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Violência nas ruas limita negócios no comércio em Manaus

Por Marco Dassori

02 Nov 2019, 17h35

Crédito: Divulgação

A escalada da violência em Manaus preocupa os lojistas e já produz efeitos claros no comportamento do consumidor. Tradicional polo comercial da cidade, os estabelecimentos do Centro fecham as portas gradualmente cedo, reduzindo o tempo de oportunidades de vendas. Em resposta ao horário mais restrito e à sensação de insegurança geral, os manauaras vêm preferindo gradualmente os shoppings em detrimento das lojas de rua.

Episódios violentos e cada vez mais frequentes da crônica policial da capital amazonense ajudam a alimentar a dinâmica de medo. Na madrugada desta terça (30), por exemplo, uma operação da PM se encerrou com a morte de 17 suspeitos, no Crespo, zona Sul de Manaus. Segundo relatos, a equipe interceptou um grupo pertencente a uma organização criminosa que estava planejando homicídios para tomar bocas de fumo de traficantes rivais. Os policiais teriam sido recebidos a tiros, embora o confronto tenha se encerrado sem nenhum agente da lei ferido. A ocorrência ainda está em andamento.   

Os efeitos do aumento na sensação de insegurança, entre outros fatores, já se fazem sentir nas mudanças de hábito captadas nos levantamentos do Ifpeam (Instituto Fecomércio de Pesquisas Empresariais do Amazonas). Local preferencial para compras, em virtude dos preços e da variedade, o Centro vem perdendo espaço e foi a preferência de apenas 4,5% das pessoas ouvidas em outubro. Em contrapartida, lojas de bairro (70,2%) e shoppings (25,3%) aumentaram sua fatia. Na mesma pesquisa, 22% dos entrevistados relataram ter sofrido assaltos, sendo que apenas 1,1% registraram a ocorrência.

Horário reduzido

De acordo com o presidente da ACA (Associação Comercial do Amazonas), Ataliba David Antônio Filho, o medo da violência não apenas inibe o fluxo de consumidores em potencial, como também já produz efeitos no dia a dia dos lojistas de Manaus.

“Isso reflete muito na atividade do varejo. O comércio do Centro já vinha encerrando as atividades por volta das 17h, mas há estabelecimentos que já estão fechando até às 16h. Afinal, as empresas são responsáveis pela integridade de seus funcionários. A legislação trabalhista é muito clara nesse aspecto. Com isso, as lojas acabam vendendo menos”, apontou.   

No entendimento do dirigente, as empresas poderiam funcionar no horário regulamentar, ou até mesmo em jornada estendida, caso houvesse maior policiamento na área. Mas, conforme o comerciante, a crise fiscal e o déficit das contas públicas no Estado dificultam o necessário fortalecimento da segurança.

“Se funcionássemos até mais tarde, poderíamos atender o público do Distrito Industrial, que sai das fábricas na hora em que as lojas do Centro já estão fechadas, e acaba indo comprar nos shoppings, quando possível. Sabemos que o pouco policiamento não é culpa dos policiais, que fazem o possível para trabalhar com o que têm. Faltam recursos para aumentar os contingentes, assim como o número de viaturas e o armamento”, lamentou.

Seguro e custos

Na mesma linha, o presidente em exercício da Fecomercio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, lamenta os efeitos da sensação de insegurança nas vendas do comércio varejista, bem como nos custos operacionais das empresas.

“Às 17h, já há pouquíssimas pessoas no Centro, contribuindo para a perda de densidade das vendas do comércio. A grande maioria das pessoas já foi assaltada e há alguns locais da cidade em que as seguradoras já nem entram mais, com medo de perder dinheiro. Para evitar maiores perdas, as lojas trabalham com frequentes alívios de caixa, o que onera os custos, principalmente para as pequenas empresas. O estabelecimento necessita de um local seguro para depositar os valores, ou terá que arcar com o transporte do dinheiro”, desabafou.

O dirigente, contudo, prefere mirar nas causas e não nos efeitos. Frota atribui a escalada da violência ao rescaldo da crise – em especial ao aumento do desemprego – e a queda drástica no nível de educação brasileira. “As pessoas precisam de oportunidades profissionais e de melhor orientação educacional. Sem isso, não adianta apenas aumentar o policiamento”, opinou.

Desemprego e transporte

Já o presidente da FCDL-AM (Federação das Câmaras dos Dirigentes Lojistas do Amazonas), Ezra Azury, considera que, embora relevante, o problema do aumento de violência e da sensação de insegurança na cidade não são determinantes para os resultados do comércio varejista da capital amazonense.

“A cidade tem áreas vermelhas, como ocorre em todo o lugar. Sabemos que os problemas existem e que a segurança poderia ser muito melhor para lojistas e consumidores. A violência é preocupante. Mas, não vejo essa questão como fundamental para a demanda no setor. Acredito que os altos níveis de desemprego e os problemas de transporte e mobilidade urbana são muito mais decisivos para comprometer as vendas, nesse caso”, encerrou.

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