Segurança

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Precisamos de efetivo maior e mais aparelhado, diz delegado da PF

Por Caubi Cerquinho

13 Ago 2019, 10h06

Crédito: Divulgação

Com o passar dos tempos, de acordo com o pensamento popular, as coisas mudam. No entanto, existem algumas que não. Um bom exemplo, é a representação por meio de sindicato ou associação de determinadas categorias que sempre estão lutando, seja para manter, ou mesmo para não perder direitos que na maioria das vezes foram conquistados com muita luta dos trabalhadores. Com o Brasil assistindo ao nascimento de novas regras previdenciárias, a preocupação dessas instituições aumenta cada vez mais. Que diga a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF)  que foi a primeira entidade de classe representativa da categoria no Brasil. A entidade foi fundada em 29 de outubro de 1976, em Brasília, no mesmo momento em que o Departamento de Polícia Federal começava a se estruturar como órgão estritamente policial. De acordo com o diretor-presidente da Regional Amazonas da ADPF, Marcelo Dias, algumas batalhas estão sendo travadas para que a instituição cumpra a missão de aprimorar a instituição policial, sua doutrina, normas e princípios de atuação funcional, além de trabalhar em defesa dos direitos dos delegados e suas reivindicações. Nessa conversa com o JC, Dias lembra que é preciso maior investimento nas forças de Segurança e especialmente na Polícia Federal. O aumento do efetivo, um melhor aparelhamento técnico e o adicional de fronteira,  são batalhas que a Associação está travando. 

JC – A Reforma da Previdência também atingiu os policiais federais?

Marcelo Dias - O nosso trabalho a frente da Associação, além da conscientização é brigar pelas nossas prerrogativas. A polícia nos últimos tempos tem sido muito atacada, o cargo de delegado tem sido muito atacado, muito questionado, e a gente vive um momento hoje, principalmente nesse último ano, onde se briga muito com a questão dos direitos previdenciários. Nos últimos meses a nossa presença em Brasília tem sido constante. Temso feito um trabalho muito forte junto ao Congresso Nacional, principalmente agora nessa primeira etapa na Câmara dos Deputados. Depois iremos começar um trabalho em cima do Senado. Isso porque a reforma da Previdência tem trabalhado de uma forma não muito republicana contra os delegados, contra a Polícia de uma forma em geral. A gente tem perdido alguns direitos e tem tornado,  se a reforma passar do jeito que está, um pouco menos atrativa a carreira policial de modo em geral. Muitos pensam que temos privilégio, mas não são privilégios. São argumentos técnicos – jurídicos que justificam um sistema diferenciado para os policiais. A gente para que se aposente, hoje, nas regras atuais, o policial vai precisa ter 30 anos de contribuição, com no mínimo, 20 anos de atividade policial. Nós não temos limite de idade. O que está passando no Congresso, está se criando um limite de idade de no mínimo 55 anos de idade, ninguém me aposentar antes disso, está se aumentando para 25 anos de atividade policial. Isso precisa ser repensando, pois ninguém entra na PF, sem o curso superior e com 18 anos. Nas Forças Armadas, o cidadão começa com 18 anos. Hoje um estudo que nós temos, dentro da polícia, mostra que se entra na faixa dos 30 aos 33 anos. A nossa atividade é uma das mais estressantes, é a que  tem maior índice de suicídio, alcoolismo e depressão. Então, temos razão de se aposentar antes. Agora, está se mudando por um casuísmo político. O O impacto seria muito pequeno se mantivesse as atuais regras.

JC – Tem outra batalha? 

Marcelo Dias -  A batalha da vez é a da Reforma da Previdência, mas temos também uma questão regional que é o chamado adicional de fronteira. Na realidade, o nome está um pouquinho equivocado. O que a Lei prevê é um adicional salarial para os policiais lotados em locais de difícil provimento. Locais onde ninguém quer ficar. Isso é para manter o efetivo necessário. Você tem adicional para Tabatinga, para Rio Branco no Acre você tem adicional para Porto Velho e para Boa Vista, mas não tem para Manaus. Tiraram Manaus e Belém por uma questão política. Em Belém e Manaus são capitais que não se consegue manter um efetivo satisfatório.  90% do efetivo da Polícia Federal, em Manaus não é do Amazonas. São pessoas que tem aquela vontade de voltar para seu Estado de origem. Por isso precisamos de um atrativo e o adicional de fronteira pode servir como tal. Ainda mais tendo Manaus um dos maiores custos de vida do País. 

JC – E a falta de efetivo, compromete o trabalho?

Marcelo Dias – Não chega a comprometer, porque nós temos servidores capacitados e abnegados, conscientes de suas funções. Mesmo com pouca gente, eles se multiplicam e conseguem realizar um trabalho que merece todos os elogios da sociedade. As diversas operações, como exemplo a Maus Caminhos que já se desdobrou em várias fazes, é um bom exemplo desse trabalho. Essa operação é a nossa “Lava Jato” baré. Isso tudo mostra que mesmo com baixo efetivo, se consiga alta produtividade.

JC – E o combate às drogas?

Marcelo Dias – O Estado do Amazonas é peculiar. Estamos ao lado dos maiores produtores de cocaína do Mundo que é a Colômbia e a Bolívia. Também temos produção dentro do território brasileiro. É muito pouco, pois o clima dificulta. Em cima disso a gente precisa que o Governo Federal olhe para o nosso Estado de forma diferenciada. A gente precisa ter um efetivo maior e mais aparelhado. Precisamos de incentivo para que policial queira ficar aqui. Mesmo com essas dimensões continentais a PF consegue manter a  fiscalização mais ativa.

Precisamos de mais delegacias da Polícia federal no Amazonas. Alguns estados como por exemplo o Rio Grande do Sul, tem 15 delegacias, nós no Amazonas só temos uma, em Tabatinga. Precisamos também de uma base do Caop, que é o Comando de Aviação Operacional. Essa base tem helicóptero e aviões. Essas aeronaves fazem o translado dos policiais quando se tem operações. Eu acho que já está no tempo de termos uma base aqui no Amazonas. 

JC – Qual é a expectativa com o Governo Bolsonaro?

Marcelo Dias – A Associação faz um trabalho de conscientização, um trabalho de briga pelas prerrogativas dos delegados em Brasília, mostrando a importância do nosso trabalho. Eu acredito sim. O presidente Bolsonaro tem feito, tem mostrado empenho nisso. Eu acho que ter um ministro como Moro,  mostra isso. Mostra a importância que a Pasta tem e a Polícia Federal é subordinada ao Ministério da Justiça. O que se teme são os contingenciamentos. Esperamos que o Governo entenda que cada um real investido na PF, três retornam para os cofres públicos. Gastar com a Polícia Federal, não é custo, é investimento. 

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