Manaus, 19 de Novembro de 2018
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De ambulante a microempreendedor

Por: Cíntia Valadares
17 Jul 2017, 14h05

Crédito:Cíntia Valadares
Sair da informalidade para muitos é um sonho, para outros algo inalcançável e para alguns que conquistaram a formalidade um verdadeiro pesadelo. Essa é a dura realidade de muitos microempreendedores que trabalham atualmente nas galerias criadas pela prefeitura da capital para atender a esses profissionais. Como disse dona Benedita Evangelista, "ganhamos um CNPJ e perdemos o nosso dinheiro".

E foi assim com a chegada do projeto Viva Centro Galerias Populares que teve como objetivo retirar camelôs das ruas e dar um novo espaço, a prefeitura tinha a intenção de liberar as calçadas no Centro da cidade.

Além disso, o projeto previa a criação de um novo ambiente de trabalho para os vendedores ambulantes, que antes viviam uma realidade de insegurança, bancas de madeira e informalidade. Após o projeto, esses trabalhadores fizeram cursos de qualificação, formalizaram-se e passaram a trabalhar em espaços similares a shoppings.

Segundo informou a prefeitura de Manaus, atualmente, de um universo de 2.082 cadastrados no projeto Viva Centro Galerias Populares, a prefeitura beneficiou 1.503 trabalhadores, hoje microempreendedores, instalados nas Galerias Espírito Santo e Remédios ou aguardando nos camelódromos Floriano Peixoto 1, Epaminondas ou em casa, para se instalar no Shopping T4 e na 2ª e 3ª etapas da Galeria dos Remédios, em obras na rua Miranda Leão, Centro.

Desde o começo do projeto, mais de 1.200 ex-camelôs já foram certificados através da Espi (Escola Municipal de Serviço Público) e do Cetam (Centro de Tecnologia do Amazonas). Eles passaram por cursos diversos: noções de inglês para negócios, atendimento, noções de marketing, outros direcionados a gastronomia para quem trabalha com alimentos.

Galeria Espírito Santo
"No dia do comerciante não temos o que comemorar!". Esse foi o desabafo de dona Benedita Evangelista, 56, professora aposentada, ela trabalha na Galeria do Espírito Santo ajudando o marido, Augusto Lima, 58, que foi vendedor nas ruas de Manaus por 30 anos. Há 3 anos seu Augusto foi retirado das ruas e levado para a galeria.

"Meu marido sempre teve CNPJ, mesmo trabalhando como ambulante, ele era formalizado, só não tinha um espaço fixo, coberto, uma estrutura física para vender. Mas ele sempre pagou seus impostos. Quando a prefeitura determinou nossa saída das ruas, nós aceitamos porque era o jeito", contou a aposentada.
Segundo dona Benedita nas ruas eles faturavam muito dinheiro, pois as pessoas passavam e já compravam as suas mercadorias, diferente dos dias atuais, onde o casal não consegue fazer um salário-mínimo por mês. "Nós passamos de uma semana pra fazer uma venda, tem meses que conseguimos vender R$ 100 apenas, só estamos sobrevivendo porque meu filho é professor e nos sustenta", disse.
Uma outra reclamação dos microempreendedores é que a prefeitura os tirou das ruas porque precisava do espaço das calçadas liberado para os pedestres, no entanto, atualmente, vários ambulantes continuam a vender nas calçadas do centro de Manaus.

Já seu Francisco Nogueira, 56, foi vendedor ambulante por 8 anos, há 4 se formalizou e a única coisa que ele viu de bom na formalização foi a atuação do Sebrae para a criação do MEI (Microempreendedor Individual).

"Pra fazer a nossa formalização foi muito rápido, a equipe do Sebrae veio aqui, pegou a documentação, preencheu os formulários, nós só tivemos mesmo o trabalho de pagar os boletos", comentou Nogueira.
Depois disso no entanto, tudo foi de mal a pior para os agora microempreendedores. De acordo com Francisco, o local tem uma estrutura boa, mas não tem público, as pessoas não entram na galeria.
"Na rua as pessoas vão passando, veem as mercadorias e compram, elas estão ali, o produto está ali, fica mais fácil, mais prático. Agora ninguém vai desviar o seu caminho pra vir aqui na galeria porque eu estou aqui vendendo, até porque, tem outro vendedor ambulante no meio do caminho vendendo o mesmo produto que eu", explicou. Mas o microempreendedor também acredita que a propaganda é a alma do negócio e tem investido na divulgação pelas redes sociais e aplicativos de vendas. "Eu divulgo meus produtos nas páginas do Facebook, no OLX e com isso tenho ganhado vários clientes, as pessoas veem na internet, gostam e eu marco aqui pra elas receberem os produtos e assim vou vendendo", informou Francisco.

Galeria Epaminondas
Na Galeria Epaminondas o desânimo é total, os ambulantes que aguardam da prefeitura um espaço para colocarem seus produtos, vivem da incerteza sobre o dia de amanhã. Há três anos os ambulantes estão no aguardo da transferência para o Shopping T4.

Dona Conceição Damasceno, 60, não tem expectativa de melhorias na sua situação. Ela vive no aguardo da realocação para um espaço melhor, que tenha clientes. "Antigamente eu vendia muito, hoje eu passo o dia sentada aqui sem vender nada, ainda pra melhorar minha situação eu aprendi a consertar panela de pressão e com isso vou ganhando um dinheiro extra, porque aqui só tiro mesmo a ajuda de custo da prefeitura pois de venda mesmo não entra nada", disse.

A prefeitura paga para cada camelô um valor de R$ 1 mil por mês durante o período de mudança para microempreendedor, além disso, os ambulantes passaram por curso de formação.

"Eu já entrei em depressão, pensei em desistir, mas dependo disso aqui pra viver, então eu tenho que aguentar, mas é desanimador depender apenas desse valor repassado pelo município", desabafou Conceição, que informou que já fez o curso há mais de 3 anos.

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