Trabalho

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Trabalhador sem ânimo para comemorar o 1º de Maio

Primeiro trimestre viu aumentar em 10,2% a quantidade de população desocupada no Brasil, em relação ao trimestre anterior, totalizando 13,4 milhões

Por Marco Dassori

01 Mai 2019, 13h40

Crédito: Divulgação

No Dia do Trabalho, o trabalhador brasileiro tem poucos motivos para comemorar, segundo fontes ouvidas pelo Jornal do Commercio. A quantidade daqueles que mantêm ocupação remunerada caiu de forma drástica, graças à crise iniciada em 2015. Quando se leva em conta os que conseguem se manter com carteira assinada, esse universo fica ainda menor.

A recessão profunda, seguida pela fraca recuperação econômica dos últimos anos, promoveu demissões em massa, em um primeiro momento, e inibiu a retomada de contratações, no segundo. E, conforme sindicalistas, a Reforma Trabalhista promovida pelo Governo Temer (2016 – 2018), que prometia facilitar esse processo ao reduzir custos, só conseguiu precarizar o trabalho.  

Os dados mais recentes da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) Contínua do IBGE são desalentadores. O primeiro trimestre viu aumentar em 10,2% a quantidade de população desocupada no Brasil, em relação ao trimestre anterior, totalizando 13,4 milhões. A população ocupada (91,9 milhões) caiu 0,9%.

Na mesma comparação, a taxa de subutilização da força de trabalho (25%) foi a maior desde 2012 e o número de pessoas desalentadas – que desistiram de procurar emprego – subiu 3,9% e totalizou 4,8 milhões, gerando novo recorde estatístico. Em síntese, a taxa de desocupação foi de 12,7% no período.

Do outro lado, aumentou consideravelmente a procura por trabalhos autônomos e – conforme especialistas – a pejotização no mercado de trabalho brasileiro. O número de profissionais cadastrados como MEI (microempreendedores individuais) chegou a 8.154.678 ao final de março, segundo o Portal do Empreendedor.

Gargalo etário

Presidente do Sindmetal-AM (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas do Amazonas) e da CUT-AM (Central Única dos Trabalhadores do Amazonas), Valdemir Santana reiterou que a posição das entidades sempre foi de que, no lugar de gerar postos de trabalho, a Reforma Trabalhista aumentaria a precarização do trabalho e o próprio desemprego.

“Foi o que aconteceu e, quando aparece alguma vaga, é para ocupação sem carteira assinada. Desse jeito, não vamos conseguir resolver o problema tão cedo. E, com a Reforma da Previdência, o trabalhador, que já está sem emprego, corre o risco de ficar sem se aposentar”, desabafou.

Um dos efeitos da atual dinâmica do mercado de trabalho, segundo o dirigente, é a redução progressiva e acelerada da idade dos funcionários do Distrito Industrial. Valdemir Santana diz que, há uma década, a média etária dos trabalhadores era de 42 anos, mas hoje não passa de 32.

Demissão Voluntária

No entendimento do presidente do SEEB-AM (Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários do Amazonas), Nindberg Barbosa, o 1º de maio não é uma data propícia para comemoração, mas sim para reflexão dos trabalhadores, diante das atuais condições do mercado.

“A Lei de Terceirização e a Reforma Trabalhista tiraram direitos dos trabalhadores e enfraqueceram seus representantes, os sindicatos. Principalmente agora, com a Medida Provisória 873, que acabou com o desconto da contribuição sindical na folha de pagamento. O trabalhador tem que refletir e se mobilizar”, declarou.

De acordo com o dirigente, o desemprego avança no segmento, em virtude da automação de serviços e da implantação de PDVs (planos de demissão voluntária) nos bancos, em especial nos estabelecimentos públicos como Banco do Brasil e Caixa Econômica. Na contabilidade do SEEB-AM, a categoria já perdeu 20% de seus quadros, nos últimos cinco anos.

Empreendedorismo e tecnologia

Para a diretora da ABRH-AM (Associação Brasileira de Recursos Humanos – Seção Amazonas), Leuza Medeiros, o atual panorama do mercado reflete mudanças que valorizaram o conhecimento e a expertise, fazendo com que o emprego formal perca terreno para o serviço e o empreendedorismo.    

A dirigente avalia que, apesar dos reveses, ainda há oportunidades geradas pelas novas tecnologias em segmentos que ainda estão surgindo – a exemplo dos motoristas de aplicativos. Lembra também que o avanço dos empreendedores também pode gerar contratações secundárias para reforço das micro empresas. Mas, Leuza Medeiros ressalta que tudo dependerá da reação da economia, que ainda não ocorreu.

“Tivemos uma redução dos custos das empresas com a flexibilização do trabalho, mas isso não foi suficiente, porque a economia não respondeu. Havia muita expectativa com a mudança de poder, mas ela ainda não se cumpriu. Estou otimista, mas alguma coisa tem que ser feita e já. Caso contrário, o país vai perder mais uma década de desenvolvimento”, encerrou.

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