Opinião

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Vamos integrar os acertos da ZFM no cenário da nova política industrial do Brasil

Por Cieam

11 Mar 2019, 14h51

Crédito: Acervo JC

Entrevista com José Jorge Júnior, presidente da ELETROS 

Escolhido por seu currículo, bagagem e carisma, José  Jorge Júnior, um amazonense brilhante, dirige a ELETROS, uma entidade que reúne empresas de eletroeletrônicos de todo o país. Otimista sem ser ingênuo, levou para a Pauliceia Desvairada sua energia "Sim, nós podemos" e já caiu nas graças dos novos parceiros. Aqui ele desenha com cores vibrantes um novo momento para a ZFM e para o Brasil, apostando na integração inteligente de nossas entidades e negócios. Na correria de todo dia achou um tempinho para acolher a FOLLOW Up. Confira...

FOLLOW Up - No conjunto dos expectadores do novo governo, vemos você - presidente de uma entidade como a ELETROS, em SP, formada por empresas do setor eletro-eletrônico de todo o Brasil, com a clareza de um otimista convicto. O que você destaca na cena brasileira que o leva a pensar positivamente?

JOSÉ JORGE JÚNIOR - o otimismo faz parte da minha natureza. Procuro ver os sinais positivos dos cenários, para que eles contagiem as pessoas positivamente, na esperança de que essa energia influencie todos os atores da mudança. Eu acredito no novo governo, na coerência de seus propósitos porque apresenta, de forma integrada, o conhecimento de nossos problemas e os remédios amargos que todos devemos tomar. Temos que lembrar da crise que nos assaltou a partir de 2015, crise política com sequelas destrutivas da economia. Chegou a hora de virar a chave e começar a abrir novos caminhos. O Brasil não poderia passar por mais um ano de crise. As consequências seriam desastrosas. Temos pela frente mais 4 anos de um governo escolhido pelo povo e reconhecido pelas instituições. E temos ainda um cidadão mais atento às questões políticas, mais consciente do poder de suas escolhas. Essa é a senha que  pode mudar o rumo deste país à deriva. Além do governo no executivo, temos um novo colegiado no Congresso, 50% renovado e focado na determinação de fazer o Brasil dar certo. O povo fez suas escolhas, devemos aplaudir a opção popular. Também no estado do Amazonas, a renovação quem exige mudança, foi de 50% simbolizando o desejo coletivo de virar a página. E essa narrativa  já começou. Há um clima político mais saudável. E se a população quer mudança, não há porque continuar frustrando as expectativas da sociedade. O ambiente político favorável induz o setor privado ao clima de mudança. Há um otimismo no ar e mais tranquilidade para trabalhar neste país tão rico de oportunidade. O que está faltando neste ambiente econômico favorável é a volta ao consumo, a melhor maneira de ampliar decisões de investimento. À medida em que o consumidor se sentir seguro, teremos decisões mais rápidas na linha de reaquecer a economia. Este consumidor só vai se sentir mais seguro, na medida em que novos empregos forem aparecendo, significando sua segurança dos postos de trabalho. Ou seja, este conjunto de fatores estão na base de sustentação de nossas crenças.

FUp -  O empresário Jaime Benchimol estima que metade das empresas do Polo Industrial de Manaus não vai  conseguir sobreviver com as novas regras da política fiscal do governo. E só ficará quem aguentar competição em céu aberto. Vai haver muito choro e muita debandada. Qual é a sua opinião a respeito?

JJJ - As previsões do empresário Jaime Benchimol não estão distantes da realidade, quem não se preparou para competir dificilmente vai sobreviver. É claro que dependerá do tamanho e da amplitude das mudanças. Se forem retiradas as vantagens competitivas da ZFM não é só 50% é quase a totalidade dos negócios no polo industrial de Manaus que vai embora. Mas minha análise descarta essa tragédia. Na medida em que o super ministro, Paulo Guedes, conhecer a amplitude dos nossos acertos e nossa capacidade de gerar emprego, nos iremos atuar com liberdade e segurança jurídica. Nossa esperança é a redução deste estado tão pesado, e um custeio burocrático insaciável. Com a provável abertura da economia vai pelos ares também a maioria do empresariado brasileiro que sofre, ano a ano, os efeitos de uma carga tributária inaceitável. Além disso, sem vantagens competitivas, a indústria brasileira naufraga nesse barco furado da burocracia e na fome insaciável de recursos da máquina pública . Felizmente temos um Congresso Nacional renovado de forma significativa e eleito com o anseio do eleitor em ter transformações benéficas à sociedade precisando mostrar serviços, e um eleitor mais atento que está acompanhando o processo político. As medidas governamentais mais duras precisam ser debatidas em suas viabilidades com este Congresso e também com as entidades de classe onde os segmentos organizados sabem onde o sapato aperta. Este diálogo é essencial, extremamente transparente e com acordos que tenham em vista o interesse público e do segmento que gera riqueza, emprego e arrecadação de milhões de reais em impostos. No caso do Amazonas, onde vivemos sob o frequente desacato à lei que dá sustento a ZFM, a uma torcida para redução da máquina pública e novos investimentos de infraestrutura, seja de energia, transporte e comunicação.

FUp - O empresário Wilson Périco, presidente do CIEAM, líder na luta pelos direitos dos empreendedores da ZFM e defensor das novas matrizes econômicas, tem alertado para o risco de dependermos de uma única caneta. Ou partimos para diversificar, adensar e regionalizar a economia do Amazonas e da região, ou veremos o processo de desindustrialização implodir por descaso federal com os acertos e avanços da ZFM. Em que direção podemos ou devemos diversificar o PIM, Polo Industrial de Manaus?

JJJ - Primeiramente quero destacar o espirito guerreiro do presidente Wilson Périco, os associados do Centro da Industria do Estado do Amazonas, assim como os demais atores da economia e do desenvolvimento, tem um líder, alguém que nos representa, não apenas como entidade de classe e representação institucional das entidades, mas também um cidadão amazonense que vê na postura de Wilson Périco, aquele que luta por empregos pela interiorização do desenvolvimento e a melhoria da qualidade de vida dos nossos irmãos ribeirinhos. A questão dessas mudanças precisa considerar, segundo o próprio presidente Périco, a economia da contrapartida fiscal e as iniciativas da diversificação econômica. São iniciativas concomitantes e indissociáveis. Fortalecer a indústria existente significa ampliar o leque de oportunidades para região. Uma sem a outra fica capenga. Infelizmente o que se viu nos últimos anos, foi o desvio de finalidade das verbas de pesquisa e desenvolvimento, de turismo, interiorização do desenvolvimento e o fortalecimento das micro e pequenas empresas. Esses recursos, recolhidos pela indústria de Manaus, foram encaminhados para o custeio dessa máquina pesada, burocratizada e ineficiente. Só para o estado do Amazonas a indústria recolhe R$1,5 bilhão de reais para o desenvolvimento econômico. Essa dinheirama vai para o ralo da incompetência administrativa. No âmbito federal, meio bilhão de reais pagos à SUFRAMA, por sua vez, não tem sido usado como a lei determina. Assistimos, no final do ano passado, a um esforço muito grande de alguns técnicos federais para virar esse jogo, aplicando recursos das empresas em bioeconomia, tecnologia da informação e comunicação. A presença firme e determinada do coronel Alfredo Meneses, novo gestor da Suframa, um amazonense alinhado com os problemas da região, nos enche de expectativas positiva, de mudança na superintendência da ZFM. Com 8% de renúncia fiscal, na verdade uma contrapartida discreta diante de resultados tão generosos, estamos fazendo a diferença ao devolver para sociedade muito mais do que recebemos da União Federal. A ZFM é o maior acerto fiscal, no combate as desigualdades regionais de toda a historia da República. Infelizmente as vezes me parece que alguns técnicos do governo central, ao lutarem contra o modelo ZFM, zombam da Carta Magna, que autoriza esse beneficio justamente para que a riqueza por ele gerada, seja aplicada na região. Infelizmente não é isso que acontece. Entretanto na medida em que o poder central entender que, após 52 anos de teimosia, nos temos um legado robusto, temos a clareza da importância essencial da ZFM e queremos ver toda riqueza produzida no Amazonas,  aplicada no Amazonas e na Amazônia Ocidental e mais o estado do Amapá.

FUp - O  mundo está de olho na Amazônia,  temos aqui minerais, insumos vegetais decisivos na indústria de dermocosméticos,  fitoterápicos e alimentos funcionais. Madeira de origem legal de MFS, manejo florestal sustentável, além dos serviços ambientais que oferecemos gratuitamente. Por que, depois de 52 anos, essas ideias continuam em sua maioria, nos arquivos e discursos da pompa amazônica? O que fazer para transformar power-points em materialização de projetos?  

JJJ - Primeiramente nós  precisamos assegurar a segurança jurídica neste modelo de acertos. Às vezes, na gestão da ZFM, somos obrigados a trocar o pneu com carro em movimento. Para mudar isso temos conosco a tábua da Lei. Qualquer mudança precisa ser debatida com os interessados. Não queremos privilegio e sim respeito aos direitos dos investidores. Não podemos nos submeter ao posicionamento xiita de alguns técnicos federais que se acham acima da lei e que exigem que a Amazônia trate a sua floresta como a Índia trata as suas vacas. Em nosso estado, a economia da ZFM foi decisiva para proteção florestal. Temos mais de 90% da cobertura vegetal conservada, embora possamos utilizar 20% deste acervo natural, o suficiente para transformar de modo positivo a paisagem econômica e socioambiental da região, explorando com inteligência e sustentabilidade as oportunidades infinitas de novos negócios.

FUp - Finalmente, para você, que hoje ocupa a direção da ELETROS,  uma entidade que congrega em São Paulo as empresas do setor eleito-eletrônicoeconomia do Brasil e da ZFM, a economia do Amazonas deve ser inserida, com que certeza, na política industrial econômica e ambiental do Brasil.? 

JJJ - Temos condições de transformar nossa modelagem de desenvolvimento em paradigma de utilização de incentivos fiscais para reduzir, com sustentabilidade e destreza, as desigualdades gritantes deste país. Há uma falácia na descrição feita pela mídia, de que os 8% de nossa contrapartida fiscal, atrapalha os interesses nacionais. Isso é ignorância ou má fé. Se nos replicássemos este modelo ZFM em outros recantos de pobreza por este país a fora, em pouco tempo a paisagem socioeconômica desta nação seria outra. Agredir este modelo é desconhecer 2/3 do território nacional. Eles esquecem que a economia do Amazonas não é uma política de governo. Somos uma política de estado, portanto exigimos respeito aos expedientes constitucionais que nos dão amparo. Aqui temos 450 empresas que sinalizam uma economia extremamente sintonizada com a ecologia. Produzimos alta tecnologia de produtos com preços adequados, sem ameaçar os estoques naturais. Estamos investindo meio bilhão de reais por ano, em desenvolvimento tecnológico e renovação industrial. Que outro aglomerado industrial incentivado, devolve ao país tantos benefícios? De quebra recolhemos aos cofres federais 50% de todos os impostos da região norte, e fomos transformados em importadores líquidos de recursos, e podemos dizer que fazemos parte do seleto grupo composto de 8 estados, que carrega o país nas costas. Com esses dados, extraídos da receita federal devolvemos para os cofres da União, três vezes e meio a mais do que recebemos. É muito fácil inserir, portanto esta economia bem-sucedida no sumário  de uma nova política que o Brasil precisa implementar.

Em suma, a ZFM é efetiva pois dá muito mais retorno à sociedade, ao meio ambiente e à economia do país do que os seus incentivos fiscais que lhe são garantidos. Sendo assim, porque enfraquecer uma política tão importante é benéfica ao Brasil? Tecnicamente não há motivos pra ser contra a ZFM. 

* José Jorge Júnior é Administrador de Empresas, foi Secretário de Planejamento do Amazonas, 2016 a 2017, atualmente é presidente da Eletros. 

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