Manaus, 16 de Novembro de 2018
Siga o JCAM:

Guerreiras no serviço militar

Por: Evaldo Ferreira eferreira@jcam.com.br
03 Mar 2017, 20h01

Antigamente o sonho de muitos meninos era se tornar bombeiro, principalmente quando o carro vermelho passava pela rua com a sirene apitando, chamando a atenção de todos, ou quando os bombeiros apareciam na televisão, heroicamente, debelando as chamas de um incêndio.

Mas muitas meninas também alimentavam esse sonho, porém, como não existiam mulheres bombeiras, o sonho delas não se tornava realidade. Felizmente, na juventude de Ana Lilian Braga do Bu, as mulheres já haviam conquistado essa igualdade e ela pôde realizar seu sonho de criança. "Sempre quis ser bombeira. Tinha admiração pelo trabalho dos bombeiros quando os via em ação, na TV", recordou a soldado feminino. Lilian era professora, mas assim que, em 2009, surgiu um concurso para ser bombeira, ela se inscreveu. E passou. "Somente em 2013 eu fui chamada. Fiz um curso de seis meses de duração onde aprendemos o básico da profissão: técnicas de combate a incêndio, salvamento em altura, salvamento aquático, atendimento pré-hospitalar, entre outros. Com o tempo, nos especializamos e vemos onde melhor podemos atuar. Eu, por exemplo, agora sou da equipe de combate a incêndios", falou.

Lilian não esquece sua primeira ocorrência. "Foi resgatar um cadáver que estava num local de difícil acesso para o IML. No primeiro momento achei tudo aquilo muito estranho, mas agora eu era uma bombeira, e quando o bombeiro é acionado ele tem que resolver o problema", disse. "Depois, somos um Corpo. Trabalhamos em equipe. Os mais antigos dão força pra quem está começando", assegurou.
Quanto à questão de os homens terem mais força que as mulheres, Lilian explicou: "Sim, os homens têm mais força, mas com o treinamento e o desenvolvimento de técnicas, acabamos fazendo o mesmo que eles. Nossa equipe é formada por três homens, eu e a condutora, que também é a responsável pela operação dos equipamentos do carro", explicou.

Sirene, adrenalina e risco
Lilian trabalha no Batalhão de Bombeiros Especial, na av. Constantino Nery, e disse que praticamente todos os dias atende a ocorrências. "Três coisas nos movem: sirene, adrenalina e risco. Quando a sirene toca, largamos tudo o que estamos fazendo e temos que ir ver o que está acontecendo", contou.

Entre as ocorrências mais comuns atendidas por Lilian ela listou os acidentes de trânsito com a vítima presa às ferragens, e o combate a incêndios resultantes de curto-circuitos em aparelhos domésticos. "E existe uma ocorrência que as pessoas nem imaginam que é atendida pelos bombeiros: o corte de anéis. O hospital não tem o aparelho para fazer o serviço e envia a pessoa pra cá, principalmente crianças. Todos os postos dos Bombeiros têm o 'aparelho corta anel'. É nessas horas que se faz importante a presença feminina, pois temos aquela paciência maternal que os homens não têm", falou. "E ainda tem o salvamento de animais em situação de risco, principalmente gatos e cachorros, presos sob as mais diversas formas e nos lugares mais inusitados", lembrou. Sobre a ocorrência mais difícil, Lilian recorda de um acidente de trânsito no qual uma das vítimas era uma mulher. "Eles estavam alcoolizados e o poste caiu sobre o carro. Os fios de alta tensão ficaram próximos e tivemos todo um trabalho para agir sem tocar nos fios", recordou. "Mais uma vez ressalto a importância da mulher na instituição. Num acidente como esses as mulheres ficam muito expostas. Quando elas notam a presença de uma bombeira, ficam mais tranquilas e conseguimos transmitir calma para elas", garantiu.

Para as garotinhas que ainda estão sonhando em ser bombeiras, Lilian dá um recado. "Procure saber o que realmente faz um bombeiro. Não é uma vida só de aventuras, mas também de muitos riscos", ensinou.

Policial, mãe e pai
Este ano Andréia de Souza Pinto completa 20 anos na PM (Polícia Militar). "Entrei na instituição por acaso. Tinha 19 anos e estava desempregada e uma amiga me falou que ia haver um concurso.
Fizemos. Eu passei e ela não", riu. De acordo com o historiador e coronel da reserva da PM, Roberto Mendonça, as mulheres passaram a ser aceitas na instituição a partir de 1980. "No concurso que fiz, em 1997, até então, foi um dos que mais teve mulheres inscritas", falou a cabo Andréia. E a vida de uma policial militar não é moleza. "Por 17 anos trabalhei na área, sempre dirigindo a viatura, em ocorrências nos bairros mais perigosos de Manaus, acompanhada por um ou mais policiais. Perdi a conta de quantas vezes deixei o prato de comida na mesa pra atender uma ocorrência. Quando somos chamados pelo rádio, temos que ir", disse.

Andréia falou que nunca chegou a entrar em confronto com bandidos, tipo tiroteio, "mas a toda hora temos que atender a ocorrências como marido que espancou a mulher, brigas de vizinhos. Uma vez evitei o linchamento de um ladrão num dos terminais de ônibus". E é boa de tiro. "Sempre fui. Sempre me saí bem nos cursos que fiz. E nunca deixo a arma de lado. Quando estamos na área permanecemos sempre com colete e armados. Doze horas seguidas. Nesses quase três últimos anos estou atuando mais administrativamente, no Comando Geral, e quando precisam de motorista, estou às ordens, mas se precisar ir pra uma ocorrência, vou", garantiu. Quando chega em casa a cabo Andréia vira mãe de um menino de oito anos. "E aqui em casa sou mãe e pai". Para as meninas, ou moças, que sonham ser soldadas PM, Andréia não tem um bom recado. "É complicado porque a própria população, pela qual você é paga para defender, não te valoriza, sem falar da corporação onde a mulher é discriminada pelos colegas, que muitas vezes não as querem como companhia nas ocorrências. Se você quer ser uma PM, não venha pelo salário. Venha porque quer ser uma policial, disposta a enfrentar todas as dificuldades e riscos da profissão", ensinou.

Comentários (0)

Deixe seu Comentário