Agronegócios

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Piscicultura avança na Região Metropolitana, mas tem gargalos

Estima-se que apenas metade dos aproximadamente 3.000 piscicultores listados no Amazonas esteja regularizada junto ao Ipaam

Por Marco Dassori

08 Fev 2019, 10h30

Crédito: Divulgação

O Amazonas vem galgando novas posições na piscicultura. Um de seus municípios, Rio Preto da Eva (a 57 km de Manaus), já figura entre os cinco maiores produtores do país há três anos seguidos, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Fora do ranking, Presidente Figueiredo, Itacoatiara e Manacapuru também ganharam destaque e aumentaram a produção de tambaqui, matrinxã e pirarucu.

Mas, fatores estruturais ainda inibem a atividade e fazem com que o Estado responda por menos de 5% da produção nacional. Parte expressiva da demanda local de pescado é atendida majoritariamente por piscicultores de unidades federativas vizinhas, principalmente de Rondônia, Acre e Roraima.

Um dos gargalos está no valor da ração, que chega a compor 80% dos custos dos piscicultores. Há dois fornecedores locais, mas ambos enfrentam dificuldade para conseguir a matéria prima – milho e soja. E, como seus clientes, sofrem com o frete, que pode chegar a até 50% do valor do produto.

Há carência de assistência técnica e de mão de obra especializada. E estima-se que apenas metade dos aproximadamente 3.000 piscicultores listados no Amazonas esteja regularizada junto ao Ipaam (Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas), com cadastro ambiental e licença de operação.

“A despeito dos entraves, a piscicultura se mostra com horizonte promissor, principalmente pela  abundância de água e domínio da tecnologia de manejo das principais espécies. Além disso, os estoques de peixe na natureza estão em declínio em todo o mundo. E somente a aquicultura pode suprir esse decréscimo”, declarou o presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas), Muni Lourenço.

O dirigente destaca que a atividade vem ganhando corpo também no Sul do Estado, em municípios como Humaitá e Canutama. “Essa parte do Amazonas tem características de fronteira agrícola em expansão, beneficiada por custos mais baixos de grãos, pela proximidade com áreas produtoras de soja e milho de Rondônia e Mato Grosso”, explicou.

Muni Lourenço avalia que, com mais políticas públicas, a atividade pode diminuir a importação de peixes do Amazonas e suprir a demanda interna sem ajuda dos vizinhos. “O Estado tem perfil de dianteira nacional na piscicultura. O potencial já começou a se materializar, os números não mentem”, afiançou.

Escala x produtividade

O secretário adjunto de Pesca e Aquicultura do Amazonas e engenheiro agrônomo, Leocy Cutrim, concorda, mas observa que as limitações levaram o Estado a fazer mais com menos. “Não temos a economia de escala de Rondônia e Roraima, porque não dispomos de áreas extensas e com topografia adequada. Mas, temos tecnologias que nos permitem triplicar a produção”, destacou.

De acordo com Cutrim, enquanto os viveiros de piscicultura vizinhos costumam dispor de até 200 hectares, mais de 90% dos logradouros do Amazonas destinadas ao mesmo fim têm de 2 a 5 hectares, em média. “Nossas áreas de reserva legal estão delimitadas e reduzem até 80% do espaço potencial. Nos outros Estados, o desmatamento já ocorreu”, comparou.

O secretário adjunto conta que está em conversação com os piscicultores e estuda maneiras para socializar tecnologia e reduzir entraves, como o preço da ração – por algum tipo de fomento, ou pelo incentivo à criação de cooperativas para compra conjunta. A meta também é aumentar a extensão das lâminas de água do Estado, apesar dos problemas de fornecimento de energia nos municípios e custos de implantação – o hectare escavado sai entre R$ 50 mil e R$ 70 mil.

Negócio lucrativo

Produtor rural há 30 anos, Luiz Bonfá já trabalhou com cultivo de hortaliças e frutas e é piscicultor há mais de 15 anos. Diz que é um bom negócio, apesar de exigir investimento alto e o retorno de capital demorar dez anos, em média. “A margem de lucro já não é mais de 50%, mas ainda é considerável. E o mercado está sempre aquecido”, ponderou.

Confiante no mercado, Bonfá investiu na ampliação de sua propriedade, a Fazenda Eldorado, localizada no Km 65 da rodovia AM-010 (Manaus – Itacoatiara), em Rio Preto da Eva. Aportou R$ 400 mil, em 2018, para ampliar de 20 para 27 hectares a área de tanques e lagos escavados. Ele espera aumentar a criação em 30% em 2019 e produzir 500 toneladas de pirarucu e 30 toneladas de matrinxã.  

“Falta profissionalismo e tem gente que quer reinventar a roda. Esta não é uma atividade barata e exige a escolha certa. Felizmente, a Embrapa nos orientou e consegui triplicar minha produção”, finalizou.


 

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