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Salões e barbearias do Amazonas sentem menos efeitos da crise

Por Marcelo Peres

24 Jul 2019, 10h58

Crédito: Acervo JC

O mercado de estética e embelezamento do Amazonas parece não sentir os efeitos diretos da crise econômica. Hoje, existem pelo menos de 6 mil a 9 mil estabelecimentos operando regularmente só em Manaus. Tomando-se a média de que cada salão de beleza ou estética tem dois profissionais atuando, a estimativa é de que o setor empregue hoje até 18 mil profissionais na cidade.

Os números são do Sisbisim (Sindicato dos Salões, Barbeiros, Cabeleireiros, Instituto de Beleza e Similares de Manaus). Nessa estatística, incluem-se os pequenos, médios e grandes estabelecimentos. A cada dia, as pessoas estão mais preocupadas com o visual, o que leva grande parte da população a movimentar um mercado milionário. E as estimativas é de que o setor movimente, no mínimo, R$ 2 milhões por mês só na capital amazonense, o que chegaria a R$ 24 milhões anualmente, nos cálculos estimados do Sisbisim.

“Se formos contar os locais que operam atualmente na informalidade, estimamos que existam aproximadamente de 20 mil a 30 mil estabelecimentos só na cidade”,  diz Antônia Moura de Souza, presidente há três anos do Sisbisim. “Quando assumi o sindicato, havia muita gente ilegal (mais ou menos 90%), mas a maioria desse número de quase 9 mil salões  já está legalizada”, acrescenta a sindicalista.  

Segundo Antônia Moura, o principal problema enfrentado pela categoria é a informalidade nos negócios, principalmente na periferia de Manaus, onde os salões de beleza e estética proliferam. E a disparidade de preços causa uma concorrência desleal, prejudicando quem recolhe impostos e paga as taxas regulamente. “Nem sempre temos pessoal suficiente para coibir a prática, mas a colaboração da fiscalização dos órgãos públicos instituídos tem ajudado a amenizar o problema”.      

De acordo com Antônia  Moura, dezenas de venezuelanos que chegam a Manaus fugindo da repressão do governo Néstor Maduro e da miséria em seu país são os ‘campeões’ no setor informal. “Eles abram salões sem pedir nenhuma permissão nos bairros mais pobres da cidade, onde não existe praticamente fiscalização. Temos feito várias campanhas para orientar e apelar pela regularização desses locais”, acrescenta.

O Sinetheam (Sindicato dos Empregados em Turismo e Hospitalidade do Estado do Amazonas) diverge, porém, sobre os números de estabelecimentos estimados pelo Sisbisim, a entidade patronal. Segundo Sebastião Deive Couto Braga, que preside o Sinetheam, os salões de todo o País começaram a operar com profissionais parceiros desde a regulamentação da lei sobre essa nova concepção de trabalho ainda no governo do então  presidente Michel Temer (MDB-SP). 

A partir daí, os cabeleireiros não proprietários de salões foram obrigados a se transformar em microemprendedores individuais para poderem atuar só com a mão de obra. “Provavelmente, o levantamento estimado pelo sindicato patronal inclua os salões e ainda o total de profissionais que atuam hoje como pessoa jurídica, como determina a lei. Não reflete necessariamente o número real de estabelecimentos existentes”, diz Deive Couto.     

Crescimento

Segundo Deive Couto, o setor se expande em Manaus. Ele estima um crescimento de anual de 10% a 20% nos negócios, com base nos profissionais formados a cada ano pelas escolas técnicas. Ele revela que o Instituto Embelezze, hoje um dos maiores formadores de mão de obra qualificada, já opera com três unidades na capital – duas na área central da cidade e uma na periferia. “Portanto, podemos mensurar o quanto o setor vem prosperando no Amazonas”, ressalta Couto.    

Hoje, o piso médio da categoria é de R$ 1.127, ligeiramente superior à de outros segmentos de mercado, segundo Couto. “Tem muito microempreendedor trabalhando como parceiro”, diz. Se por um lado ter CNPJ abriu portas para ‘turbinar’ os ganhos, por outro, os profissionais não têm mais FGTS e passaram a arcar com as despesas de almoços e transporte. “Perderam todos os encargos que desfrutavam antes”, explica Deive Couto.      

Ele, porém, diz que a atividade promete um retorno nos investimentos a curto e médio prazos. Principalmente porque  vive-se num mundo que cultua a forma. E ser bonito e estar bem apresentável exige muita dedicação e, principalmente, dinheiro. E não é atoa que muitos optam por ser barbeiro ou cabeleireiro, na esperança de uma ocupação rentável e bem-sucedida, motivados pelo bom fôlego econômico do setor. Quem também decide abrir um salão e ter um negócio próprio, na maioria das vezes não se arrepende, segundo consultores.

E num momento em que existem mais de 13 milhões de desempregados no País, vale a pena investir na profissionalização e tentar um emprego no setor. Na capital amazonense também não é diferente. Mesmo com uma concorrência acirrada, um bom profissional chega a faturar mais de R$ 10 mil por mês, muito superior ao salário de um mestre com extensa vida acadêmica na rede pública e privada. “A profissão é boa, mas trabalhamos muito. As atividades começam cedo, por volta das 7h e se estendem às vezes até as 24h, dependendo do estabelecimento”, diz Antônia Moura.

Ela acrescenta que, conforme a classe social, um cliente, principalmente mulheres, chega a gastar R$ 300 só com coloração, escova, manicure e pedicure. As pessoas mais vaidosas vão pelo menos de duas a três vezes aos salões, isso em dias normais, sem contar com as ocasiões especiais em eventos que exigem melhor apresentação - aniversários, casamentos, seminários, festas, entre outros. É muito dinheiro voltado só para gastos com a boa aparência e no visual arrojado. E quem pode pagar, paga, sem reclamar. E, com isso, as empresas engordam seus lucros.

Setor dominado por grandes nomes

Grandes salões são os que oferecem os mais diversos serviços

Os grandes salões são os que mais faturam motivados pelo culto à beleza, oferecendo desde serviços simples aos mais especializados e sofisticados. “Esses estabelecimentos trabalham com, no mínimo, 50 pessoas e são direcionados para a classe alta que não titubeia em pagar caro por um serviço de qualidade”, explica Antônia Moura.

Os profissionais trabalham como parceiros por meio de contratos. E ainda têm liberdade para fazer o seu próprio horário de trabalho. Segundo a sindicalista, o mercado continua em  ascensão no Amazonas incentivado por três tipos de novos serviços, que passaram a ser disponibilizados aos clientes: barbearia que oferece um atendimento diferenciado, seguindo o modelo norte-americano; embelezamento do olhar (visual caprichado nas sobrancelhas e cílios) e maquiagens em geral. E ainda as inovações no tratamento de unhas, onde as pessoas podem optar por uma estética arrojada colocando pedra em gel, fibra e pinturas com desenhos coloridos e arrojados, dos mais variados.

Dependendo do arrojo, só uma manicure pode custar até R$ 200. E o preço dobra se o cliente também optar fazer a pedicure também requintada, como manda o modismo. “O mercado está investindo mais nessas inovações porque hoje qualquer pessoa pode comprar numa loja uma pintura e fazer ela mesma o serviço”, afirma Antônia Moura. “E essa tendência nos motiva a inovar cada vez mais nessas novidades”, diz.  

Os preços dos serviços variam de acordo com o estabelecimento (pequeno, médio e grande) - custam de R$ 30 a até R$ 1 mil, mas pode-se pagar R$ 5 por um corte de cabelo nos salões clandestinos da periferia. O problema é a qualidade que, em geral, dita a demanda e  a fidelização de clientes.

Com mais de 20 anos de profissão, o cabeleireiro Osnildo Sena diz que a atividade é bem-sucedida em Manaus, apesar da concorrência desleal enfrentada por estabelecimentos irregulares. "É muito difícil fiscalizar, mas mesmo assim vale a pena investir no segmento quem realmente gosta desse tipo de serviço, tendo que passar horas e horas trabalhando em pé, principalmente", diz ele.  

Hoje dono de salão, Manuelito Mafra afirma que não tem o que reclamar. Possui uma clientela fidelizada que não deixa de frequentar o seu estabelecimento. "O importante é investir na qualidade do serviço e na receptividade. Se o cliente é bem atendido, sair satisfeito,  com certeza ele volta e não vai trocar de estabelecimento. É como médico. Se o paciente gostar do atendimento, ele retorna com certeza", avalia o empresário.

Inovação trouxe novo ‘oxigênio’ ao segmento

Estima-se um total de 500 barbearias somente em Manaus

Esquecidas no tempo, as barbearias voltaram a figurar no mercado e hoje já são quase 500 estabelecimentos só em Manaus, segundo o  Sisbisim. Seguindo a tendência norte-americana que virou moda, o serviço diferenciado atrai cada vez mais clientes com a oferta de sinuca, bebidas as mais diversas e num ambiente agradável, climatizado e bem decorado. Tudo muito requintado e arrojado

Em cada estabelecimento, que nada lembram as barbearias de antigamente, pode-se visualizar na fachada a figura de um homem barbudo, que é o apelo de marketing do modismo inaugurado nos Estados Unidos. O local é destinado principalmente para os homens. "O cliente entra no ambiente e já se sente bem acolhido. Enquanto espera sua vez, pode consumir bebidas, jogar sinuca, ouvir uma boa música num local descontraído e de muita emoção. As pessoas compartilham impressões e conversas as mais variadas", diz Mylo Oliveira, que trocou o salão tradicional pelo novo modelo. "E não me arrependo", acrescenta ele.

Em Manaus, já se tornou comum ver homens circulando com a barba  crescida e bem aparada, como nos EUA. São os 'gringos' ditando a moda aos brasileiros e que agora invade a capital do Amazonas e chega também ao interior do Estado. Para quem pode pagar, o serviço é muito mais caro em relação aos convencionais. Um corte de cabelo não sai por menos de R$ 80. Se houver consumo de bebidas, lanches e participação em jogos de  sinuca, esse valor às vezes pode chegar a R$ 500, em alguns casos. "Aí vai depender do tipo de cliente", afirma Oliveira.

Os serviços de estéticas também alavancam o setor em Manaus. Os procedimentos que prometem acabar com as gorduras abdominais (fazendo evaporar os célebres e incômodos pneuzinhos) e rejuvenescimento do rosto são os mais procurados. Os clientes podem pagar caro, dependendo do tipo de procedimento - varia de R$ 200 a R$ 5 mil, segundo proprietários de clínicas."Sem conhecer o profissional, o risco é se deparar com gente não habilitada nas atividades. E o barato pode sair caro", alerta a esteticista Regina Mirna, com 15 anos de atuação no segmento. "Vale conferir antes de buscar esse tipo de serviço", acrescenta.

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