Opinião

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Wanderley Guilherme dos Santos

Professor Wanderley deixa um legado exemplar para vida intelectual e democrática de nosso país

Por Breno Rodrigo

31 Out 2019, 11h44

Crédito: Divulgação

O desaparecimento de Wanderley Guilherme dos Santos, no último dia 25, marcou não só a passagem de um grande homem, mas também do maior arquiteto da Ciência Política brasileira. A sua contribuição para a formação da Ciência Política no país não possui paralelos em nossa vida intelectual.

Tudo começou quando o professor Wanderley, já formado em Filosofia e empolgado com a militância política, escreve nos Cadernos do Povo Brasileiro do ISEB e editado pela Civilização Brasileira, um ensaio, em 1962, que se tornou simultaneamente profético e clássico.

“Quem dará o golpe” é o ensaio sociológico do zeitgeist dos anos que antecederam o golpe de 1964. É o mapeamento dos preparativos do golpe em um processo caótico de radicalização das decisões políticas dos atores e os seus efeitos no arcabouço institucional forjado no contexto da constituição de 1946.

A sua formação acadêmica stricto senso em Ciência Política tem início nos Estados Unidos, onde tomou contato com as mais sofisticadas abordagens teórico-metodológicas e as técnicas de pesquisa quantitativa, portanto as bases normativas e empíricas das modernas análises políticas.

O resultado dos seus estudos nos EUA foi a publicação da tese a “Sessenta e Quatro: Anatomia da Crise”, mais tarde transformada na obra “O Cálculo do Conflito”. Na tese defendida por Wanderley, como desdobramento e sofisticação da sua obra primeira, “Quem dará o golpe”, o colapso de 1964 foi provocado por erros do próprio governo Goulart, ou seja, a falta de uma estratégia para a formação de uma base parlamentar combinado ao clima de radicalização ideológica.

Os dois componentes tiveram como resultado a paralisia decisória e, consequentemente, o golpe civil-militar. A tese de Wanderley é, ainda nos dias de hoje, uma das principais explicações para compreensão dos idos de 64.

Tempos depois, professor Wanderley dedicou-se o estudo do fenômeno das democracias e das desigualdades sociais. “Décadas de Espanto e uma Apologia Democrática”, “Razões da Desordem”, “Paradoxos do Liberalismo”, “Governabilidade e Democracia Natural”, entre outras, são obras que simbolizam esse novo conjunto de preocupações.

Para além das contribuições intelectuais, Wanderley Guilherme dos Santos foi um dos principais responsáveis pela institucionalização da Ciência Política no Brasil. O Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), da Universidade Cândido Mendes, tornou-se uma referência nacional e internacional dos estudos sobre democracia, instituições políticas e Relações Internacionais.

O projeto intelectual de Wanderley Guilherme dos Santos, um homem historicamente vinculado à esquerda nacional e crente nas virtudes da constituição de 1988, consistia em equilibrar um sistema político liberal, constitucional e representativo, que apresentasse as condições objetivas para a inclusão e megaconversão de indivíduos e cidadãos-eleitores, num Estado de bem-estar social capaz de modificar a inércia social marcada pela miséria e pobreza.

Professor Wanderley deixa um legado exemplar para vida intelectual e democrática de nosso país.

*Breno Rodrigo é cientista político

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