Opinião

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O livro, o jornal e a internet

Quem nunca ouviu que o rádio mataria o jornal ou que a televisão exterminaria com seu ex-amigo

Por Fred Novaes

08 Abr 2019, 12h15

Crédito: Divulgação

Na efervescência do ano de 1859, Machado de Assis publicou no Correio Mercantil, do Rio de Janeiro, mais precisamente nos dias 10 e 12 de janeiro, a crônica “O Jornal e o Livro” refletindo sobre uma característica humana propulsora de sua conquistas: a perfectibilidade, que nada mais é do que a constatação de tudo pode e deve ser aperfeiçoado.

No texto, Machado explica as razões pelas quais considera o jornal um aperfeiçoamento do livro. Com sua paixão peculiar, o autor trata o jornal como a “alavanca que Arquimedes pedia para abalar o mundo, e que o espírito humano, este Arquimedes de todos os séculos, encontrou”.

Sua elegante análise teve como premissa as respostas a dois questionamentos básicos: “O jornal matará o livro? O livro absorverá o jornal?”. São questionamentos ainda atuais quando se observam avanços tecnológicos em medidas estratosféricas que certamente Machado nem sonhara. Quem nunca ouviu que o rádio mataria o jornal ou que a televisão exterminaria sem dó nem piedade com seu ex-amigo, velho parceiro de áudio.

Até mesmo a televisão, considerada toda poderosa há poucos anos, hoje sangra com a crueldade dos streamings de vídeo que, como um Fantômas dos tempos atuais, abusa da sua adaga de serial killer. Sinal dos tempos. Como Machado diz no texto primoroso “de perfeição em perfeição nasceu a arte” e que “era, porém, preciso um gigante para fazer morrer outro gigante”.

Como se vê, a sobreposição tecnológica não é exclusividade da revolução digital. Já naquele tempo se lançavam loas para as maravilhas da modernidade: “Ao século XIX cabe sem dúvida a glória de ter aperfeiçoado e desenvolvido esta grandiosa epopéia da vida íntima dos povos, sempre palpitante de ideias. É uma produção toda sua”. Imaginem o nosso amigo Machado de Assis no crepúsculo da revolução digital com a arrogância típica dos desbravadores deste novo mundo.

Neste contexto, as plataformas analógicas de difusão da informação e do conhecimento hoje olham para seu primo rico, a internet, num misto de admiração e desdém. Mas como o próprio Machado ensinou naqueles dias essa suplantação de uma tecnologia não eliminaria a outra totalmente, mas a transformaria: “Mas não confundam a minha idéia. Admitido o aniquilamento do livro pelo jornal, esse aniquilamento não pode ser total. Seria loucura admiti-lo”.

Da mesma forma, vê-se hoje um predomínio inconteste das novas tecnologias, com sobremodo espaço às tecnologias digitais. Mas isso não significa, de modo algum, um aniquilamento dos demais modais para a expressão do pensamento. Há, sim, uma transformação. Confirmando a máxima machadiana de que o homem aperfeiçoa dia após dia sua passagem por este tempo.

Sendo a internet e seus filhos diletos - as redes sociais - hoje “a faísca elétrica da inteligência que vinha unir a raça aniquilada à geração vivente por um meio melhor, indestrutível, móbil, mais eloqüente, mais vivo, mais próprio a penetrar arraiais de imortalidade”. Isso pelo menos até aparecer o que ainda vem por aí.  

O maior dos paradoxos é que Machado entrou à imortalidade pelos livros e seus folhetins encontraram naquela plataforma seu pórtico ao status de divindade no panteão dos literatos nacionais. Não resta outra opção a concluir como Machado o fez em 1859: “Preparar a humanidade para saudar o sol que vai nascer, — eis a obra das civilizações modernas”.

*Fred Novaes é publisher do Jornal do Commercio
 

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