Manaus, 13 de Novembro de 2018
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O folião de todas as escolas

Por: Evaldo Ferreira - eferreira@jcam.com.br
08 Fev 2018, 20h12

Crédito:Walter Mendes
A avó foi da ala das baianas da Vitória Régia; a mãe, porta-bandeira da extinta Barelândia; e a irmã, passista da ala show e baiana da Vitória Régia. Não tinha como o designer publicitário Pablo Filard não ter interesse por samba. Mas ele extrapolou todas as expectativas porque se pudesse, desfilaria em todas as escolas de samba.

"Minha mãe, além de desfilar, também era costureira da escola de samba. Desde muito criança eu a acompanhava nesse trabalho. Tinha vezes que ela chegava a ficar 24 horas fazendo as fantasias, para dar tempo de aprontar para o desfile. Acho que esse amor pelos desfiles veio daí", contou.

Em 1998, então com 15 anos, Pablo desfilou pela primeira vez, numa das alas da Vitória Régia, e no ano seguinte repetiu a dose. "Mas eu achava bonito era a bateria. Com 17 anos eu resolvi desfilar pela bateria da Vitória Régia e do Coroado, mas como tinha muita gente na Vitória Régia, fui dispensado e desfilei só pelo Coroado", falou.

Não satisfeito, no ano seguinte Pablo dobrou o número de escolas onde desfilou. "Desci pela Vitória Régia, Coroado, Alvorada e Sem Compromisso, sempre na bateria. Em 2005 foi o ano em que desci por mais escolas até hoje: Vitória Régia, Coroado, Alvorada, Sem Compromisso e A Grande Família. Já desfilei na bateria de todas as escolas de samba do Grupo Especial e em várias dos Grupos de Acesso. Só não desfilo em todas numa mesma noite porque não dá tempo, senão eu desfilaria", garantiu.

Mas Pablo não vai só nessa empreitada. "Somos um mesmo grupo de amigos que começou a desfilar junto desde os meus 15 anos, há 19 anos. Cinco são os mesmos desde o começo e cinco foram substituídos ao longo dos anos", lembrou.

Maratona desde 5h da manhã

E quem pensa que a aventura de Pablo é só desfilar em várias escolas, se engana. Ele chega ao estacionamento do sambódromo no sábado, às 5h da manhã, para deixar o carro o mais próximo possível da concentração das escolas. Dentro do carro, as fantasias, dele e dos amigos, arrumadas por ordem de desfile. O carro também vai abastecido com comida e bebida, porque Pablo só vai sair dali às 8h da manhã de domingo, quando toda a festa já tiver acabado e todos tiverem ido embora.

"Enquanto aguardo os desfiles, descanso no carro e visito os barracões na avenida do Samba, porque conheço todos ali, aí o tempo passa rápido", assegurou.

"Quando minha mãe era viva, ela me ajudava bastante nessa parte das fantasias. Como elas vêm grande, minha mãe as desmontava e recosturava no meu tamanho. Uma vez desfilei vestido com duas fantasias, para não perder tempo de desfilar na próxima escola. Só fiz tirar a de cima e já estava pronto para a próxima", explicou. "E uma coisa que não pode faltar no carro é o kit sobrevivência: agulha, linha, elástico, fita, tesoura e o que mais for preciso para reparos numa costura. Qualquer problema que der na fantasia, nós consertamos lá mesmo, na hora", riu.

Gostaria de desfilar em todas

Cada escola do Grupo Especial desfila num prazo de uma hora e, entre uma e outra, há um espaço de tempo de dez minutos, quando a próxima entra na passarela. "Assim que a bateria encerra a sua apresentação, eu e meus nove amigos saímos correndo, de volta para a concentração, mas não dá para ir por dentro, junto às arquibancadas, então vamos por fora do sambódromo, correndo mesmo, no pique, até onde está o carro. Nos fantasiamos e entramos na concentração", falou. "Quando desfilo na última, já vou cansado, mas vou. Em 2012 passei mal e, enquanto meus amigos foram pra passarela, fiquei no carro, me restabelecendo, mas depois de duas escolas, voltei pra próxima", riu.

"Nas minhas fantasias faço uns bolsos internos e levo várias garrafas com água que vou bebendo durante o desfile, senão não dá pra aguentar", ensinou.

Na bateria, Pablo e os amigos sempre tocaram os mesmos instrumentos. "Tocamos tamborim por uns dez anos, depois passamos para o surdo, e agora estamos no timbau e na frigideira", lembrou.

Esse ano Pablo vai desfilar na Andanças de Ciganos, Reino Unido e Vitória Régia, "e nos Grupos de Acesso pretendo desfilar em quantas der, ao menos umas dez, porque o desfile de cada uma demora cerca de meia hora e dá tempo", garantiu.

"Já fui campeão nove anos seguidos. Sempre alguma escola que desfilo é campeã. Em 2016 a Aparecida foi campeã, mas eu não havia desfilado com ela, aí quebrou a sequência", recordou.

Para conseguir manter essa energia, Pablo começa a se preparar em setembro. "Malho, caminho, corro e me alimento de forma saudável até o desfile, e tem dado certo, porque se desse tempo, desfilaria em todas. Parar de desfilar? Nem penso nisso", riu.

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