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Força da educação no sangue

Por: Priscila Caldas pcaldas@jcam.com.br
04 Ago 2017, 19h25

Crédito:Divulgação
Nas últimas décadas o legado da educação foi repassado às famílias em diversas gerações. A admiração somada à vocação e ao incentivo à prática do ensino motivavam o ingresso de um acadêmico, que via um parente em sala de aula, a optar pelo curso de magistério, oferecido pelo extinto IEA (Instituto de Educação do Amazonas). Mas, a desvalorização profissional por parte do poder público e o aumento expressivo da violência nas salas de aula tem posto em risco a continuidade dessa trajetória. A categoria demonstra preocupação com o menor índice do ingresso de jovens na área da pedagogia e alertam para o risco da decadência educacional por falta de profissionais, nos próximos anos.

Com uma experiência de quase 40 anos no segmento educacional, a pedagoga e empresária Nelly Falcão, viu na profissão exercida pela mãe, a professora Marta Falcão (in memoriam), um exemplo de vida a ser seguido. Nelly conta que desde a infância teve contato com os livros, cadernos e demais materiais utilizados por sua mãe no ambiente de trabalho, o que lhe chamou a atenção e a incentivou a ingressar na carreira educacional.

"Minha mãe transmitia energia e vibração ao falar sobre os seus alunos, sobre a prática do ensino. Isso me motivou a seguir a carreira. Ao ingressar no curso de magistério no antigo IEA tive o privilégio de ser aluna de minha mãe. Logo depois, cursei pedagogia na UFAM (Universidade Federal do Amazonas) e comecei a fazer estágios em escolas públicas e privadas", relata.

Nelly conta que decidiu optar pela atuação no ensino privado porque na época, segundo ela, Manaus enfrentava um declínio na educação pública. Ela alugou uma escola onde o seu filho estudava e iniciou os trabalhos relacionados à educação infantil. Atualmente, a pedagoga é diretora das Instituições Educacionais Nelly Falcão de Souza (INFS), que congrega o Colégio Martha Falcão e o Pinocchio Centro Educacional.

Daqui a 3 anos a empresária completará 40 anos de atuação na educação e apesar de ela considerar a profissão gratificante e ter dois filhos que também seguiram profissão na área educacional, ela demonstra preocupação com o futuro do ensino no Estado e também no país. Ela explica que a cada ano é perceptível o desinteresse por parte de jovens acadêmicos pelo ingresso no curso de graduação de pedagogia. Isso porque, segundo a empresária, houve uma desvalorização do profissional da educação.
"Começa pela falta de respeito dos pais com o professor. Antes, os pais se preocupavam quando eram chamados na escola, mas agora fazem pouco caso. O filho sempre tem razão e o professor é sempre o errado. Nas escolas públicas é preciso acionar o conselho tutelar para tentar explicar aos pais a sua obrigação com as crianças. É como se houvesse uma rivalidade na relação entre família e escola. Fico pesarosa com isso. Também vejo a inexistência de políticas públicas sérias que priorizem as causas educacionais", expressou. "Se os pais dão maus exemplos, como o aluno respeitará o professor?", indaga.
Nelly conta com a contribuição do filho Nelson Falcão, que é artista plástico e professor no Colégio Martha Falcão. Outro filho que também atua na área educacional é o Fernando Neto que é proprietário de uma escola de culinária e dedicado à gastronomia com desenvolvimento de pesquisas com alimentos regionais.

A pedagoga Zélia Araújo também ingressou no segmento da educação por influência familiar. Ela conta que a primogênita entre seus 13 irmãos começou a lecionar quando ela ainda era criança, o que lhe chamou a atenção. Zélia lembra a atuação da irmã chamou a sua atenção e ela começou a sonhar em ser professora.

Zélia ingressou no curso de magistério no IEA e começou a dar aulas pela rede municipal de ensino, onde compõe o quadro efetivo até hoje. Cursou pedagogia pela Ufam e neste ano completou 34 anos de atuação no ensino, sempre com foco na educação infantil.

Além de Zélia, mais quatro irmãs optaram pela educação como profissão. "Admirava ver a minha irmã mais velha trabalhando em sala de aula e ela foi referência para minha vida profissional. Apesar de ser uma profissão trabalhosa e que requer paciência, atenção, é uma área que admiro. O que me chama mais a atenção é o desenvolvimento da criança principalmente na descoberta da leitura. É onde me identifico", disse.

Para a pedagoga, apesar da relevância da atuação do profissional da educação, hoje, é perceptível o envelhecimento dos profissionais em atuação e a quase nulidade no ingresso de jovens mestres na categoria. Ela atribui essa carência à desvalorização profissional e ao aumento expressivo no índice de violência contra os professores em todo o país. "Só ingressa na educação quem realmente tem vocação. Vemos a desvalorização e o descaso por parte do governo. Os professores estão envelhecendo. Quando ingressei na área, na década de 80, durante os encontros de reciclagem entre professores víamos muitos educadores jovens com faixa etária máxima de 30 anos de idade. Mas, hoje, nas mesmas reuniões pedagógicas encontramos a predominância de professores maduros com idade entre 50 e 60 anos. É raro encontrar um professor jovem e isso é preocupante", destaca. "Muitos pais precisam trabalhar e deixam os filhos com os irmãos, que geralmente são crianças também, e como resultado, não há a supervisão necessária dos pais e a criança adquire maus comportamentos e distrata aos professores. Quando a escola chama esses pais eles dizem que não há muito o que fazer porque precisam trabalhar. É como se a escola fosse um depósito onde está toda a responsabilidade educacional familiar e didática do aluno, quando na verdade a família também tem responsabilidade neste processo", completa.

A realização profissional
Na avaliação da psicóloga e couch, Lidice da Matta, a orientação familiar quanto à profissão a ser escolhida é importante. Porém, ela destaca que é necessário ter aptidão para o pretenso segmento, caso contrário, o profissional não terá desenvolvimento e com o tempo procurará a realização pessoal e profissional em outro setor. "Não adianta incentivar a pessoa se ela não demonstra competências para aquela área. Pode acontecer que após algum tempo o cidadão busque a realização profissional em outro campo. É preciso ter amor pela área. No caso da pedagogia é importante ter afetividade no processo do ensino", explica.

Lidice ainda comenta que há casos de hereditariedade na família, quando os pais têm determinada formação e os filhos seguem os mesmos caminhos. "Pode acontecer, sim, mas em algumas situações um dos filhos pode optar por áreas diferentes. O teste vocacional também é muito válido neste processo", cita.

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