Manaus, 25 de Setembro de 2018
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Descapitalização do intelecto amazônico

Por: Antonio Parente aparente@jcam.com.br
01 Set 2017, 19h54

Crédito:Antônio Parente
Todo mundo sabe que a Amazônia é um terreno vasto para grandes descobertas de conhecimento científico e um grande potencial de desenvolvimento econômico sustentável para o Brasil. Mas, o que fazer quando há tanto para ser explorado e tão pouco capital humano para garimpar tais conhecimentos?
Segundo dados do coordenador de pesquisas do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Paulo Mauricio, atualmente na região Norte do Brasil, existem cerca de 15 pesquisadores com alto nível de produtividade científica, 7 são do Amazonas e atuam no Inpa e 6 são do Estado do Pará. Uma quantidade muito pequena em relação ao Sudeste do país que possui cerca de 978 pesquisadores.

Segundo Mauricio, esses pesquisadores recebem uma bolsa do CNPq (Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico) como forma de incentivo para manter a produção. E afirma que apesar da evolução e dos esforços que tem sido feito nos últimos anos para a formação de doutores na região, a carência e a falta de estrutura das instituições de ensino em formar novos pesquisadores estar muito abaixo do potencial da região em gerar novos conhecimentos.

"Essa quantidade é referente aos cientistas que possuem um desempenho de produtividade muito grande na região. Tem pesquisadores que podem ser produtivos mas não se inscreveram no CNPq. Mas a quantidade em relação a região Sudeste é preocupante, porque a região amazônica oferece inúmeros oportunidade de desenvolver novos conhecimentos. Existe uma quantidade de informação muito grande para ser explorada para a quantidade de pesquisadores que existe. Precisamos de pessoas qualificadas e líderes que consigam desenvolver o trabalho e que possuam capacidade acadêmica e científica grande. Existe um esforço e tem dados mostrando que houve uma grande evolução nos últimos tempos para a formação de novos pesquisadores. Um dos agravantes que impedem são as instituições formadoras. Falta estrutura a elas, incentivo e investimento. Em Manaus temos a UEA (Universidade do Estado do Amazonas) a Ufam (Universidade Federal do Amazonas) e o Inpa que desempenham uma função muito importante e trabalham para isso, mas em outras regiões há uma carência muito grande", disse.

Dificuldades para pesquisa de alto nível
Outro ponto destacado pelo coordenador são os frequentes desafios encontrados pelos profissionais na região amazônica. Muitos deles buscam qualidades de vida e se deparam com a escassez de recursos, competitividade e individualismo da categoria. A maioria depende do próprio esforço e o destaque do seu trabalho para captar investimentos em seus projetos, fatores estes que muitas das vezes desestimula a seguir na área de pesquisa.

"O campo é árduo para o profissional e existe a competitividade que ele precisa enfrentar. Publicar em revistas científicas de pontas, ter seu trabalho avaliado e muitas das vezes reprovados é muito duro para eles. Essas revistas são as ferramentas importantes de o trabalho deles ter visibilidade, e muito desses trabalhos são rejeitados por questões de qualidade porque não basta você ter um título de doutor para ser cientista. Você precisa ter uma dedicação muito grande em termos de estudar e se aprimorar em entender aquele assunto. O pesquisador é muito individualista, ele costuma trabalhar na sua própria linha de pesquisa. Mas existem situações que ele não consegue resolver sozinho e é forçado a se unir com outro para captar recursos e tentar influenciar a política. Mas nem sempre eles conseguem obter sucesso, é preciso uma união da categoria e uma relação boa coma a bancada de políticos da região Norte para conseguir mais recursos para pesquisa. Outras questão é que muitos deles preferem ir para a região Sul e Sudeste em busca de qualidade de vida a ficar em uma região isolada na Amazônia, e isso cria um deficit aqui", disse ele.

Recentemente o Inpa realizou um projeto de intercâmbio com outros Estados com o intuito de formar novos doutores com grande potencial de grande produtividade científica, e 8 pesquisadores do Estado do Acre participaram do projeto.

Noelia Falcão, coordenadora de extensão tecnológica e inovação do Inpa, destacou grandes pesquisadores locais que possuem grande capacidade e um nível alto para pesquisa e destacou a importância de se investir no capital humano para que o profissional estude aqui na região e aplique seus conhecimentos para o desenvolvimento da região.

"É necessário criar um atrativo para eles investirem o conhecimento aqui. Eu conheço muitos pesquisadores do Inpa e de universidades que têm um grande nível de conhecimento para ser explorado", disse.

Reformulação no quadro de pesquisadores
Segundo Mauricio, a falta de concursos públicos para pesquisador e a reposição do quadro do Inpa tem trazido uma redução muito grande de profissionais na área. Conforme dados do instituto, em 1994 haviam 248 pesquisadores, em 2016 os números caíram para 188, representando uma redução de 24% em 22 anos.

"Não vemos um cenário animador, o número estar declinando. Tem as aposentadorias dos melhores pesquisadores que temos em termos de liderança. Na unidade de pesquisa e tecnologia do Inpa não existe uma política de redução que ocorre nas universidades. Toda vez que perdemos alguém não existe concurso público para repor essa mão de obra. A força de trabalho que temos hoje são os bolsistas que auxiliam os pesquisadores. Se não existe projetos para os bolsistas a produção do Inpa reduz. Apesar da redução do quadro estamos conseguindo manter a produtividade com os pesquisadores e os bolsistas", disse.

Repasse de recursos financeiros
As dificuldades em conseguir recursos para a pesquisa junto a Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas) e o CNPq ( Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), a inexistência de um plano de carreira para o pesquisador e política científica são outros fatores citados pelo coordenador que contribuem para deficit do profissional na região.

"Muitas vezes esses pesquisadores quando conseguem se capacitar e ter um maior destaque na área eles conseguem captar os próprios recursos. Mas quando eles não se destacam eles ficam dependendo do recurso do governo. É uma questão política científica de onde haverá investimento. Na região Sudeste tem uma massa maior de pesquisadores e investimentos muito anteriores aos nossos de recursos, equipamentos e formação. Lá eles têm uma USP (Universidade de São Paulo), instituições fortes e tradicionais com capacidade maior de captar recursos que estão disponíveis nas agências de fomentos. É necessário haver alguém para equilibrar esses recursos. Separar um pouco para a região Norte qualificar profissionais", disse.

Para Paulo, a falta de investimento e os recursos escassos das agências de fomentos tem sido barreiras para pesquisadores da área de ciência e tecnologia explorarem alternativas na produção de conhecimento para gerar sustentabilidade na região e destacou a pesquisa na área da biotecnologia como forma de criar alternativas econômicas para a Zona Franca de Manaus.

"Tanto as universidades como o Inpa ficam aquém na área de biotecnologia. Por ela ser uma área nova existem poucos pesquisadores qualificados atuando e consequentemente poucas pessoas sendo formadas nessa área. As agências são apenas repassadores de recursos, porque se o dinheiro não chega a eles não existe pesquisa. Estamos passando por um período econômico difícil e isso dificulta. Essa exploração só ocorre por meio da ciência e tecnologia e não há outro caminho. Tem que ter investimento nessas tecnologias. Uma das alternativas que se colocava para a sustentabilidade da Zona Franca de Manaus estar na vertente da tecnologias e produtos fármacos que era uma das alternativas para indústrias ligadas ao setor biotecnológico", explicou.

Ele ressaltou ainda que a falta de investimento na área de pesquisa tem prejudicado em fortalecer áreas estratégicas da Amazônia como a nanotecnologia e biotecnologia que são áreas que estão despontando.

Desafios
O coordenador afirma que existe a dificuldade em repassar o conhecimento produzido no Inpa para gerar sustentabilidade e há também a ausência de profissionais da área de economia ligados à biologia e pesquisa para verificar a possibilidade de gerar um recurso maior em longa escala com esses produtos.
"O Inpa é gerador de formação, gera patentes e analisa vários produtos de potenciais que são desenvolvidos. Mas, precisamos de uma ligação com pessoas da área de economia que possa direcionar o uso desse conhecimento. Porque, às vezes, você tem uma planta com potencial muito grande de nutrientes, tipo camu camu que tem uma vitamina C maior que a acerola. Como introduzir esse produto no mercado se a acerola já é conhecida e consagrada?. Tem que ter um marketing para isso, alguém que entenda de mercado e isso já não é mais a função do Inpa, tem que ter alguém que venda esses conhecimentos produzidos", explicou.

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