Manaus, 23 de Setembro de 2018
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"Cheias grandes recorrentes"

Por: Evaldo Ferreira eferreira@jcam.com.br
24 Abr 2017, 19h37

Todos os anos é a mesma coisa. Logo nos primeiros meses do ano começa o vai e vem das águas dos rios amazônicos, ora subindo, ora descendo, ora subindo com mais intensidade fazendo algumas regiões ficar alagadas e nas maiores cidades as pessoas começarem a perguntar se a cheia será grande. Na realidade a enchente inicia ainda no mês de outubro, mas só começa a ser sentida pelas populações dos municípios nos primeiros meses do ano seguinte. Em Manaus, o fenômeno é tão marcante que a grande cheia de 1953 (29m69) só foi esquecida após ser superada em 2009 (29m77), e depois em 2012 (29m97). E este ano, mais uma vez como vem acontecendo nos últimos anos, as águas sobem ameaçadoras, dando mostras de que irão alagar grandes extensões de terras. Marco Antônio Oliveira, superintendente do CPRM (Serviço Geológico do Brasil) explicou que a cheia de 2017 deve ultrapassar os 29 metros, medida limite para considerá-la danosa. Disse também que as águas chegam por etapas: entre março e abril enchem os rios Juruá, Purus e Madeira. Depois, em junho, Solimões, Amazonas e Negro, quando atingem Manaus. Em julho é a vez do rio Branco, em Roraima, e alto rio Negro. Na calha do Juruá, a Defesa Civil do Amazonas já decretou estado de emergência em Guajará e Ipixuna. Juruá, Carauari, Envira, Eirunepé e Itamarati, estão em situação de alerta. Tabatinga, Benjamin Constant, São Paulo de Olivença, Amaturá, Santo Antônio do Içá, Tonantins e Atalaia do Norte, no Solimões, em situação de atenção.

Jornal do Commercio: Já tem como saber se a cheia desse ano será grande?
Marco Antônio: A previsão da cheia do rio Negro, em Manaus, é de que o rio possa atingir uma cota entre 29m25 até 29m95. Nós consideramos uma cheia grande e danosa à população ribeirinha quando o rio supera a cota de 29m.

JC: Na cheia, todos os rios da Amazônia sobem, ou só o Amazonas?
MA: O processo de cheia ocorre em todos os rios da bacia amazônica. A elevação dos rios começa em outubro e finaliza no mês de julho. Como se trata de uma bacia de tamanho continental as cheias evoluem no tempo e espaços diferentes. Assim os primeiros rios a encherem são os oriundos do hemisfério sul, como o Juruá, Purus e Madeira, que tem seu pico de cheia nos meses de março a abril. Na calha central, rios Solimões, Amazonas e Negro (em Manaus), o pico da cheia ocorre em junho. Já para a região do alto rio Negro e rio Branco, em Roraima, isso só acontece em julho.

JC: Mudanças climáticas seriam as responsáveis pelas variações nas cheias, como as grandes cheias tão próximas de 2009 e 2012?
MA: A recorrência de grandes cheias em um intervalo de tempo curto (uma década), como as que ocorreram em 2009, 2012, 2013, 2014 e 2015, indicam uma mudança no regime hidrológico. Ou seja, está chovendo mais. Talvez uma explicação seja o aquecimento global. A bacia amazônica e sua exuberante floresta tropical surgiram há milhares de anos, devido a condições estruturais da Terra: primeiro sua localização próxima à linha do Equador, onde há máxima insolação sobre o oceano Atlântico, fazendo com que haja intensa evaporação das águas do mar que fluem na forma de nuvens em direção ao continente sul americano. Estas nuvens são empurradas pelos ventos alíseos, de leste para oeste, devido à rotação do planeta. No extremo oeste do continente existe uma barreira formada pela cadeia de montanhas da Cordilheira dos Andes que serve de anteparo para toda a umidade que vem do Atlântico. Assim as chuvas precipitam sobre a cordilheira alimentando os rios da bacia Amazônica. Estas condições estruturais da Terra, insolação, evaporação, direção dos ventos e barreira orográfica da cordilheira dos Andes, não mudarão nos próximos milhares de anos. Portanto, se o planeta estiver sofrendo uma mudança climática para uma Terra mais quente, mais água evaporará do Oceano Atlântico e mais água entrará na bacia Amazônica. Um cenário futuro (e presente) será de uma Amazônia mais úmida, chuvosa e com cheias grandes recorrentes.

JC: A elevação das águas dos oceanos já afeta os rios da Amazônia?
MA: Não há este dado ainda.

JC: Em quais regiões da Amazônia as cheias seriam mais devastadoras? Peru e Colômbia tiveram regiões arrasadas nos últimos dias.
MA: As cheias mais intensas ocorrerão na parte mais baixa da bacia Amazônica, em sua planície, característica da sua parte brasileira. Na região andina espera-se maiores deslizamentos de terra e corridas de lama, como o ocorrido no Peru e na Colômbia.

JC: O que causa as cheias: chuvas em excesso nas cabeceiras do Amazonas ou degelo nos Andes?
MA: As cheias são provocadas pelas chuvas. O degelo andino contribui muito pouco e a maioria dos glaciares está localizada na região do oceano Pacífico, lado oposto da Amazônia.

JC: Por que esses dois eventos (cheia e vazante) acontecem na natureza?
MA: As cheias e vazantes ocorrem em ciclos sazonais marcados por um período chuvoso (outubro-junho) e um período de estiagem (julho a setembro). Eventos climáticos globais como o El Niño, intensificam a estiagem e o La Niña aumenta as chuvas. São eventos que se alternam a cada 1,5 a 2 anos.

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