Manaus, 18 de Setembro de 2018
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Traços de cultura amazônica

Por: Evaldo Ferreira - eferreira@jcam.com.br
31 Jan 2018, 20h24

Crédito:Divulgação
Grafitti, a prima rica da pichação, a arte dos muros e dos paredões, responsável por embelezar os espaços cinzas e sem vida das grandes cidades. É de posse de um spray que o grafitteiro e muralista Raí Campos, o Raiz, segue essa filosofia e, desde 2016, tem deixado a sua marca, aliás, gigantescas marcas, em viadutos pela cidade. Mas a história de Raiz começa bem antes, há 26 anos, em meio à floresta, na Vila do Pitinga, em Presidente Figueiredo.

"Nasci na Bahia, mas minha mãe me trouxe para cá com três meses, para acompanhar meu pai que era topógrafo e já estava trabalhando no Pitinga. Ele também era artista plástico e pintou vários murais em prédios, na Vila", disse. "Além de crescer, vendo meu pai pintando, também me inspirei nos ricos grafismos dos waimiri-atroari, que moram na Vila do Pitinga", recordou.

"Um dia, eu tinha uns onze anos, vi fotos de grafittis pela primeira vez na vida, numa revista sobre skate. Me apaixonei por aquele tipo de pintura que nunca havia visto antes. Imagina. Eu vivia numa vila cercada pela floresta onde não existiam muros. Eu nem sabia o que era um muro", riu.

Com 17 anos Raiz veio morar em Manaus, para cursar a faculdade de Engenharia, na UEA, mas nem demorou muito para saber que não era aquilo que queria para a sua vida profissional. Dois anos depois ele saiu da academia. "Não foi o curso em si que me desiludiu. Foi a competição que existia entre os alunos, um tentando ser melhor do que o outro. Eu não aceitava aquele tipo de comportamento", falou.
Como outros adolescentes, colegas seus, Raiz foi procurar a sua arte nas ruas de Manaus, pichando muros, por pura birra de adolescente. "Na realidade, eu não pichava. Inconscientemente, fazia bomb. O bomb tem um algo mais que a pura pichação, pois as letras e os desenhos são melhor trabalhados e até coloridos", ensinou.

Dias e dias, durante anos, pelas ruas de Manaus, junto com colegas que como ele se divertiam em pichar muros e paredes, não importando onde estivessem, fizeram evoluir a arte de Raiz e do bomb ele passou a pintar verdadeiras obras de arte. "Só percebi isso quando as pessoas começaram a elogiar e achar bonitos os meus trabalhos, e até me contratar para fazê-los em algum espaço. E para mim era tão fácil fazê-los surgir do nada, em grandes espaços", afirmou.

Ganhou o Brasil

Há dois anos, Raiz se assumiu definitivamente grafitteiro e muralista. Entrou para a faculdade de Artes Visuais, na Ufam e, junto com outros artistas como ele, foi contratado pela Prefeitura de Manaus para pintar grafittis nos viadutos da cidade.

"O primeiro deles foi o da Bola do Coroado, pintado em 2016. Esse grafitti se tornou o terceiro mural mais visto pelas redes sociais, na América Latina. Tenho dois murais nesse viaduto, mais um na Djalma Batista e outro na Constantino Nery, sempre mostrando a cultura indígena. Como vivi entre os waimiri-atroari, isso é forte em mim, então me inspiro em povos indígenas da América do Sul, principalmente os da Amazônia", explicou.

Além de viadutos, os trabalhos de Raiz podem ser vistos principalmente nas paredes de bares e restaurantes, "mas até hoje gosto de pintar muros pela cidade. Quando vejo um muro sem nada, já me dá vontade de colocar minha arte nele. Peço autorização ou, se é um muro abandonado, sem dono, vou lá e pinto. Não uso isso como uma forma de aparecer ou fazer marketing do meu trabalho. Faço porque gosto de dar vida àquele espaço, mas sempre alguém vê, gosta, e muitas vezes contrata o meu trabalho", adiantou.

Desde que passou a ter seu talento reconhecido, Raiz ganhou o Brasil. "Já estive em Roraima, no Pará, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio de Janeiro, São Paulo e até realizando uma oficina de grafitti em Letícia, na fronteira com a Colômbia, sempre convidado para mostrar a minha arte. Ano passado mandei meus trabalhos para um evento que aconteceria em Massachusetts, nos Estados Unidos. Minha amiga, que trabalha lá com eles, disse que os organizadores ficaram de boca aberta quando viram os trabalhos e souberam que eu era aqui do Amazonas. Mandaram passagens e tudo, mas eu quebrei o meu pé e acabei não indo. Esse ano, porém, estarei lá. Com certeza, e se quiserem que eu fique lá uns meses, eu fico, ensinando e aprendendo", garantiu.

Entre seus pares Raiz é chamado de 'The Flash', pela rapidez com que realiza seus trabalhos. "Levo em média uns quatro, cinco dias, para concluir um mural como aqueles que estão nos viadutos, trabalhando uma dez horas por dia, de preferência à noite, quando não tem sol, nem trânsito e eu consigo me concentrar na pintura", disse.

Sobre o fato de o grafitti ser uma arte efêmera, com dias contados para ser substituída por outra, Raiz não se preocupa com isso. "Essa arte é assim mesmo. Já vi colegas meus brigando até para não apagarem um grafitti meu, mas eu não penso dessa maneira. Penso que, da minha cabeça, de onde saiu aquela arte, têm muitas outras, querendo sair, então é preciso que umas deem vez às outras", ensinou.

Contatos

Facebook: Raiz Campos
Instagram: @raiz.campos
Fone: (92) 9 8230-4922

Comentários (1)

  • Dennes02/02/2018

    Fantástica evolução... Parabéns! Sucesso !!!

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