Política

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Prejuízo cresce sem energia nos municípios da Região Metropolitana

Por Marcelo Peres

23 Jul 2019, 10h31

Crédito: Pixabay

Desde a última sexta-feira (19) sem energia elétrica, o município de Manacapuru vive uma situação de completo de caos e abandono. A mesma situação enfrenta Iranduba, que também é abastecido pelo cabo subaquático da concessionária Amazonas Energia. Pela segunda vez consecutiva, o sistema entrou em colapso, deixando às escuras pelo menos 150 mil pessoas entre as duas cidades da RMM (Região Metropolitana de Manaus). E ainda Novo Airão, localizado nas adjacências.

O primeiro apagão ocorreu em fevereiro deste ano e a pane voltou a acontecer cinco meses depois com um novo rompimento do cabo subaquático de 69 KV que alimenta as duas cidades. O reparo é difícil e demanda um maior tempo porque a fiação encontra-se a 1.500 metros da ponte Rio Negro, que liga as duas cidades à capital.   

A prefeitura de Manacapuru montou um gabinete de crise junto com a Defesa Civil e o governo do Estado dentro do hospital da cidade, hoje o único lugar onde existe energia elétrica alimentada por um gerador.  “A situação é desesperadora. Estamos há cinco dias num completo apagão e a população começa a se manifestar cobrando providências urgentes. A situação é desafiadora”, diz o prefeito do município, Beto D´Ângelo (PROS). “Os prejuízos são inestimáveis, tanto do ponto de vista humano quanto comercial e econômico”, acrescenta o administrador.

Beto D´Ângelo está despachando de dentro do hospital de Manacapuru, que deve receber hoje um novo gerador para ter energia ininterrupta. De acordo com o prefeito, o município está fazendo ainda um levantamento dos danos e deve decretar uma situação de emergência a partir de hoje. “A economia da cidade está praticamente parada”, acrescentou. Ele informou que a Amazonas Energia se comprometeu a sanear o problema até esta quinta-feira, mas o gabinete de crise se prepara para enfrentar a situação por mais tempo. “Dificilmente, a situação será normalizada dentro do prazo estabelecido pela concessionária”, afirmou o gestor. 

Em nota, a direção da Amazonas Energia informou que providencia uma solução de abastecimento alternativo com a utilização de unidades geradoras movidas a diesel. Mas depende ainda da compra de uma peça do sistema na Suíça para sanear o problema por completo. A empresa disse que um dos cabos foi encontrado em curto-circuito e informou não saber ainda se o apagão foi causado por vandalismo ou por desgaste do sistema.

Segundo Beto D´Ângelo, seis geradores fornecidos pelo governo do Estado e pela concessionária estão abastecendo a cidade precariamente, mas em forma de revezamento - a cada quatro horas, um bairro do município é atendido para a população armazenar água nas caixas d’água e permitir também a conservação temporária de alimentos.

Carros-pipa levam água aos bairros e às comunidades mais distantes, mas mesmo assim os moradores enfrentam muitas dificuldades para ter acesso ao produto. Filas quilométricas são formadas por onde os veículos passam.  O cenário é desolador e preocupante em Manacapuru, Iranduba e Novo Airão. A população faz fila para comprar gelo importado de Manaus, mas poucos podem pagar a sacola com preço de R$ 30. Somente os mais abastados têm condições de usufruir do produto que se tornou um artigo de luxo nessa época de crise.

Alimentos se deterioram nas prateleiras de supermercados e mercadinhos. Produtos perecíveis como carne, iogurte, verduras, hortaliças, entre outros itens de primeira necessidade, estão ficando impróprios para o consumo. Apenas poucos empresários conseguem evitar mais prejuízos comprando toneladas de gelo para a conservação de alimentos. Os frigoríficos deixaram de comprar peixes do setor primário por não ter aonde conservar o produto, atingindo pescadores que dependem exclusivamente da atividade para sobreviver. 

Escolas e faculdades da rede pública e privada também suspenderam as aulas. Não há condições para ministrar o ano letivo nessas condições adversas, segundo gestores das unidades. Sem salas climatizadas, é praticamente impossível manter as atividades escolares devido ao intenso calor.

Outro cenário atípico que lembra as comunidades mais distantes desassistidas do interior - para não perder os alimentos estocados nas geladeiras, donas de casa tentam amenizar o prejuízo guardando os itens em caixas de isopor repletas de gelo. Mas nem todas as pessoas podem fazer essa contrapartida na crise, pois o produto é caro e inacessível para muitos.

De acordo com o vereador de Manacapuru Leonardo Silva Guimarães (PTC), até os proprietários de celulares enfrentam situações de emergência com o apagão. Pontos estratégicos nas ruas alimentados por geradores foram montados pela prefeitura para recarregar os aparelhos. E os usuários também fazem filas para conectar os rabichos dos aparelhos nas tomadas. “Nunca se viu um cenário desses tão caótico que lembra as cidades antigas do oeste norte-americano”, diz ele.

O prefeito de Iranduba, Chico Doido (Democratas), informou que as fábricas do polo de cerâmica do município estão todas paradas. Ele estima já um prejuízo de pelo menos R$ 100 mil desde o apagão que começou na última sexta-feira. Segundo ele,  a merenda escolar das unidades da rede pública de ensino começam a se deteriorar e não existem geradores suficientes para manter a conservação dos produtos perecíveis. “O município parou completamente”, disse ele. “Só um comerciante que vende iogurtes me disse que já perdeu, no mínimo, R$ 15 mil com a deterioração dos itens causados pelo blecaute de energia”, acrescentou. 

Força-Tarefa

A DPE-AM (Defensoria Pública do Estado do Amazonas) e o Procon-AM (Programa Estadual de Proteção e Orientação ao Consumidor do Estado do Amazonas) anunciam uma força-tarefa para acompanhar de perto as medidas emergenciais adotadas pela Amazonas Energia para minimizar os prejuízos à população de Manacapuru, Iranduba e Novo Airão. O apagão afeta as três cidades desde a última sexta-feira e muitos estimam que a solução do problema não virá tão cedo.

A mobilização avalia ainda medidas judiciais para o ressarcimento dos danos materiais e coletivos à população dos municípios. Pelo menos 200 mil pessoas foram atingidas pela pane no cabo subaquático que leva a anergia para a região dos três municípios. O trabalho é composto também pela Comissão do Consumidor da Aleam (Assembleia Legislativa Amazonas). A ação conjunta garante que vem atuando sistematicamente em questões de interesse coletivo da população.  

“Os órgãos que atuam na defesa do consumidor estão unidos para pensar estratégias que permitam à população voltar a ter energia elétrica e possam então retomar a rotina sem esse contratempo, tendo a garantia de seu bem-estar”, afirmou o defensor geral do Estado, Rafael Barbosa. “A Defensoria está engajada nesse projeto para dar uma resposta imediata às pessoas que estão vivenciando este problema e buscar minimizar os prejuízos com perda de alimentos e eletrodomésticos, por exemplo”, acrescenta ele.

Na manhã de ontem, integrantes da força-tarefa estiveram reunidos na Defensoria Público para traçar estratégias de atuação. Também foram para a Amazonas Energia, onde ouviram a garantia do presidente da concessionária, Tarcísio Rosa, de que o abastecimento nos três municípios deverá ser normalizado até o final desta semana.

“Uma usina termelétrica de 60 MW será instalada para garantir o fornecimento de energia, priorizando hospitais, até que o problema seja definitivamente solucionado”, adiantou Rosa. Ficou acertado ainda que a usina termelétrica de Flores, em Manaus, que foi recentemente desativada, será instalada na região dos municípios afetados pelo apagão.

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