Manaus, 19 de Novembro de 2018
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Quem salvará a democracia?

Por: Da Redação por Breno Rodrigo
24 Jan 2018, 15h37

A origem da democracia se perde nas brumas do tempo. Como experiência concreta e real, tal como nos foi relatada pela tradição literária, o regime democrático apareceu na Grécia, especialmente na cidade de Atenas. Lá, a comunidade de homens livre podia participada das decisões sobre os rumos da cidade na Ágora, uma grande assembleia que servia como espaço para os debates públicos, deliberações coletivas e julgamentos. Atenas e outras cidades gregas nos legaram o testemunho da importância da liberdade e de um regime político que afirmasse os mesmos imperativos.

Passadas as experiências israelitas, nórdicas, romanas e medievais, que também tiveram nichos de experimentos democráticos, tão sofisticados quanto aqueles praticados pelos atenienses, teremos um reflorescimento da democracia no Ocidente. A volta do espírito democrático é agora responsável pela legitimação do poder político doméstico e internacional; afirmação de preceitos constitucionais civis, políticos e sociais; competição política entre partidos políticos e lideranças em eleições periódicas; economia de mercado organizada em empreendimentos sob a égide da propriedade privada; e liberdade de consciência e tolerância religiosa. Estas e muitas outras características agora fazem parte da gramática política das democracias Ocidentais no tempo presente.

Tais características propiciaram, portanto, a afirmação de um regime democrático baseado em garantias fundamentais para o funcionamento de uma sociedade livre, pacífica e materialmente próspera.
Todavia, de tempos em tempos, a democracia sofre alguns abalos internos, que corroem as suas estruturas e pilares fundamentais. Esta decadência do espírito democrático é possível graças à ascensão do espírito revolucionário, isto é, o espírito de revolta contra tudo que existe, contra a ordem e contra todo o cosmos, nos dizeres de Eric Voegelin. É justamente esta tentativa de impor a desordem para se criar uma nova ordem - o outro mundo possível - que leva à decadência da moralidade democrática na sua totalidade.

Mário Ferreira dos Santos, o mais admirável filósofo brasileiro que se tem registro, afirmou que o mundo moderno é nominalmente "bárbaro" e que estaríamos assim passando por uma espécie de "invasão vertical dos bárbaros", onde os inimigos estão no próprio seio (intramuros) das sociedades democráticas em contínuo processo de destruição - ou, desconstrução, na melhor expressão dos bárbaros - da ordem vigente.

A democracia está sofrendo retrocessos em todo mundo. A ascensão do Vladimir Putin na Rússia e o novo expansionismo russo, o crescimento geopolítico e militar chinês, as reviravoltas autoritárias na América Latina, guerras interétnicas e religiosas na África, os conflitos civis e religiosos radicais no Oriente Médio são indícios preocupantes de que valores democráticos estão sob ataque.

Somada à conjuntura internacional desfavorável, o novo barbarismo intramuros é igualmente perturbador sob todos os aspectos. Desconstrucionismo e relativismo moral são duas questões gravíssimas existentes.
Ainda segundo Mário Ferreira dos Santos, "quando uma sociedade humana chega a esse ponto, algo de muito grave está ameaçando-nos de vez, porque é impossível admitir-se que a vida social possa dar-se normalmente onde os seres humanos olham uns para os outros apenas como entes parecidos, sem qualquer semelhança, nem muito menos proximidade. Os que desejam corromper os ciclos culturais, em todos os tempos, usaram essa tática: atacar as bases éticas e da moral de modo a convencer, sobretudo à juventude, que as exigências nesse setor são falsas e injustas. Assim, dando ampla vazão aos seus impostos concupiscentes, fácil será manejar a juventude para os destinos que pretendem".
A ignorância e a miséria são dois modos de ver o mundo, mas que são igualmente responsáveis por sua destruição. Não é à toa que os sábios medievais assim afirmavam: libertas ad miseria e libertas ad dominius. A restauração da ordem passa necessariamente pela restauração da democracia, hoje ameaçada, acuada e desacreditada.

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