Opinião

COMPARTILHE

Solesmãe gentil, jus sperniandi e o mais

O desemprego, por exemplo, de todas a desditas é a que aqui se dará mais evidência

Por Bosco Jackmonth

16 Abr 2019, 13h15

Crédito: Divulgação

Como bem se sabe, resta consagrado na interpretação do Hino Nacional o singelo cantar assim: “oviram do ipiranga” e que “dos filhos deste solesmãe gentil”. Não é? Eras-te! Os milhões de pessoas cruelmente sem trabalho formal, a violência perversa, os assaltos com agressões por vezes homicidas, a corrupção cínica, e o mais, são gentilezas da pátria mãe? Vôte! Ou figa, pé de pato bangalô três vezes!

O desemprego, por exemplo, de todas a desditas é a que aqui se dará mais evidência. Virou anedota de português, tamanho é o número de brasileiros que se vão e conseguem trabalho na santa terrinha, diga-se com afeto. Consta que por conta de um valente controle da natalidade erraram nos cálculos resultando então na insuficiência de mão de obra no país. Daí a profusão de ofertas de vagas. Disque! Ou disqui!

Cá, também estamos carecendo de reduzir drasticamente a produção de gente. Sabe-se, não é catastrofismo, mas mal termina o capítulo da novela, a transmissão do jogo, ou aquele medíocre programa de auditório, e as mais carentes parcelas da população deitam, meio a meio, umas em cima das outras e, pronto, nove meses depois dá-se o resultado. Nerusca! Isola! Para o país; quero descer!  

Pior, não bastasse, também estamos praticando aquela importação de gente, modus faciendi. Da Venezuela, por exemplo, tem-se o adventício de figurantes que tomam as raras vagas de trabalho, ou se tornam pedintes arrastando os filhos, a ocupar as esquinas e calçadas das nossas ruas como se estivessem desertas. Não tanto, porque contamos com o denodo dos nossos patrícios, vendedores ambulantes, faceiros acrobatas, ou também prestimosos e insistentes flanelinhas, além de negociantes de bênçãos em troca de alguma moeda. Presque!

É certo que o desemprego decorre em parte do descompasso entre procura e oferta, o   conhecido mecanismo das atividades empresariais, em torno de mercadorias, agora aplicado ao gênero humano, eis que sendo abundante a procura por trabalho formal, muito maior que a oferta de vagas disponíveis, os contratantes podem exigir condições que lhes sejam as mais convenientes quando da seleção, como é notório.

Em busca de apurar essa realidade que se põe, resta divulgado que determinado serviço de consultoria, voltado para o ramo ora sub oculis, promoveu entre trinta empresários e executivos de empresas cobiçadas pelos que buscam ocupação, uma enquete com quinze perguntas intitulada “o que querem os empregadores, na hora de contratar?” Disso ajuda a entender quais os perfis e comportamentos são mais favoráveis na conquista da vaga almejada, bem entendido não se tratando de ocupação inferior, caso em que o candidato aceitaria de pronto, feliz da vida.

A seguir, o rateio das buscas em mira dispostas naquela pesquisa, em percentuais: 57% vasculham perfis dos candidatos nas redes sociais; 93% tiram pontos de quem se veste de forma desleixada; 37% resistem em empregar um profissional com tatuagens visíveis; 66% consideram mais difícil achar força de vontade do que boa formação; 83% evitam contratar quem já foi internado por abuso de álcool ou droga. (abr.ai/contratantes).

Colhido de várias fontes, o assunto aqui em tela não é agradável; é incômodo, quem sabe pessimista, sobremodo para os jovens que buscam o primeiro emprego, em número cada vez maior, mesmo os de boa formação escolar. Quem sabe, pensa-se: será que o articulista não tinha qualquer outra questão não pessimista para se ocupar? A vida já é difícil, não precisa alguém ficar lembrando.

Tinha, sim. Sempre dá para tapear as desditas usando a imaginação, por algum tempo. Mas não encarar a realidade, costuma não levar alguém a algum lugar. Ora, não se faça como o avestruz ameaçado, como posto em artigo anterior. Recordemos. Foi dito que aquela simpática ave, quando charlando pela pradaria, de repente vê o leão que ferozmente parte em sua direção. Boa coisa não é. Aquele, ao invés de se pôr ao fresco, ou seja dar o fora, enterra a cabeça na areia. E aí, este crau!

Então, de momento, pelo menos proclame-se o jus sperniandi, que é o que ora cabe. Pode ser que alguém acuda. Quem sabe o porvir? Vamos aos fatos. As estatísticas atuais são de apavorar quem depende de sobreviver com o seu trabalho. Olha só: assegura-se que quase 60% dos empregos em curso nos países desenvolvidos estão sob risco de sumir em médio prazo. Antes citou-se o Brasil. Ora acrescente-se que estamos no grupo de sociedades em que a maior parte dos postos de trabalho é considerada vulnerável, quer isso dizer os empregos informais, ou temporários, ou de baixa qualidade, baixo salário, baixa produtividade e baixa proteção social, tudo por conta de um poder público de crônica ineficiência; dizem corrupto.

Mas, invoque-se agora, por exemplo, o que ocorre na China, país tão reverenciado. Pois bem, lá os empregos ameaçados aproximam-se de 80%. Acredite-se, basta que se leia com os olhos bem apertadinhos.

Em todo o mundo, esse quadro aponta que cerca de 200 milhões de pessoas em idade de trabalhar, começaram 2019 sem ter uma colocação remunerada. Enquanto na Europa de hoje dá-se que metade dos empregos a ser criados vai exigir uma capacitação profissional muito alta, a ponto de ser preciso dominar saberes que em geral não se sabe, e talvez já não seja possível aprender.

No entanto, quanto aos americanos, realistas como o são, em cálculos nos dias de hoje, estima-se que mais da metade trabalha por conta própria, pois simplesmente desistiram de empregar-se numa companhia, no governo ou em qualquer tipo de organização com folha de pagamento. Diferente do que se pratica por aqui, não?

Mostra-se a base da questão aqui tratada as perturbações conduzidas já há tempos para as comunidades e pessoas, o que se convencionou intitular “sociedade da inteligência”, e que se traduz numa parafernália de eventos com um grau de complexidade bem distante da capacidade de compreensão da imensa maioria das populações, o que em países que enfrentam cronicamente sofrível qualidade na educação, tudo é bem pior, como é o caso do Brasil.   

Nessa linha, prevalece a chamada tecnologia de vanguarda que são mudanças impostas a todos, visto o avanço quase diário do computador refletindo em tantas áreas do conhecimento humano, como automação, robôs, genética, biotecnologia. Pensa-se agora em termos de fábricas, escritórios, casas, prédios ou máquinas inteligentes. A nanotecnologia domina a produção de materiais com base em escalas expressas em átomos, enquanto depara-se com a internet móvel e outros avanços cibernéticos sem fim, disso emergindo a nova matemática, ou nova engenharia, ou nova medicina, e o mais. Tudo isso, acaba custando empregos convencionais, porque alheios aos novos tempos, em torno de 30 milhões, como resta apurado nos últimos dez anos, segundo fonte confiável.

Por fim, não se cogita de solução. A propósito, o governo não sendo do ramo da inteligência, não se ocupa dessa questão, mas segue no aumentar impostos, produzir leis para anular a realidade e criar mais despesas para o Erário. Quer dizer, nada que maneje aquela ferramenta que desconhece. Não lida com o discernimento. Não tem insight.

*Bosco Jackmonth é advogado de empresas (OAB/AM 436). Contato: bosco@jackmonthadvogados.com.br

Veja Também

Artigo

Sabotadora da Aprendizagem

16 Apr 2019, 12h53