Manaus, 13 de Novembro de 2018
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Longa espera por hidrovia urbana

Por: Hellen Miranda hmiranda@jcam.com.br
25 Ago 2017, 19h36

Crédito:Walter Mendes
Para fugir dos quilômetros de engarrafamentos nas principais vias públicas da capital amazonense, há décadas se pensa em investir em uma mobilidade pelas águas dos rios do Amazonas. Além de ser mais barato, o transporte fluvial urbano é considerado o meio de deslocamento mais correto em relação ao meio ambiente e capacidade. Há três anos, a ideia de um modal fluvial chegou a ser implantada por uma empresa privada no bairro Colônia Antônio Aleixo, na zona Leste da cidade, mas a alternativa acabou logo após as viagens inaugurais. Desde então, não houve debates e nem avanços sobre o tema.

Na avaliação do presidente do CAU/AM (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Amazonas), Jaime Kuck, o uso do transporte fluvial urbano em Manaus, que inclusive já foi promessa de campanha de candidatos e emenda, é algo que carece de planejamento a longo prazo. "Precisamos pensar em diferentes modais de forma integrada e inserida em um Planejamento Urbano que considere os eixos viários que estruturam a cidade, às densidade, os diferentes usos e ocupações, a infraestrutura, os divisores de água, os fundos de vale e os vazios urbanos", afirmou.

Além de desafogar parte do trânsito, o arquiteto comentou que esse tipo de projeto reduziria o estresse do usuário amazonense uma vez que de forma mais agradável, não enfrentaria horas de sufoco em ônibus lotados passando por vias de trânsito saturado e lento."Também contribuiria com a redução das emissões de gases de efeito estufa por passageiro, exploraria um pouco mais nossa vocação histórica de utilização dos rios para o transporte. E ainda, alavancaria novas micro-economias, particularmente o turismo", citou o especialista.

Mas para ser eficiente, esse modal fluvial interbairros tem que levar em consideração a característica da cheia e vazante dos rios em diferente épocas do ano que refletem no fluxo da navegabilidade da região. "No entanto, mesmo em época de vazante poderíamos ligar o Puraquequara com a Ponta Negra por um linha fluvial passando por estações interligadas com o transporte terrestre no Porto da Ceasa, no Educandos, no Centro, no São Raimundo e na Ponta Negra", explicou. Segundo Kuck, a região sofre com a questão porque não desenvolveu novas formas criativas de conviver com ela.

Ele reforçou ainda que Manaus precisa de um projeto integrado com o propósito de transformá-la na capital ecológica do mundo. "No urbanismo aplicamos o conceito de ecologia artificial, onde o espaço natural não é eliminado, mas perfeitamente adequado à realidade de uma ocupação inteligente que vê a natureza como parceira e não como algo selvagem que precisa ser dominado,domesticado", explicou o especialista, destacando que é necessário ter criatividade para desenvolver outras parceria inteligentes e o transporte fluvial é uma delas.

Gargalos
Para o arquiteto, o transporte público como um todo não é tratado como deveria em Manaus. Um dos principais entraves apontado por ele, é a falta de percepção dos gestores de que transporte público é um item de planejamento urbano e de um projeto urbano, não podendo ser pensado isoladamente.

"Há um crescimento superficial da área física de Manaus, o que aumenta as distâncias, reduz a densidade demográfica urbana e encarece o transporte público, satura a rede viária e dificulta a mobilidade intraurbana geral. Sem uma visão de planejamento urbano de médio e longo prazos, que contraria interesses políticos imediatistas, a solução para o transporte público em Manaus, tanto convencional e demais modais como cicloviário e fluvial, não acontecerá", sentenciou Jaime Kuck.

Promessa antiga
No ano passado, a Comtvop (Comissão de Transporte, Viação e Obras Públicas) da CMM (Câmara Municipal de Manaus) informou que as propostas para a exploração do transporte fluvial na região são indicações que poderiam virar PL (Projetos de Lei) e serem encaminhadas à PMM (Prefeitura Municipal de Manaus). Mas ao que parece até agora, não houve avanços.

Na ocasião, o presidente da comissão, o vereador Rosivaldo Cordovil declarou que esperava um estudo mais amplo sobre o tema. "A demanda para cobrir as linhas fluviais existe, mas precisamos estudar a viabilidade comercial, o volume de passageiros e os custos com combustível para definição de uma tarifa justa", justificou o vereador. Ele reforçou que o modal fluvial é uma alternativa que pode garantir a fluidez do trânsito e ainda abarca o turismo e recreação.

Já em agosto de 2015, o modal chegou a ser tema de discussão na CMM. Na época vereadores debateram a criação de linhas fluviais cobrindo a orla e atracando em diversos portos. Saindo da Colônia Oliveira Machado (zona Sul) indo ao Mauazinho (zona Leste), voltando à zona Sul pelo Educandos, seguindo para o São Raimundo e tendo porto final na Ponta Negra (zona Oeste), de autoria do vereador Mário Frota, a proposta ainda não saiu do papel.

Velhas alternativas
Há três décadas fazendo pequenas travessias no porto São Raimundo, o catraieiro Altair Queiroz comenta que a movimentação de passageiros tem caído nos últimos anos, principalmente pela concorrência com as lotações terrestres. "Elas cobram o mesmo preço que nós e muitas pessoas tem preferido usar esse meio, que sempre vai lotado e contribui para o caos no trânsito urbano de Manaus", reclamou Queiroz.

Para ele, a falta de segurança nos rios do Amazonas também tem afastado a população do transporte fluvial urbano. "Há quatro anos fui assaltado e jogado no meio do encontro das águas, fui resgatado por uma embarcação. Mas conheço muitos colegas que já foram vítimas de assaltantes, pelo menos três vezes neste ano, fora os que sumiram. Isso tudo gera um clima de insegurança e medo", frisou o catraieiro que faz viagens para comunidades próximas do bairro.

Diante desse cenário, Queiroz acredita que o modal fluvial seria uma boa alternativa para a cidade, mas precisaria de portos mais estruturados para atracagem, segurança e principalmente preços acessíveis para a população.

No porto do Ceasa, que realiza traslado para Careiro da Várzea, o cooperado João Bosco Guedes também vê com bons olhos a implantação de um modal fluvial em Manaus por meio de um projeto urbano. "Desde que fosse bem planejado para não interferir no nosso trabalho, não queremos concorrência, até porque para isso precisa de lanchas grandes e combustível barato. Manter um serviço assim é caro e isso reflete no preço da passagem", frisou. Ele faz parte da Cootrafam (Cooperativa de Transportes Fluviais do Estado do Amazonas).

Guedes também se queixou da queda de 30% na movimentação de passageiros no porto do Ceasa. "Antes os ônibus desciam até aqui, mas agora dobram antes da barreira da polícia federal e com eles a maioria das pessoas. Minha lancha tem capacidade para quase 50 passageiros e hoje, por exemplo, só levei 18 pessoas", lamentou.


Comentários (1)

  • Paulo Celso Dornelles Del Picchia29/08/2017

    Manaus tem um sistema viário urbano caótico. O uso do transporte urbano fluvial parece ser uma alternativa válida. No caso de São Paulo se olharmos para os Rios Tiete e Pinheiros que cruzam toda a malha urbana nos faz pensar como o uso do transporte urbano fluvial seria um meio mais barato e eficiente que os outros meios, além de ser um meio aprazível.

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