamos estar importando engenheiros e designer, ou um profissional que nem sabemos se já existe".
Segundo Jorge Júnior, as 500 empresas instaladas no PIM faturam em média US$ 20 bilhões por ano, valor inferior aos projetados se fossem apenas 100 indústrias gerando tecnologia. "Com elas, seria possível gerar 40 mil empregos e faturar US$ 200 bilhões anuais", especula o especialista.

Novo conceito

Para o presidente do Cieam (Centro da Indústria do Estado do Amazonas), Wilson Périco, o PIM tem excelência em termos de manufatura e qualificação, tanto na mão de obra quanto de investimentos. "Não existe em local nenhum do mundo, equipamentos ou processos melhores ou modernos do que temos aqui. E nem mão de obra mais qualificada", afirma.

Segundo o representante, a revolução 4.0 é tendência de mercado e todos deverão se adaptar. "Assim como foi dos conceitos de qualidade, ISOS, a indústria 4.0 é um novo conceito e metodologia de se produzir, elaborar e desenvolver produtos que o mundo está aplicando e temos que estar preparado para essa mudança. Quem não estiver, tende a ficar para trás", prevê Périco.

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