Opinião

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Os paradoxos da diplomacia castrense

O Brasil atual tem as chances que Geisel não teve, chances de compartilhar reciprocidade não só com os EUA

Por Breno Rodrigo

08 Abr 2019, 11h16

Crédito: Divulgação

**Texto em co-autoria com Miriam Ferreira da Silva

O ano de 2019 começa no Brasil com um novo governo e um jeito próprio de produzir discursos relacionados às mudanças pendulares no âmbito da política e da economia do país. A busca por referências ou modelos de governabilidade a serem seguidas, a fim de se proporcionar um melhor desempenho dentro das instituições políticas tem sido o que o atual governo procura para equilibrar e estabilizar a correlação de forças do cenário atual.

Para acompanhar todas as mudanças em torno do no governo do presidente Bolsonaro, na última segunda-feira, 19 de março, o vice-presidente Hamilton Mourão em uma entrevista disse que a economia brasileira precisaria ser liberalizada, um comércio aberto ao mundo, mas de forma “lenta, gradual e segura”. Sem choques ou externalidades forçadas. Para um bom curioso em história ouvir essas palavras certamente nos remetem à década de 1970, em pleno o processo de abertura política para o retorno da democracia no país o então presidente brasileiro Ernesto Geisel dispõe desde mesmo discurso.

Usando esta oratória, Gal. Mourão nos leva a crer que as estratégias utilizadas pelo presidente Geisel podem ser revividas dentro do atual governo. Aliás, afinal as políticas utilizadas por Geisel e o seu corpo diplomático foram apelidadas pelo próprio presidente de “Pragmatismo Ecumênico e Responsável”, pois busca-se então por uma estabilidade do cenário interno e, principalmente, externo do país; e a maior preocupação deste projeto político e econômico era repassar uma imagem mais agradável do Brasil para o mundo, no intuito mostrar o quanto a nação estava abrindo suas portas para novos investimentos, alianças e cooperações internacionais.

Usando destes artifícios, o Brasil da década de 1970, começa a ter uma boa relação com países europeus e asiáticos (inclusive com a China comunista), e se afastava um pouco de seu maior aliado, os Estados Unidos. Uma vez que o presidente da época Jimmy Carter repudiava todos os acontecimentos no cenário brasileiro (especialmente, as recorrente violações dos direitos humanos) e não tinha interesse em manter relação com um país vivenciado por momentos que feriam os direitos humanos e a paz mundial. Tratava-se, para usarmos as definições da cientista política Letícia Pinheiro, de um tipo de globalismo.

Este breve contexto histórico não se parece, em absoluto, com o que estamos presenciando atualmente nesses poucos meses de governo. A aceitação de uma agenda americanista e a aproximação cada dia mais forte com os EUA são movimentos reais; e o Brasil tem como principal foco manter essa relação fraternal, geopolítica e ideológica por muito tempo. As mudanças políticas hemisféricas facilitam e muito a permanência dessa estratégia duradoura.

Fazendo um estudo comparativo do emprego da estratégia diplomática na definição da política econômica do governo Bolsonaro e Geisel, pode ser percebida a vontade e o interesse em atuar dentro do cenário internacional utilizando uma desenvoltura semelhante a do passado. As declarações expostas ao povo sobre fortalecer as alianças comerciais e seguir a procura de países dispostos a manter um relacionamento amigável com o país são os principais argumentos utilizados dentro do antigo (era Geisel) e do atual governo.

Argumentos estes que se tornam retóricos a medida em que o governo surge com os olhos brilhantes a busca de uma aliança profunda com os EUA e seus aliados estratégicos, e manter essa relação firme é pelo que se denota a maior ousadia que o atual governo dispõe dentro de sua política externa. Afinal, dois países que atualmente estão sendo chefiados por políticos conservadores, juntos irão ganhar forças trazendo para suas respectivas nações benefícios múltiplos.

Esta estratégia torna a política externa do Brasil uma via de mão única sem chances para voltar atrás ou tomar outra decisão a não ser se aliar com os EUA. Mas será que no ano de 2020 as coisas continuem da mesma forma? As eleições estadunidenses irão chegar e Trump será reeleito? Caso não seja, a relação Brasil e Estados Unidos ainda possuirão o mesmo timing de cooperação? Pois bem, não podemos responder a essas perguntas neste momento histórico, porém é possível prever um cenário de vulnerabilidade internacional caso aconteça.

O Brasil atual tem as chances que Geisel não teve, chances de compartilhar reciprocidade não só com os EUA, mas com a América Latina e o resto do mundo. A decisão de entrar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e perder o título dentro de Organização mundial do Comércio (OMC) de país em desenvolvimento e os privilégios que ali também têm. Todo este emaranhado de acontecimentos nos trazem dúvidas referentes ao que realmente o Brasil quer para o futuro de sua política externa e de sua inserção no mundo.

A política externa de Geisel já nos deixou; agora basta o atual governo brasileiro implementar as decisões políticas corretas, tornando-as mais vivas para as nossas necessidades estratégicas atuais.

*Breno Rodrigo de Messias Leite é cientista político

**Miriam Ferreira da Silva é acadêmica de Relações Internacionais da Faculdade La Salle

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