Opinião

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Seguro morreu de velho

Meu pai faleceu quando eu tinha 15 anos, deixando uma irrisória pensão para minha mãe

Por João Suzano

09 Ago 2019, 12h15

Crédito: Divulgação

Recordo dos tempos idos, durante os quais ingressei na Força Aérea Brasileira para cumprir “Serviço Obrigatório”. Jovem de 18 anos que era, tímido e sem orientação familiar por parte de pai ou de mãe, nem mesmo recordo se eu próprio fiz o meu alistamento ou se fui levado pela única irmã que se destacou nos estudos por sua sagacidade, inteligência e determinação, predicados que a tornaram diferenciada.

Para variar, minha família era bem pobre e meu pai faleceu quando eu tinha 15 anos, deixando uma irrisória pensão para minha mãe. Eu tinha todos os pré-requisitos para, no mínimo, não dar certo, mas entendo que o pouco de inteligência, determinação, um muito de sorte e a proteção do Ser Maior me fizeram chegar até o patamar onde me encontro.

O período em que fui soldado na Base Aérea de Santa Cruz permitiu que aprendesse muitas coisas da vida, principalmente a abaixar a cabeça, quando oportuno, e a estufar o peito para partir decidido no cumprimento da missão. Convivi com a época de tomada de poder pelos Militares e ouvi, sim, ameaças gratuitas de presos políticos durante os serviços de guarda que tirei por obrigação da rotina dos quartéis.

De “soldados brincando com armas”, cometendo suicídio e alvejando companheiros, até, nos tempos mais recentes, me deparar com Militares envolvidos com o tráfico de entorpecentes, vi de tudo um pouco. 

A evolução dos tempos, ou involução, como queiram designar, provocou mudanças radicais na seleção de cidadãos para fazer parte das Forças Armadas, ao contrário de determinados setores da maior relevância para o país, onde talvez baste um “nada consta” para concorrer a uma vaga em suas fileiras. Mesmo assim, há os que conseguem burlar o minucioso controle realizado ou se perdem em suas próprias fraquezas durante o percurso.

Absolutamente não, senhores leitores: os Militares não são seres de outro planeta, isentos de sentimentos e muito menos grosseiros são, por natureza, em suas atitudes. Choram, sorriem, necessitam do asseio corporal que todos precisam, são felizes, infelizes, destemidos, covardes, impetuosos, sagazes, introvertidos e se vergam, submissos, à “dor de barriga” que a todos assusta.

O que os faz diferentes, então? Exatamente a doutrina recebida nos quartéis, nas Escolas de Formação e Especialização, nas Academias e nos Institutos Militares altamente especializados, onde se aprende a suportar a dor, a não se abalar com o sofrimento ou a não demonstrar que sofre. Em sua doutrina também estão inseridos o respeito às Instituições e aos símbolos Nacionais, incluídos em primeira linha a Bandeira Nacional e o Hino Nacional Brasileiro. Esse conjunto harmônico tem como fundamento básico a Hierarquia e a Disciplina.

Tive o privilégio de viver, por quarenta e dois anos ininterruptos, todas as mazelas e vitórias inseridas nesse contexto, até ser transferido para a Reserva Remunerada, no ano de 2005. Cada momento de minha vida militar deixou um conjunto de ensinamentos que, de forma marcante, moldaram a minha personalidade.

Os mais curiosos poderiam perguntar por que motivos trago à baila um assunto tão personalíssimo. Minha carreira militar, salvo para mim, não constitui algo de tão importante que mereça destaque em uma crônica no Jornal do Comércio do Amazonas. Elementar, estimado leitor: vejo, com tristeza, ganhar vulto em algumas telinhas de televisão, notícias envolvendo o Sargento da Aeronáutica preso na Espanha com mais de 30 quilos de cocaína.

Conforme disse anteriormente, somos humanos. Dizia eu em minha infância: “meu sonho é ser Advogado”. Diziam os amigos: “todo Advogado é ladrão”. Sou Bacharel em Direito. “Nem tudo o que reluz é ouro. Nem tudo o que balança cai”. 

Não é o primeiro caso. Não será o último. Sem entrar em detalhes que dariam para escrever um livro, outros casos poderão estar acontecendo AGORA nos meios militares e civis ou “nos MEIOS DE COMUNICAÇÃO”. Quem duvidará da minha afirmação? Sem acusações. Apenas a certeza da nossa humanidade. Da grandiosidade que somos. Da fragilidade que nos atinge e nos submete à degradação moral.

O que me causa estupor é constatar, em determinados meios de Comunicação, a tendência perversa e, porque não dizer, deliberada, de insinuar a existência de um “elo de negligência” entre o fato e o poder central da República, na tentativa de ferir a credibilidade dos Órgãos de Segurança, das Forças Armadas e, especificamente, da Aeronáutica. “Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa”, diz o ditado.

Em algumas mídias da vida, vi o tal Sargento ser chamado de “Piloto da Aeronáutica” e de “Aspirante”. Pois é, a Imprensa também é humana e este erro não deve denegrir sua imagem, mas servir de alerta para o repórter se informar melhor sobre os fatos, em outra ocasião. Nem uma coisa nem outra: o militar é Sargento da área de Taifa, do efetivo do Grupo de Transporte Especial (GTE), Unidade Militar de elite, que tem tudo a ver com o Presidente, em termos de apoio específico e, nada a ver, no sentido de interdependência de ações e procedimentos.

Raciocinemos com a aviação civil. Preparação da aeronave no solo: reabastecimento, colocação de bagagens e preparação para o serviço de bordo. Chegada da tripulação. Cheque final de rotina. Tudo pronto? Embarque autorizado. Somente neste momento os passageiros visualizam os tripulantes. Os que executam tais serviços não têm contato com a tripulação. 

Passemos à aviação militar. Existe uma equipe que trata do embarque no aeroporto e outra que prepara a aeronave. A segunda, que faz parte da tripulação, é composta de Militares da área técnica e de taifa. No caso específico de viagem do Presidencial, existe uma aeronave de apoio, chamada 02, que acompanha a 01, do Presidente. O Militar em questão fazia parte da tripulação do avião 02. Tanto na aviação civil quanto na militar, os tripulantes somente têm contato com os passageiros a partir dos procedimentos de embarque, com características particulares em cada um dos casos.

Dirão os mais insistentes: mas houve falhas. Há que se responder: claro que sim. E que não se tenha dúvidas quanto ao rigor do julgamento em prol da justiça. O que não se deve permitir e tolerar são insinuações maledicentes que tentem comprometer a credibilidade dos Instrumentos de Segurança e da Instituição Militar ou insinuar qualquer tipo de conivência para atingir alvo certo que há muito incomoda os simpatizantes do grupo que, por pouco, não levou o país à bancarrota. Onde houver ser humano, haverá falhas. Assim o é nos quatro cantos da Terra.

O que houve, então? Ainda não sabemos, mas, com certeza, tudo será apurado em seus “mínimos detalhes”. O que podemos afirmar, a ser confirmado o que nos parece óbvio, é que o Sargento, amparado em atividades de rotina e na boa fé dos seus companheiros de tripulação, burlou os sistemas de segurança e a confiança dos seus pares, objetivando o cometimento do crime, pelo qual responderá, sem recursos judiciários protelatórios de sentenças que levem à prescrição. 

Não posso falar pela Força, nem dela tenho procuração para fazê-lo, embora a conheça um muito e um nada; mas tenho o dever de externar minha convicção, que neste caso específico é factual: a Aeronáutica cumpre a missão que lhe cabe constitucionalmente e, além disso, esmera-se em coibir qualquer tipo de ação criminosa. Aos desinformados detratores, um mínimo de conhecimento sempre será bem recebido e salutar, para não se correr o risco da calúnia, do ridículo ou da maledicência.    

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