Opinião

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Uma nova anedota no Maracanã

Quem mandou não substituir quando possível aquele jogador que desperdiçou várias jogadas

Por Bosco Jackmonth

14 Abr 2019, 20h20

Crédito: Divulgação

Não chegou a ser o Maracanaço de 1950, mas cogite-se que nestes três últimos dias será decretado feriado nacional no Uruguai, incitado pelo secular rancor contra o Brasil, em torno de qualquer contenda, sugerindo, quem sabe, que os hermanos ainda não esqueceram passagens históricas como os eventos da Guerra Cisplatina, ou outros, mesmo quase 200 anos depois. É que ontem, 03/04, o Flamengo derrotou-se por 1x0, ao final do jogo, num autêntico 1º de abril, onde se evidenciou que seus jogadores não foram advertidos do significado mortal que é de jogar contra uruguaios, tamanha era a postura de alguns atuando em meia-sola. É certo que naqueles idos nenhum dos atletas em serviço era nascido, o que não obsta, contudo, de que tivessem notícia daquilo. Que pena rol de erros!

Paciência. Quem mandou não substituir quando possível aquele jogador que desperdiçou várias jogadas, afinal expulso. O que usa a cabeça enfeitada de botafoguense, ou seja cabelo branco e barba preta? Mas, como se viu, mesmo apenas com 10, o time optou por lançar-se ao ataque, cercando o adversário, ao invés de contentar-se com o empate de 0x0, não fosse essa a sua histórica flama em busca da vitória. Mas, não deu...

Acima lembrou-se da Copa do Mundo de 50, realizada no Brasil e que se traduziu numa derrota incrível e dolorosa, perante o maior público numa partida de futebol, contando-se por volta de 220 mil pessoas presentes à decisão, após a realização do Quadrangular Final entre Brasil, Uruguai, Espanha e Suécia, quando então os brasileiros soterraram os suecos por 7 a 1 e os espanhóis, por 6 a 1, ao coro de Tourada de Madrid, entoada pela maioria do público. Já os uruguaios empataram com os suecos por 2 a 2, e venceram os espanhóis num jogo dificílimo, mas classificando-se para a final, partida em que bastaria o empate para o Brasil ser campeão.

O otimismo tupiniquim reforçava-se em face das recentes vitórias sobe o adversário, além de que circulavam notícias sobre o desalento destes, tais como a suposta recomendação do seu médico de que estaria muito bom se não fossem goleados. Não bastasse, no dia da final os jornais estampavam os atletas brasileiros como campeões mundiais, enquanto a torcida já comprara a certeza do título, com isso tirando a concentração dos jogadores. Ou seja, ali nasceu e eternizou-se o famigerado “já ganhou”, de tão desastrosas consequências, como bem se sabe.

Este articulista ora mostra-se em dúvida: Em casos da espécie, o melhor é soterrar as lembranças da desdita, ou mantê-las de pé servindo de lição? Convém fechar os olhos e ouvidos, no adjetivo, para evitar a reedição de um tenebroso fato? Ou, como os avestruzes, enterrar a cabeça no chão quando na pradaria, para não verem a iminência de que vão ser devorados?  Ou é melhor ter em conta: Quem esquecer os seus fracassos, tende a repeti-los? O leitor por favor faça a escolha.

Nesta altura do comentário, ao invés de continuar a colher subsídios, o melhor é partir para a transcrição do que se oferece disponível (Wikipédia). Assim, verbis:

“Ao entrar no gramado do Estádio do Maracanã, naquele 16 de julho de 1950, brasileiros e uruguaios encontraram o maior público já visto para uma partida de futebol: 174 mil pagantes, somados a uma estimativa de 50 mil penetras. Havia entre 200 mil, ou 220 mil pessoas (pouquíssimos uruguaios), ali presentes. Ambos escretes estavam nervosos, alguns, apavorados. Júlio Perez chegou a urinar em seu calção de tão nervoso. Os uruguaios vestem o tradicional uniforme de camiseta celeste e calções e meias negras, enquanto os brasileiros jogam todos de branco. Às 14h e 50 minutos começa a decisão. O Brasil toma a iniciativa do jogo, pressiona. O Uruguai fica na defensiva, mas puxando perigosos contra-ataques. [...]”

Bola vai, bola vem, cessa o primeiro tempo, começa o segundo. “Logo aos 2 minutos, Zizinho toca para Friaça na ponta-direita, que nas costas de Andrade, sai na cara do gol. O bandeirinha marca impedimento. O juiz nada marca. Friaça toca à direita de Máspoli. Gol do Brasil, 1 a 0. Bombas e rojões estouram dentro do estádio, que vira um carnaval.

Obdúlio Varela, capitão Uruguaio, prende a bola nos braços e bate boca com Augusto do Brasil, com o árbitro e com o bandeira, alegando impedimento, parando o jogo por 2 minutos, e acalmando seus colegas assustados. Por fim grita a seus colegas "Ahora és hora de vencer!". Recomeça o jogo [...]”

“Varela tenta pressionar a arbitragem, apitar o jogo, grita com os companheiros, mais do que nunca ele é "El Negro Jefe". Por fim, aos 21 minutos do segundo tempo, Varela lançou Ghiggia na ponta-direita, o qual venceu o lateral-esquerdo Bigode na corrida e cruzou à meia altura. Juan Alberto Schiaffino, o único gênio do time, tentou emendar de primeira no canto direito de Barbosa. Pegou mal, errou, mas a bola entrou à direita do goleiro brasileiro. Uruguai empata o jogo em 1 a 1.

Eis o momento decisivo do jogo e da Copa: O inesperado empate choca os torcedores brasileiros, que vieram certos de uma vitória, talvez outra goleada. A torcida silencia. 200 mil almas em silêncio, murmúrios baixo, um silêncio ensurdecedor que acaba psicologicamente com o time brasileiro. A Copa acabou ali. Varela grita: "Vamos adelante!" O Uruguai agora domina o jogo, ataca, pressiona pela ponta direita. Bigode faz seguidas faltas. Gambeta, recua errado para Máspoli, manda contra o próprio gol, mas o arqueiro defende. O tempo não passa. O time brasileiro está catatônico. Aos 34, Julio Perez e Ghiggia saem tabelando pela ponta direita em cima de Bigode. Peréz lança então o ponta, que vence Bigode na corrida e sai na cara de Barbosa. O goleiro brasileiro espera novo cruzamento como no primeiro gol e se adianta para cortar. Alcides Ghiggia vê uma brecha entre o goleiro e sua trave esquerda, chuta. Uruguai 2 a 1. Um narrador brasileiro desmaia em sua cabine.

O time brasileiro acorda de sua letargia. Porém está desesperado agora e com 10 minutos para empatar apenas. A torcida enfim volta a apoiar das arquibancadas. Varela, que mandava mais que o técnico, retranca Los Charruas. Aos 38, Jair da Rosa Pinto, marcado por Varela, chuta violentamente. Pra fora. Faltam 5 minutos! Aos 42, o meio campo brasileiro faz excelente troca de passes e toca para Ademir, que desesperado chuta. A bola passa muito longe. O Uruguai tem 10 zagueiros, o Brasil é puro ataque. O Brasil tem sua última chance. Friaça, na ponta toca para Ademir no centro. Ademir, tão apavorado quanto seus colegas. Ademir, dá o chute de sua vida. Pra fora, longe demais. Máspoli, nem tocou na bola após a virada! Às 16h50’ o Árbitro apita o fim do jogo. Gambeta segura a bola. Alguns brasileiros pedem pênalti. Uruguaios ficam loucos: pulam, dão cambalhotas, Varela sai gritando em meio a uma multidão de zumbis aos prantos. Muitos invadem o gramado. Os jogadores brasileiros choram e chorando vão para os vestiários, os repórteres choram também. Na arquibancada pessoas choram, ficam ali no estádio muito tempo, sem saber o que fazer, o que houve. Jules Rimet, presidente da FIFA, entrega a taça a Varela de forma discreta e triste. No Maracanã, os torcedores, mesmo abalados, respeitam e cumprimentam os campeões do mundo de 1950. Ghiggia. Schiaffino. Julio Perez. Máspoli. Obdulio Varela. Heróis da maior conquista do Futebol Uruguaio e da maior derrota do Futebol Brasileiro e Mundial. A mãe de todas as derrotas. O Maracanaço. Uruguai 2, Brasil 1.”

Mal sabíamos que um dia teríamos também um “Mineiraço”! Na Copa de 2014. Lembra? Desculpe, sem comentários, 7x1, no Mineirão. Então, resta preparar os jogadores flamenguistas em todos os aspectos imagináveis em busca da desforra, lá em Montevideo, não se aconselhando que torcedores brasileiros lá deem as caras. Sabe-se que há dois tipos de morte: os naturais, pelo fim esperado da vida e aqueles em que a culpa é inteiramente nossa, caso de comparecendo ao citado jogo. Credo!

* Bosco Jackmonth é advogado de empresas (OAB/AM 436). Contato: bosco@jackmonthadvogados.com.br

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