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Os aquamen que salvam nos rios amazônicos

Sua profissão é uma das mais perigosas do mundo, mas eles sempre estão prontos para agir

Por Evaldo Ferreira

09 Jul 2019, 19h32

Crédito: Evaldo Ferreira

Individualmente eles são como o Aquaman. Em grupo agem como os Vingadores. E não são super-heróis, mas pessoas comuns, de carne e osso, que sentem e sofrem com o trabalho que realizam. Eles são os 13 homens integrantes do grupo de elite dos mergulhadores do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas. Se for preciso, os mergulhadores também agem para combater o fogo.

“Anualmente acontece ao menos um curso de bombeiro mergulhador, fora do Amazonas, e os bombeiros voluntários podem participar. O curso dura dois meses e como o treinamento não é para qualquer um, por isso nosso grupo é pequeno”, esclareceu o major Ricardo Rocha, BM Rocha, comandante do Batalhão de Bombeiros Especial, mergulhador e instrutor de mergulho.

“Antigamente os bombeiros mergulhadores não recebiam treinamento adequado para se tornar profissionais do mergulho, então adquiriam lesões com o barotrauma ou a doença descompressiva. Felizmente as coisas evoluíram e agora o Amazonas possui excelentes profissionais nessa área”, destacou.

A mais recente ação dos bombeiros mergulhadores foi na busca dos corpos desaparecidos no naufrágio da embarcação ‘Cidade de Carauari’, no rio Juruá, próximo à sede do município de Carauari, no mês passado. Durante seis dias a equipe composta por quatro mergulhadores realizou a varredura completa em todos os cômodos do barco naufragado, na tentativa de encontrar as últimas vítimas, dois meninos, sendo um de três anos e outro de dois anos de idade. Antes, eles já haviam resgatado três outras vítimas.

Nesses mesmos dias a equipe se deslocou à cidade de Juruá, nas proximidades de Carauari, onde um afogamento fatal havia ocorrido.

Perigos por todos os lados

E quem pensa que o trabalho dos doze mergulhadores é apenas mergulhar e recolher os corpos dos afogados, se engana. Isto é apenas o começo.

“Os rios do Amazonas e do Pará são os mais perigosos da Amazônia, principalmente os de água barrenta que, além de oferecer pouca visibilidade, correm mais, sem falar que neles habitam determinados animais comedores de carne, como o candiru e a piracatinga. Ao comer os corpos dos afogados, isso dificulta que eles bóiem”, explicou.

Os treinamentos recebidos pelos mergulhadores permitem que eles atinjam até 39 metros de profundidade, podendo permanecer no máximo dez minutos no fundo. Nesse tempo eles precisam colocar marcos demarcando uma determinada área a ser vasculhada ou, se estiverem dentro de uma embarcação, tatear em busca dos corpos.

A ‘conversa’ entre o bombeiro que está no barco e o que está no fundo do rio é feita através de puxões no cabo que o direciona para o fundo.

“Um puxão significa que o mergulhador já chegou lá em baixo; com dois puxões ele pede que solte mais cabo; três pode ser socorro ou liberar mais ar; quatro significa que um corpo foi achado; e cinco, que está tudo ok. Pode puxar para subir”, informou.

Além da roupa própria de mergulhador, os homens ainda amarram cintos com pesos em sua cintura, para facilitar que permaneçam em pé e enfrentem o efeito bandeira, quando as ondas, no fundo, jogam seus corpos para um lado e para o outro.

“E levamos uma faca, importantíssima para quem está no fundo sem ver um centímetro diante do nariz. Lá tem galhos, até troncos, e até redes de pescadores. No interior de um barco naufragado podem ter as redes dos passageiros e se você entra num camarote a porta pode se fechar, e você está preso a um cabo. Bichos no fundo do rio não chegam a ser um perigo. Não por acaso a profissão de mergulhador é uma das mais perigosas do mundo, ainda assim, graças ao nosso preparo e profissionalismo, nunca tivemos nenhum acidente fatal com nenhum dos nossos homens”, ressaltou.

Orgulho para a família

Existem rios tão perigosos, como o Madeira, que mergulhos neles não devem ser feitos.

“Temos um mapa dos rios da Amazônia e suas velocidades. O mais perigoso é o Madeira, principalmente pelos troncos de árvores que descem a todo instante, mas existem outros onde o mergulho não é indicado devido à correnteza forte. Mesmo aqueles rios tranquilos, têm emaranhado de plantas lá fundo, lama, solo irregular e até pequenas cavernas. Lembram daquela turista carioca que caiu da Cachoeira do Santuário, em Presidente Figueiredo, em julho do ano passado. Ela foi encontrada 12 dias depois em uma pequena caverna”, lembrou.

De janeiro a junho deste ano os bombeiros mergulhadores já foram acionados 57 vezes para atuar em rios das proximidades de Manaus e região.

“De Manaus para cima atuamos até Tabatinga. No baixo Amazonas, Itacoatiara e Parintins tem dois mergulhadores cada, mas se por acaso houver uma tragédia de grandes proporções, todos nós estamos preparados para agir, não só com acidentes envolvendo água, como também o fogo. No incêndio ocorrido no Educandos, em dezembro passado, estávamos lá, ajudando os companheiros”, destacou.

Nos 14 anos em que vem atuando como bombeiro militar, Ricardo Rocha vivenciou muitas ocorrências marcantes. “Uma das mais difíceis foi a queda de uma aeronave no rio, em 2008, nas proximidades de Manacapuru. Havia 30 pessoas no avião, todas mortas. Tivemos que tirá-las uma a uma, algumas estavam abraçadas, outras ainda segurando as poltronas”, recordou.

“Mas me sinto realizado como pessoa. Sempre quis fazer algo útil pelas pessoas. Servir o próximo, esse é o nosso ofício todos os dias. Meus pais admiram meu trabalho. Minha mãe tem pavor, está sempre preocupada. Meu pai gosta de me ouvir relembrando as ocorrências”, finalizou.

Os 13 super humanos

Subtenente Emivaldo Viana Branches

Subtenente José Fernando Liberato Fernandes

Subtenente Isaías Costa Reis

1º sargento Daniel Ramos de Araújo

1º sargento José Paulo Pereira Para

2º sargento Gelnivan de Amorim Maciel

2º sargento Braz Oliveira Souza

3º sargento Alexsandro Vieira Santana

Cabo Luis Alberto Vidal Garcia

Cabo Edson Fabiano Monteiro de Sousa

Cabo Emerson Pereira de Freitas

Cabo David Lima da Silva

Soldado Alexsandro Morais Aquino