Opinião

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Vão falar de você

Muitos ainda acharão insuficiente ou que não é lá essas coisas. De certo, vão falar de você

Por Cíntia Lima

16 Mai 2019, 09h22

Crédito: Divulgação

Um determinado dia, anos atrás uma amiga me procurou muito feliz e ao mesmo tempo muito preocupada por que estava mudando de carreira e seguindo para uma rotina que motivava mais e gerava mais alegria. A mesma intensidade de entusiasmo confundia-se com os medos e receios da incerteza se seria realmente a melhor opção.

Neste cenário, tudo muito natural, afinal, por mais difícil que esteja o momento em que você vive e por mais desgastadas que estejam as relações do presente, ainda assim, temos o conforto da “certeza”, ou a “segurança” dos perigos conhecidos. Lançar-se ao novo, mesmo com todos os riscos calculados, é sempre um frio na barriga do que pode estar por vir. É frequente o receio do desconhecido pelo simples fato do não sei ao certo o que pode acontecer, frente ao aqui e agora que eu já posso prever melhor os desafios e dificuldades.

No caso da minha amiga, o medo do novo não paralisou e sua avaliação sobre prós e contra pesaram mais para as vantagens e benefícios do que para as perdas, e, ela avançou. Pude acompanhar alguns momentos de perto e ver toda sua angústia em separar-se de algumas pessoas queridas do passado que não conseguiriam acompanha-la, também pude ser um ombro amigo para os muito momentos em que sentia-se culpada por não ter conseguido fazer com que todos tivessem realmente compreendido os motivos que fizeram mudar, bem como o sofrimento de, embora ter tentado, algumas pessoas sentiram-se abandonadas e descarregaram nela uma responsabilidade que não lhe cabia.

Com este cenário, me veio a primeira lição do tópico deste artigo: podemos até tentar, fazer o nosso melhor, explicar o detalhe, ser o mais transparente possível, agir com ética e honestidade em cada passo, mas não conseguiremos agradar todas as pessoas, bem como não será possível atender todas as expectativas dos outros, e, hora ou outra as suas decisões entrarão em conflito com a vontade e interesse daqueles que um dia estiveram tão perto e sonharam tanto com você. E neste momento, eles “podem” falar de você.

Você pode perguntar, mas falarão bem ou mal? Bem, apesar de todos nós no fundo querermos ser bem falados, isto já tem muito mais haver com o conteúdo das outras pessoas e suas exigências internas do que efetivamente o que você fez ou faz. A palavra é exigência mesmo, porque muitas pessoas falam mais do que esperavam que fizéssemos do que efetivamente o que fizemos. Muitas destas exigências inclusive são até irreais. Também existe o caso, de serem expectativas não combinadas ou ainda pessoas que até queria ter, fazer ou ser o caminho seu.

Até bom reforçar que você pode inclusive ter feito algo de “errado”, mas falar de você não resolverá mais o problema e continuará sendo uma exigência irreal.

A mesma reflexão, serve para você e para mim. Não fale de ninguém. Não comente da vida dos outros para os outros. Não descarregue no outro as próprias tristezas e frustrações. E mesmo que tenhamos esta expectativa sobre os outros a nosso respeito, não crie essa exigência irreal – vão falar de você.

Passada esta primeira lição na vida da minha amiga. Eu também tive a felicidade de presenciar sua luta, seu empenho para que sua nova carreira fosse um sucesso, sua disciplina, organização e planejamento para gerenciar melhor todas as adversidades neste mundo novo. As muitas noites em que ela me falava de ter passado acordada, estudando, pesquisando, lendo para estar mais preparada para o próximo desafio. Os finais de semana que abdicou do convívio da família ou que não saia conosco para dedicar-se um pouco mais, e, ano a após ano, foi notório ver o quando havia evoluído, o quanto tinha alcançado novas conquistas. Sempre que podíamos, nos encontrávamos para festejar os ganhos de sua carreira e eu compartilhar os ganhos da minha.

Em um desses encontros, ela estava triste porque ouviu dizer que fulano estava falando dela, que o sucesso era imerecido, que não merecia a confiança das pessoas porque era ambiciosa, interesseira ou pouco confiável. Não lembro ao certo, o que era, mas no fim acabamos discutindo a situação do sucesso do outro incomodar tanto algumas pessoas a ponto de gerar o que há de pior, como inveja, fofoca, mentiras e o que mais for necessário para desqualificar o outro.

Com este cenário, me veio a segunda lição do tópico deste artigo: pessoas felizes comemoram a felicidade alheia, pessoas bem resolvidas focam no que querem conquistar, no que podem fazer ao invés de perder tempo falando de forma negativa da conquista do outro. Claro que estes itens não esgotam as possibilidades do que pode acontecer de maneira interna com a pessoa que fala do outro, mas nos direciona para o aprendizado de que se é para falar das vitórias das pessoas que seja incentivando, aplaudindo e qualquer dose de desconforto em você frente as conquistas das outras pessoas, pense não no que falta nele, mas o que falta em você. Sendo assim, mesmo que você tenha lutado muito e de forma correta para o estágio que alcançou, vão falar de você.

No fundo, estes não são aprendizados só para minha amiga, são para mim também e podem ser para você. Não conseguiremos atingir os objetivos de todas as pessoas que nos cercam. Algumas pessoas mesmo que importantes em um tempo, no tempo seguinte podem não caminhar mais com você. Mesmo que você tenha derramado muitas lágrimas e muito suor para realizar, alguns ainda chamarão de sorte o que foi competência. Ainda que você sinta-se realizado e no percurso da melhoria continua, muitos ainda acharão insuficiente ou que não é lá essas coisas. De certo, vão falar de você.

E sabe de uma coisa: deixem que digam, que falem, deixa isto para lá, o que é que tem. Mas do que o que os outros falam de você, o que vale mesmo é o que você sabe a seu respeito.

*Cintia Lima é psicóloga, Master Coach e Mentora Organizacional - cintialima@coachcintialima.com - 92 981004470

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