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Saga dos trabalhadores nordestinos

Por: Cíntia Valadares
28 Jul 2017, 20h13

Crédito:Cesar Pinheiro
Cerca de 60% da população amazonense tem origem nordestina. Essa informação faz parte de uma pesquisa realizada por Samuel Isaac Benchimol, economista, cientista e professor, considerado um dos principais especialistas da região amazônica, e atestada por Francisco Canindé Marinho, sociólogo e também presidente da Associação Recreativa dos Nordestinos no Amazonas (ARNAM) e ex-professor da antiga Universidade do Amazonas (UA). Nascido em Natal, no Rio Grande do Norte, o professor falou um pouco sobre o início da migração nordestina à Amazônia.

De acordo com Canindé Marinho, os nordestinos tiveram papel importante no período da borracha. "Tivemos uma importância muito grande, em especial naquela relacionada à extração do látex/borracha. Nesta data, aproximadamente 60 mil migrantes nordestinos vieram rumo à Amazônia, estabilizando-se principalmente nos estados do Amazonas e Acre, atraídos pelo sonho de uma vida melhor. Naquela época estava ocorrendo uma seca muito grande no Nordeste, o que motivou a migração", lembrou o professor.

A Segunda Guerra
A migração dos nordestinos à Amazônia é integrante de um dos principais momentos econômicos do Amazonas, a época da borracha, onde foram também protagonistas do desenvolvimento deste período.

"Como o Brasil tinha um acordo dos aliados para a Segunda Guerra Mundial, coube ao país a questão da utilização da borracha para manter os instrumentos bélicos durante a Segunda Guerra. A partir da borracha eram construídas sandálias, coturnos, capacetes, e o nordestino, por corresponder, na época, a uma mão de obra barata, protagonizou também o desenvolvimento deste período", afirmou Marinho.

A luta pela sobrevivência foi o ponto alto da estadia dos nordestinos na Amazônia. "Eles eram chamados arigós porque eram arredios. Se embrenhavam nas matas e ganhavam pelo que produziam. Muitos morriam na mata, comidos por onças, ou por não conseguirem alimento para sobreviver no local. Os sobreviventes foram chamados de 'soldados da borracha'", disse.

Segundo o sociólogo, com a presença dos soldados da borracha, a economia do Amazonas foi se estabilizando.

"Após a Segunda Guerra Mundial as economias foram se arrumando. O grande beneficiado foi o Amazonas, que se refugiou na economia em decorrência do ciclo da borracha. E os arigós depois foram fundando bairros, como o Alvorada, Aparecida, e a origem destes bairros é retrato desta época", lembrou Canindé.

Prestanistas
Após passado o ciclo da borracha, os nordestinos com suas famílias precisavam sobreviver de alguma maneira no Amazonas. Com o fim desse período, os migrantes iniciaram um novo modelo de vendas na capital, eles começaram a comprar diversos produtos e utensílios para casa de grandes lojas e passaram a revender para os amazonenses, se tornaram então prestanistas.

"Os prestanistas são aqueles vendedores que passam de porta em porta oferecendo todo tipo de produtos, na época eles tinham suas cadernetas onde anotavam os valores comprados e cobravam isso por semana dos clientes", explicou Marinho.

A profissão perdurou por anos, sendo passada de pai para filho, até que através desse tipo de vendas os prestanistas se tornaram comerciantes. "Muitas das grandes empresas do Amazonas começaram através de vendas de porta em porta e se tornaram empresas solídas e de sucesso", comentou o sociólogo.

Depois disso houve uma fragmentação regional, os pais nordestinos, netos dos soldados da borracha e dos primeiros prestanistas, casaram-se com pessoas de outros estados, países, e colocaram os filhos para estudar, mudando assim o estilo passado de pai para filho.

"Com isso muito se perdeu, não que estudar não seja importante, é sim, tudo mudou e todos precisam acompanhar essa mudança, mas com tantas mudanças as tradições se perderam", frisou.

Zona Franca
De acordo com Canindé Marinho os nordestinos contribuiram muito para o desenvolvimento do Polo Industrial de Manaus (PIM), para a Zona Franca. Uma das empresas que mais contratou nordestinos foi a Moto Honda, no entanto, atualmente essa realidade sofreu mudanças.

"O trabalhador nordestino já contribuiu muito no PIM, atualmente, temos mais paraenses trabalhando na Zona Franca, então a realidade é que os paraenses tem contribuido mais ao Polo Industrial, mas isso não tira o brilho do trabalho que nós nordestinos desenvolvemos em prol do crescimento econômico do Amazonas".

Renomes do Nordeste na Amazônia

Entre os soldados da borracha, Canindé destacou Clóvis Barreto, fundador do Sindicato dos Seringueiros no Amazonas, como um dos precursores da importância do nordestino na Amazônia.

"Além do Clóvis, temos grandes empresários aqui na região, como o Antônio, do Espantalho Pneus, o Lauro, da Casa dos Colchões, o Rivaldo, do Bandeirão, Aldemir Vargas, da Casa do Eletricista e Eduardo Ribeiro que também era nordestino. Os armazéns perto do Mercadão são compostos por 98% de trabalhadores entre nordestinos e descendentes, e muitos descendem dos soldados da borracha", afirmou.

Comentários (1)

  • Caninde Marinho31/07/2017

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