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Desafio da aceitação das diferenças

Por: Cíntia Valadares
23 Jun 2017, 19h07

Crédito:Walter Mendes
De ônibus eles chegaram à Manaus, a cidade ficou surpresa. "Quem são eles?" "Por que vieram pra cá?" "Por que se vestem assim?". Muitas indagações, a ajuda demorou mas veio. Diante da situação em que se encontravam, autoridades manauaras como a prefeitura, o governo do estado e o Ministério Público Federal no Amazonas, juntamente com a Pastoral do Imigrante, coseguiram apoio do governo para buscar formas mais humanitárias de atendimento aos imigrantes Warao.

Eles vieram para Manaus buscando sobreviver a grande crise política e econômica vivida na Venezuela. A princípio, se abrigaram na rodoviária da capital amazonense, porém, logo passaram a viver debaixo do viaduto de Flores, na zona Centro-Sul. Os imigrantes da tribo Warao aos poucos começaram a se expalhar pela cidade, mulheres e crianças pedindo esmolas pelas ruas de Manaus, os homens cuidando dos abrigos improvisados, e assim ficaram, até serem transferidos para um abrigo do Serviço de Acolhimento Institucional de Adultos e Famílias, no Coroado, zona Leste.

Hoje aproximadamente 500 índios Warao estão em Manaus, além de sua língua nativa, muitos também falam espanhol. A população manauara têm diferentes opiniões sobre a presença deles na cidade, muitos se solidarizam, ajudam, doam roupas, fraldas, alimentos e colchões. Outros se sentem injustiçados, afinal, na grande Manaus existem inúmeros descasos sociais, não que seja motivo, mas isso impediu muitas pessoas de apoiarem a ajuda oferecida aos imigrantes indígenas, outra dificuldade para o relacionamento tem sido o idioma, dos chegam até eles para ajudar, poucos tem domínio básico da língua espanhola.

Abel Calderón, 32, indigena Warao, relatou que durante o governo de Hugo Chavéz, o povo Warao tinha certo apoio, por meio de programas sociais, mas que depois os programas foram extintos e não tiveram mais qualquer benefício, o que dificultou a vida na Venezuela.
"Alguns amigos disseram que Manaus é um lugar bom, as pessoas doam roupas e comida, então aqui é bom. Mas quando a crise na Venezuela terminar nós voltaremos, não queremos viver aqui para sempre, lá é nossa casa", disse Calderón.

A viagem para o Brasil foi a saída encontrada pelos índios diante da grave crise atravessada no país, que vive uma escassez severa de produtos básicos e hiperinflação, além de uma crise política que resultou em dezenas de mortos em protestos contra o governo de esquerda de Nicolás Maduro nas últimas semanas.

Dados Oficiais
Mas segundo levantamento feito pela Polícia Federal, não são apenas os Índios Warao que vieram para o Brasil. O número de imigrantes mais que dobrou em relação a 2006, quando foram 45.124 que chegaram no país. Nos últimos dez anos, cerca de 117.745 estrangeiros migraram para o Brasil. A maior parte dos refugiados são haitianos, com quase 15 mil no país, seguido pelos colombianos (7.653), argentinos (6.147), chineses (5.798), portugueses (4.861) paraguaios (4.841) e norte-americanos (4.747).

A crise econômica e a falta de alimentos na Venezuela fizeram com que indígenas nativos deixassem o país em direção aos países vizinhos. Em Manaus, mais de 500 indígenas venezuelanos da tribo Warao, migraram para a capital desde o início do ano, conforme o ultimo levantamento feito pela Secretaria Estadual de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc).

Segundo a Secretária da Sejusc, Graça Próla, países como o Panamá, Chile e Equador sãos os principais destinos dos imigrantes, e o Brasil tem sido uma rota de passagem de alguns, que acabam adotando como moradia. O cenário fez a instituição elaborar um plano de assistência com relação e registro de imigrantes que chegam a capital.

De acordo com a secretária, o estado tem um plano para atender todos esses imigrantes que tem chego a capital. "Nós da secretaria já temos um documento, que é o Plano Estadual de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas que dá atenção a migrantes e refugiados. Nesse plano, nós temos toda uma proposta de estratégias e metas, no sentido de dar conta de quem nos procura. Então nós atendemos lá no Centro Estadual de Referência e Direitos Humanos, que fica na Praça 14, lá nós atendemos cubanos, colombianos, venezuelanos, argentinos, haitianos que passam por lá, nas diversas situações inclusive de refúgio", comentou a Graça que completou informando que uma das maiores demandas destes imigrantes é a questão da regularização documental para fins de trabalho e de fixação no local, é basicamente a documentação, trabalho e moradia.

Papel do Ministério Público
Em decorrência do fluxo migratório ter aumentado demasiadamente, no dia 4 de maio, a Prefeitura do município decretou situação de emergencial social devido ao intenso processo de imigração.

O Ministério Público Federal no Amazonas (MPF/AM), abriu um inquérito civil para acompanhar medidas de apoio aos indígenas Warao, que até o início do mês de junho, estavam acampados na rodoviária de Manaus. Apenas uma parcela se encontra no local. Mais da metade dos imigrantes Venezuelanos foram transferidos para um prédio com sete salas na Zona Leste de Manaus.

O MPF solicitou informações de órgãos públicos ligados a assistência social, direitos humanos e indígenas, sobre as medidas adotadas para garantir o atendimento humanitário aos refugiados.
O Procurador da República do Ministério Público Federal Fernando Merloto Soave disse que o órgão tem atuado não somente no Amazonas, mas também em Roraima. "O MPF já tem atuado com os imigrantes mais tempo. Em Roraima já vinha atuando nessa questão.

A partir de março de 2017, que a situação ficou mais acentuada. Em abril, um caminhamento foi feito a união um plano de trabalho. Mas a coisa não andou. Com isso o MPF junto com a DPU (Defensoria Pública da União) expediu uma recomendação aos órgãos sobre como encaminhar essa situação."
O Procurador ressalta ainda que a solução para a falta de trabalho dos imigrantes é direcionar aos serviços agrários.

"Todos eles têm interesse em trabalho. Pode ser a pesca, plantação, trabalho agrário principalmente. E a grande quantidade adotaram a ideia como a melhor opção", completou Soave.

A vida de um imigrante passa por um processo de grande importância para a cultura brasileira.
A imigração não é vista apenas com "maus olhos", pois ao se aliar com as origens brasileiras, traduziu-se em grandes benefícios, tais como: uma nova cultura, uma culinária de grande variação, uma música de notas singulares, uma agricultura com técnicas avançadas, uma arte viva e um esporte com muitos troféus.

Um problema antigo e, agora, crescente
Outro grande período migratório aconteceu após o Haiti ser devastado por um terremoto em janeiro de 2010, deixando milhares de mortos e mais de 3 milhões de desabrigados no país. Como a economia do país jã estava devastada pela instabilidade política, a situação ficou ainda pior, exigindo assim, intervenção da ONU (Organização das Nações Unidas).

Nesse período os haitianos passaram a migrar para o Brasil, se instalando principalmente nos estados da região Norte, como Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima. Hubermann Chery Junior, 28, veio de Porto Príncipe/ Haiti, para o Brasil em busca de uma mudança de vida. Quando chegou ao Brasil passou por grandes dificuldades, uma delas foi a fome. Então ele viu que a melhor maneira se encontra longe de casa foi estudando e buscando sempre o conhecimento como o seu melhor amigo.

"Hoje eu posso dizer que tenho uma vida de verdade. Difícil sim, mas eu tenho certeza que vai passar. A vida ensina a cada passo, a cada dificuldade, a cada vitória", comentou Junior.

Foi o caso também do haitiano Abdias Dolce, que chegou a região em junho de 2011, pouco depois do terremoto que culminou na destruição de parte do seu país em 2010.

Abdias diz que iria passar pelo Estado para seguir viagem a Guiana Francesa, mas encontrou oportunidades na região e permanece até hoje. Foi aqui que ele conseguiu se formar como Engenheiro Mecânico e hoje faz especialização em gerenciamento de projetos. "O povo haitiano tem o hábito de deixar seu país, especialmente após a catástrofe. Eu só tenho a agradecer a acolhida pela região e as oportunidades que surgiram", destaca.

Quem também apoia a causa dos imigrantes é a Caritas Arquidiocesana e a Pastoral do Migrante da Igreja Católica. Diante da situação, eles vem desenvolvendo atividades para ajudar os imigrantes que estão em Manaus. Segundo o Padre Hudson Ribeiro, a igreja promoveu ações de doação de alimentos, roupas, distribuição de alimentos e até mesmo assistência médica por meio de parcerias com Instituições de Ensino Superior.

"Essa é uma ação muito complexa e do ponto de vista humanitário, nós não podemos nos esquecer, principalmente nesse período pascal, do que Jesus disse: Tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber, fui estrangeiro e tu me acolheste em tua casa. Não podemos fazer qualquer coisa. Temos que estar respaldados, no ponto de vista legal, e envolver as pessoas de bem e as outras instituições para que de fato haja uma ação efetiva e eficaz. Nós como cristãos católicos temos que tomar a frente disso tudo", ressaltou o padre Hudson.

Segundo a titular da Sejusc, Graça Prola, não se pode reduzir a questão aos grandes abrigos. "É necessário que se busque alternativa de trabalho e renda. A regularização documental não pode ser entrave para inclusão nos programas sociais", pontua, ressaltando que a grande maioria dos estrangeiros que chegaram ao Estado já têm certificado de expedição estrangeira emitido pela Polícia Federal (PF), que permite adquirir Cadastro de Pessoa Física (CPF), por exemplo.

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