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Vinil marca cultura de gerações e mostra que nunca sai de moda

As épocas passam e passam as formas de se eternizar músicas. Partituras, LP′s, CD′s, plataformas digitais

Por Evaldo Ferreira

14 Mar 2019, 17h35

Crédito: Evaldo Ferreira

As épocas passam e passam as formas de se eternizar músicas. Partituras, LP’s, CD’s, plataformas digitais. Os LP’s em vinil, porém, conseguiram marcar gerações em pouco mais de 40 anos de prevalência (o primeiro é de 1948). Se tornaram peças de colecionadores e nunca deixaram de ter um espaço junto a seus admiradores. Mesmo destino estão tendo os CD’s que, com quase 40 anos de existência (o primeiro é de 1982), somem das prateleiras das lojas e começam a se tornar peças de colecionadores e admiradores.

Alexandre Neves sempre foi um apaixonado pelo vinil, não só para ouvi-los, mas também para comercializá-los. Há seis anos ele criou a Toca do Vinil, uma loja dos tempos modernos, apenas digital.

“Faço a divulgação dos discos e contato com os interessados através do Facebook e do Instagram. Muitas pessoas querem vir na loja física, mas eu não tenho loja física”, riu.

“Comecei vendendo LP’s, compactos e fitas K7 e agora até os CD’s começam a ser procurados pelos meus clientes”, revelou.

“Acredito que quem prefere o LP é quem possui o ouvido apurado para o som. Quando você coloca um vinil num toca discos, dá para notar a qualidade sonora”, garantiu.

“Também têm aquelas pessoas que buscam o disco de um determinado cantor, de um grupo musical, ou mesmo de uma música, que nunca foram gravados em CD. Cito como exemplo os cantores amazonenses que gravaram LP’s nas décadas de 1970 e 80. Esses discos nunca viraram CD”, informou.

“Eu tenho o primeiro disco gravado pelo Grupo Carrapicho, em 1982, em Belém. Um compacto duplo. Manaus só veio ter estúdio de gravação a partir da década de 1990. Um dia encontrei o Zezinho Corrêa e perguntei se ele tinha aquele disco. Não tinha. Como eu possuía em duplicidade, dei um para ele”, contou.

LP's raros 

Alexandre tem o LP com a narração do jogo da Seleção
Brasileira em Manaus em 1970, na inauguração do Vivaldo Lima 

 

Em seu acervo de colecionador, com cerca de dois mil vinis, Alexandre tem o LP com a narração do jogo da Seleção Brasileira, que esteve em Manaus em abril de 1970, na inauguração do estádio Vivaldo Lima, dois meses antes de ir ganhar o tri no México. Também tem um LP do ‘Projeto Nossa Música’, de 1986, que reuniu 20 artistas locais, a maioria em começo de carreira, como Eliana Printes, Torrinho, entre outros. Para venda ele possui mais de cinco mil itens, com preços que começam a partir dos R$ 2 reais.

“Eu também garimpo peças raras, como o primeiro disco da Eliana Printes, gravado em 1994. Já conversei com ela e ela me disse que só tem o dela mesmo”, falou.

No final do ano passado, a família do ex-radialista Joaquim Marinho colocou à venda seu acervo de discos formado ao longo de mais de 50 anos, calculado em cerca de 12 mil peças. Alexandre foi lá, ajudar na avaliação e adquirir peças de seu interesse.

“Acho que foram vendidos uns três mil discos. Tinha e tem coisas fantásticas, como ‘The Early Tapes of The Beatles’, de 1964, avaliado em uns R$ 2 mil. Achei o álbum ‘Coisas’, do arranjador, compositor, maestro e multi-instrumentista Moacir Santos. Esse álbum está avaliado em uns R$ 5 mil”, revelou.

Ao menos uma vez por mês, Alexandre sai da loja virtual e organiza uma loja física em algum bar de grande movimento na cidade. “Aí eu convido outros colegas que também vendem discos, CD’s, livros e realizamos uma feira cultural para que o cliente possa ter um contato pessoal conosco”, falou.

“Nessas feiras fazemos muitos negócios. Tem gente que vem comprar, vender e até doar discos para desocupar espaço em casa. E tem aqueles que simplesmente jogam os discos no lixo”, lamentou. “O comprador de vinil tem acima de 20 anos, um certo poder aquisitivo e é um garimpador de discos específicos. Não compra qualquer coisa”, disse.

A próxima feira da Toca do Vinil será dia 6 de abril, sábado, o dia todo, no Bar Basquiat, na rua Ferreira Pena, em frente ao TRT (Tribunal Regional do Trabalho”, adiantou.

Faltam vitrolas e toca discos

Jonathas Oliveira hoje possui cerca de 700 discos
 

O músico e escritor Jonathas Oliveira tinha onze anos, em 1992, quando os CD’s começaram a tomar conta das prateleiras das lojas e desbancar os LP’s, em Manaus.

“Eu não tinha dinheiro para comprá-los, mas herdei todos os discos do meu pai, que tinha um bar no Alvorada, imagina, com vários estilos musicais. Logo depois a patroa de minha irmã resolveu jogar fora todos os seus LP’s e substituí-los por CD’s. Minha irmã pegou os discos e me deu. Começou ali a minha coleção e paixão pelo vinil”, lembrou.

“Há uns dez anos compro discos do Alexandre. Ele é um dos três grandes comerciantes de discos de Manaus junto com o Império Antiquário e a Art Vinil, porém, o Alexandre sempre consegue os LP’s que me interessam com blues, jazz, MPB, rock progressivo, punk rock e gospel”, listou.

“Cheguei a ter uns três mil LP’s, mas comecei a me desfazer de tudo o que não costumava ouvir. Hoje tenho uns 700, nesses estilos que citei”, explicou.

“Acredito que vão surgir outras formas de se ouvir música, além das plataformas digitais, mas os LP’s sempre vão ter seu público cativo. Agora até os CD’s estão virando itens de colecionadores. Vejo hoje muita gente nova querendo comprar LP’s e vitrolas. É uma geração que está se formando. O grande problema hoje não é a falta de vinil, mas a quase inexistência de vitrolas e toca discos. Se estas voltarem a ser industrializadas, o vinil tende a ter um aumento de interessados”, previu.