Manaus, 21 de Setembro de 2018
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Em busca de gestão profissional nos barracões

Por: Evaldo Ferreira eferreira@jcam.com.br
13 Fev 2017, 14h50

Todo ano é a mesma história. Se não tiver dinheiro do governo do Estado e da prefeitura, as escolas de samba de Manaus não conseguem colocar seus carros alegóricos e brincantes na passarela do samba, no sambódromo, nos dois dias de carnaval. Este ano, por causa da crise econômica que assola o país, até os 45 minutos do segundo tempo o repasse da verba era uma incógnita, mas eis que o dinheiro veio.

Pouco, mas veio (R$ 91 mil do governo, R$ 99.582, da prefeitura). Fora essa tão preciosa ajuda, como as escolas de samba "se viram" para conseguir algum extra durante o ano e fechar a folha de pagamentos?

"Assim que acaba o Carnaval, na semana seguinte já estamos realizando eventos na quadra. O pagode Resistência do Samba acontece há 25 anos. Depois de pagarmos todas as despesas, o que sobra fica pra escola", falou Ivan de Oliveira, diretor de Comunicação da Reino Unido da Liberdade.

A Reino Unido, a verde e branco do Morro da Liberdade, foi fundada em 1981 e no ano seguinte desfilou pela primeira vez, ainda na avenida Djalma Batista. Já possui dez títulos no currículo, o mais recente em 2014 com o enredo "No reino do carnaval, já sorri, chorei, sambei e a liberdade conquistei".

"Nosso pagode é tão conhecido, que os sambistas do Rio de Janeiro, sempre que vêm a Manaus, nos visitam", disse. Outra forma de a escola conseguir recursos para o seu desfile é com os eventos que ocorrem semanalmente, a partir de agosto, "quando é escolhido o enredo, o samba e começa a ser definido quem vai ser quem durante o desfile, tipo rainha de bateria, mestre-sala e porta-bandeira", explicou.

"Ainda temos os associados da escola, uns 370, que pagam R$ 10, por mês. Esse dinheiro ajuda a manter a quadra e sempre o que sobra, fica pra escola. Também existem uns poucos abnegados, apaixonados pela Reino Unido, que tiram dinheiro do próprio bolso pra ajudar no desfile", lembrou.
Como nas demais escolas de samba, os membros da bateria e as baianas recebem sua fantasia de graça. "As demais são vendidas, mas pagam apenas os custos e a mão de obra, mas os brincantes são o corpo da escola", completou.

Desde os seus primeiros anos de existência, a Reino Unido ocupa o mesmo espaço acanhado como quadra, e sonha com a inauguração da nova quadra para este ano. "Já está em construção e torcemos para que fique pronta nos próximos meses. Aí vai ficar melhor porque terá capacidade para umas cinco mil pessoas e poderemos arrecadar mais com nossos eventos", adiantou.

A Reino Unido da Liberdade será a quarta escola a desfilar este ano e trará como enredo "No reino das fontes da vida, o Morro em movimento sustentável faz a diferença", uma homenagem à Fundação Amazônia Sustentável.


Postura de empresa
Não por acaso a Mocidade Independente de Aparecida reúne 21 títulos de campeã no seu currículo. Há cinco anos a escola de samba não sabe o que é derrota, mas sabe o que é ver as verbas definharem a cada ano e mesmo assim ter que mostrar uma escola bonita e luxuosa.

"Há três ou quatro anos descíamos com 25 alas e todas eram terceirizadas. Este ano desceremos com 20 alas e apenas seis estão terceirizadas. Terceirizar significa que uma pessoa fica responsável por uma ala, gastando e ganhando com ela", falou Saulo Borges, presidente da Aparecida. "Antes a escola dava as fantasias para os destaques, agora elas são vendidas", ressaltou. "Agora só a bateria, as baianas e as crianças que são destaque ganham fantasias", completou.

"Para arrecadarmos recursos para o desfile, realizamos eventos ao longo do ano. Alguns são gratuitos, mas a partir de agosto, quando escolhemos o enredo e o samba, começamos a cobrar ingresso. Aí começam a acontecer eventos pontuais fortes, que ajudam bastante com o que é arrecadado", salientou.
Saulo assumiu a presidência da verde e branco de Aparecida após o carnaval do ano passado, mas conta que há seis anos a escola de samba assumiu uma postura de empresa: só contrata serviços e adquire produtos que caibam no orçamento. "Com isso ganhamos credibilidade e podemos comprar produtos pra pagar depois", enfatizou.

"Também vendemos camisas da escola. Minha intenção, à frente da presidência, é criar outros produtos, além das camisas, para gerarem renda", adiantou.

A Mocidade Independente de Aparecida foi fundada em 1980, e no carnaval do ano seguinte já desfilava na avenida Djalma Batista.

Em 1983 tornou-se a primeira escola de samba de Manaus a desfilar apresentando carros alegóricos e fantasias luxuosos, que a caracterizam até os dias de hoje.

"E temos parceiros que nos ajudam financeiramente. Costumo dizer que todos os que trabalham aqui na Aparecida são responsáveis por ela existir, pois se fossem receber o valor real pelo trabalho que executam, não haveria dinheiro para tal, então essas pessoas doam seu trabalho para a escola, por isso a Aparecida é grandiosa", exaltou.

"Pra cada ala, temos em torno de seis pessoas recebendo. Nos bons tempos chegamos a ter 100, 150 pessoas trabalhando nos galpões. Pra esse carnaval temos só 40. Como suprir a carência? Com criatividade", ensinou.

Este ano a Mocidade Independente de Aparecida será a quinta escola a desfilar, com o enredo "Gratia Plena, Aparecida! 300 anos no coração do Brasil. Rogai por nós, Nossa Senhora!", numa homenagem à padroeira do Brasil, que dá nome ao bairro e à escola.


O desfile no sambódromo
O desfile das escolas de samba do Grupo Especial acontecerá nos dias 24 e 25, sexta-feira e sábado, respectivamente, na seguinte ordem e enredos:

Sem Compromisso (Eu tenho pra vender...Quem quer comprar?)
Andanças de Ciganos (Na festa dos deuses, os ciganos fazem o carnaval)
Unidos do Alvorada (Meu "Padim"... Abençoai esse povo guerreiro, filhos do chão rachado do Nordeste brasileiro)
Reino Unido da Liberdade (No reino das fontes da vida, o Morro em movimento sustentável faz a diferença)
Aparecida (Gratia Plena, Aparecida! 300 anos no coração do Brasil. Rogai por nós, Nossa Senhora!)
A Grande Família (Grandes sonhos, Grande Família, Grande Circular... Meu São José, fonte viva de histórias e cultura popular)
Vitória Régia ("Olhos vendados mãos firmes,a verde e rosa clama por justiça")
Vila da Barra (A saga de Ziza Martins, senhora de si, mulher guerreira na arte de educar), estreando entre as grandes.

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