Manaus, 18 de Setembro de 2018
Siga o JCAM:

Menos investimento em pesquisa

Por: Priscila Caldas pcaldas@jcam.com.br
04 Fev 2017, 13h44

Retração nos investimentos, diminuição de recursos humanos e menor volume de pesquisas voltadas à biodiversidade amazônica. Esse é o atual cenário da produção científica no Amazonas. Somado a esses entraves está a redução na oferta de editais públicos que possibilitam o início de novas pesquisas no Estado. O último edital de financiamento voltado às atividades de pesquisa científica, tecnológica e de inovação foi publicado em 2013 pela Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas), o que segundo os pesquisadores, impede o desenvolvimento de novos estudos e o consequente avanço tecnológico e econômico do Estado.

De acordo com a pesquisadora e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ecologia do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Flávia Regina Costa, o volume de pesquisas reduz a cada ano no instituto, tanto em quantidade como em qualidade. Ela explica que devido aos problemas econômicos que atingem o país há pelo menos dois anos, houve cortes financeiros quanto aos repasses destinados ao desenvolvimento dos estudos, o que atrapalha o andamento dos trabalhos.

Flávia relata que uma pesquisa para ser concluída pode ter duração de até 15 anos, período em que a equipe de pesquisadores precisa de suporte para atuar em campo e chegar aos resultados esperados. "Uma pesquisa demora muito tempo até chegar ao ponto de aplicação, ela evolui ao longo dos anos até alcançar o nível em que poderá ser repassada ao setor produtivo. Para isso, é necessário financiar, dar suporte para o estudo chegar ao final", disse.

Outro obstáculo citado pela pesquisadora é a falta de interação entre os diferentes grupos que compõem determinado segmento de pesquisa. Segundo ela, se houve decisão de apoio às pesquisas aos recursos pesqueiros, por exemplo, é necessário integrar todas as pessoas que compõem as etapas de pesquisas para que ao final, o resultado possa gerar impacto à cadeia produtiva. "É necessário integrar os diferentes grupos que desenvolvem as pesquisas nos diferentes aspectos para chegar a um conhecimento que poderá ser aplicado. Somente desta forma a produção sentirá a mudança, o impacto", avaliou.

Conforme a pesquisadora, da mesma forma que o volume de pesquisas diminui a cada ano, o quantitativo de pesquisadores também reduz devido o menor índice de contratações e o aumento no quadro de pessoal que chega à fase da aposentadoria. "Boa parte dos servidores ingressaram no instituto nas décadas de 70, 80 e 90. Após esse período não houve grandes contratações. Assim, perdemos pessoas a cada ano e ficamos com pouca gestão para poder organizar o conhecimento científico. Os dois últimos concursos públicos resultaram em cerca de 12 contratações, enquanto aproximadamente 50 pessoas se aposentaram", comentou.

Segundo o doutor e professor adjunto de farmacologia da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), José Wilson do Nascimento Corrêa, o cenário científico, na Amazônia, necessita de maiores investimentos e atenção voltada à evolução nas pesquisas e ao conhecimento da biodiversidade existente. "Precisamos evoluir quanto à pesquisa, conhecer nossa biodiversidade e explorar, no sentido sustentável, os recursos naturais que a Amazônia dispõe.

O ideal seria desenvolver mecanismos que viabilizassem pesquisas de biotecnologia e inovação que trouxessem recursos ao Estado, preservando o meio ambiente e conhecendo o que temos de riqueza natural", frisou. Para o doutor, uma das dificuldades para o desenvolvimento da comunidade científica no Estado está na menor periodicidade nas publicações de editais que visem o financiamento de ações de pesquisa em universidades e institutos. Ele cita os últimos editais publicados pela Fapeam, um em 2013 o "Programa de Apoio à Pesquisa - Universal Amazonas", e outro em 2014, o "Programa de Infraestrutura para Jovens Pesquisadores - Programa Primeiros Projetos (PPP)". "São 3 anos sem edital que proponha o financiamento de pesquisas. Sabemos que por lei existe um percentual de investimentos a serem destinados anualmente a ciência e tecnologia, pesquisa e inovação, mas será que esse repasse está sendo bem investido? Sabemos que a crise econômica acontece a nível nacional, mas quando vemos uma fusão da secretaria de ciência e tecnologia a uma outra pasta concluímos que caminhamos para um retrocesso", avalia.

Corrêa também acredita que a alternativa de desenvolvimento da pesquisa científica está na integração entre os pesquisadores e a comunidade. Ele afirma que o resultado será a geração de renda e avanço econômico ao Estado, além do desenvolvimento do conhecimento técnico e científico. "É preciso integrar todos os envolvidos na cadeia desde a população ribeirinha, por exemplo, que tem o conhecimento tradicional sobre plantas, para que essa comunidade tenha retorno positivo. Eles podem produzir, fornecer as plantas aos estudos na academia até chegar à produção na indústria, tudo de forma sustentável. É a valorização da cadeia produtiva", disse. "Temos uma estrutura boa com vários projetos. Mas, podemos melhorar muito. É preciso haver financiamento e publicações de aditais com maior frequência", completou. A assessoria de comunicação da Fapeam não informou o valor do repasse anual destinado pelo governo do Estado à pesquisa e à manutenção de bolsas. Conforme o órgão, o valor destinado aos projetos e aos bolsistas varia conforme o tipo de projeto definido pelos editais.
Segundo a assessoria, novos editais deverão ser publicados neste ano. Anualmente a fundação beneficia aproximadamente 3,5 mil bolsistas. A demanda é crescente, conforme o órgão, com crescimento de 10% nos últimos anos.

Comentários (0)

Deixe seu Comentário