Manaus, 12 de Novembro de 2018
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Desafios presentes do setor primário

Por: Antonio Parente aparente@jcam.com.br
17 Ago 2017, 19h14

Crédito:Walter Mendes
Atividade fundamental para o sustento de muitas famílias da zona rural, a agricultura familiar enfrenta grandes dificuldades de escoamento e de incentivo à produção no Amazonas.

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) 75% dos alimentos consumidos são frutos da agricultura familiar. O setor primário representa 7% do PIB (Produto Interno Bruto) do Amazonas e 273 mil pessoas tem suas atividades econômica decorrente da agricultura, pecuária, do extrativismo e da pesca.

O Amazonas, no entanto, embora possua um grande potencial econômico em expansão, por abrigar uma grande variedade de produtos regionais, esbarra nas dificuldades da eterna carência de logísticas para a venda dos produtos.

Uma das dificuldades encontradas por pequenos produtores do ramal Boa sorte, no quilômetro 125 da Rodovia AM-010, é a falta de estrutura das estradas dos ramais para o transporte da produção.

Em 2016, o produtor de laranja, Gilson de Jesus, 45, cultivou cerca de 180 mil laranjas. 12 mil foram distribuídos na feira da Sepror (Secretária de Estado e Produção Rural). Devido ao alto custo do frete para o transporte e da mão de obra ele não teve um bom lucro, a precariedade das estradas também atrapalha. Com o intuito de não perder a produção, a alternativa foi comercializar os 168 mil restantes para atravessadores de outros Estados.

"Há sete anos que não consertam as estradas. Fica inviável tanto para nós (os produtores) quanto para eles (compradores) porque gastamos muito tempo, combustível e o transporte. O atravessador pagou R$ 18 o cento da laranja. Então escoei para Boa Vista porque evitou trabalho, frete e despesa. Que ficou por conta dele. Se fosse para Manaus o valor seria de R$ 25 o cento. Mas eu teria toda despesa, com os sacos, frete, mão de obra. Só com essas despesas meu lucro se perderia devido ao alto custo. Se eu fosse vender para as feiras e cooperativas eu não receberia na hora o dinheiro e sim parcelado. Então tive que apelar para essa alternativa para não perder dinheiro", disse.

Assistência técnica insuficiente
Outro ponto destacado por Gilson, foi a quantidade reduzida de assistentes técnicos para orientar o pequeno produtor. Segundo ele, a quantidade de profissionais especializados é muito pequena em relação a demanda de trabalhadores.

"A legislação diz que tem que ser um para cada 100 famílias de produtores rurais. Na prática é um profissional para cada 300 famílias.

O ideal seria recebermos duas visitas por mês. Hoje recebemos visitas técnicas duas vezes ao ano. Eu estava há três anos sem receber visita. Eu me obriguei a estudar 2 anos e meio no Ifam (Instituto Federal do Amazonas) para ter a qualificação de técnico agropecuário para fazer minha plantação e produzir, porque se dependesse dos técnicos não conseguiria. Eu sou uma das exceções que corri atrás, por que tem muitos pequenos agricultores que não têm condições e o pensamento de correr atrás para se qualificar", conta.

Devido a essa dificuldade a pequena produtora Maria Orilza Seixas, 61, moradora da comunidade de Nossa Senhora das Graças, zona Rural de Itacoatiara, deixou de produzir em grande escala produtos como maracujá, feijão e macaxeira.

"Ano passado produzíamos uma quantidade muito grande de maracujá, cerca de 300 pés ao ano.
Mas infelizmente não tínhamos para quem vender. Vendíamos muito aqui pela comunidade e regiões próximas. Para não estragar toda produção, chegavámos a vender até por R$ 1 o quilo", disse ela.

Falta de estrutura de trabalho
Outro ponto destacado pela dona Maria foi o período de cheias na região e a ausência de estrutura de trabalho e apoio do governo.

"O maracujá é um produto que exige um gasto muito grande em materiais para manter sua produção em grande escala. Como não tínhamos um retorno financeiro de imediato paramos de produzir com o objetivo de comercializar em grande quantidade.

Ainda vendemos o que produzimos, mas em pequena escala. Acredito que se tivéssemos mais apoio conseguiríamos crescer bastante. Hoje temos essa prática mas por uma questão de cultura na nossa família. Moramos numa região distante e a única alternativa que tinha era vender para as feiras aqui próximo por um valor baixo.

Hoje produzo feijão e macaxeira, como um hábito e consumo próprio. Também vendo o que produzo, mas não é em grande quantidade", explicou a produtora".

Atividades agrícolas precisam tomar grau de prioridade no interior do AM
Segundo o presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas), Muni Lourenço, é extremamente relevante que a atividade primária tenha grau de prioridade no Amazonas para geração de emprego e renda para a população, principalmente nos municípios do interior.

"Temos que buscar uma forma que não é simples e nem imediata, mas necessário, que é a interiorização da nossa economia e a viabilização de atividades econômicas complementares à Zona Franca de Manaus e ao Polo Industrial. Temos que ter políticas públicas estaduais destinadas ao setor primário a partir por exemplo do aumento da participação do setor no orçamento estadual, isso para que mais recursos financeiros sejam destinados a gestão técnica da Sepror, ao incremento para os pequenos e médios produtores rurais, que é o acesso aos serviços de assistência técnica e extensão rural", disse.

Muni destaca que para os pequenos produtores terem toda assistência necessária para o sucesso na produção é necessário assistência técnica e pesquisa para desenvolver no Estado um modelo de produção de alimentos que não seja predatório à floresta.

"Nos preocupa a questão de infraestrutura para escoamento da produção, demandando a nosso ver um investimento cada vez mais consistente em recuperação, pavimentação de estradas e vicinais rurais, bem como, investimentos em fornecimento e distribuição de energia elétrica e telecomunicações", disse ele.

Inovação Tecnológica
Com o intuito de levar ao pequeno produtor inovação e tecnologia que auxiliam na adaptação de mudanças climáticas, o Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) chega aos 25 anos de existência.

Segundo Muni Lourenço, o Senar atende gratuitamente, mais de 3 milhões de brasileiros do meio rural para a profissionalização e integração na sociedade do trabalhador do campo.

"O objetivo é a integração na sociedade, melhoria da sua qualidade de vida e para o pleno exercício da cidadania. No Amazonas, o Senar vem formando profissionalmente em média quatro mil trabalhadores e produtores rurais", conta.

O Senar possui no Amazonas dois polos de ensino tecnológico. Um em Autazes e outro em Manaus com o curso Técnico de Gestão de Agronegócios. E realiza ações executivas por meio da realização de atividades de formação profissional, assistência técnica e promoção social, tais como: formação profissional rural , que promovam a qualificação e o aumento da renda do trabalhador; ações de assistência técnica com ênfase na gestão nas áreas de agricultura; e ações de promoção social voltadas para a saúde, alimentação e nutrição

Segundo a Faea, o Amazonas possui um conjunto de produtos com grande oportunidade de negócios e geração de riquezas como o segmento da fruticultura, que tem extenso mercado local, nacional e até de exportação, com frutas como o abacaxi, o açaí e frutas cítricas.

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