Opinião

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O estômago de metade dos amazonenses queima de fome

Espero que toda essa polêmica nos leve a bons caminhos

Por Thomaz Meirelles

02 Set 2019, 20h24

Crédito: Divulgação

E o mundo nem liga para essas pessoas que preservaram 97% da floresta em pé. Impressionante, com tanta tecnologia disponível, qualquer fumacinha é detectada no outro lado do mundo, mas nenhum satélite consegue captar o que essas pessoas estão comendo, ou melhor, não estão comendo  todos os dias. Não vejo, não leio, não ouço esse assunto ser pautado, apenas queimada e desmatamento.  O que realmente tá "queimando" é o estômago de metade da população do Amazonas que não tem o que comer todos os dias (49,2%, segundo o IBGE). Isso o mundo não quer saber, o foco deles, e de muitos aqui no Brasil, é  exclusivamente a floresta em pé, e os nossos caboclos deitados, morrendo de fome, na pobreza, sem qualidade de vida. É lógico que não podemos desperdiçar recursos, muito menos de países que já desmataram tudo, mas é evidente que é preciso colocar novas regras na utilização de bilhões de reais. Os números da extrema pobreza mostram, claramente, que esses recursos internacionais foram muito mal utilizados no Amazonas, caso contrário, teríamos outro cenário.

A porta de entrada dos recursos externos deveria ser a Embrapa

Os bilhões de outros países deveriam ser direcionados para a Embrapa, pois certamente teríamos outra realidade em termos ambientais e de segurança alimentar e nutricional. Desde 1991 a Embrapa já possui tecnologia disponível para uma agricultura sem queima e com uso da mecanização agrícola. Fica a dica para possíveis novos investimentos, a Embrapa receberia o recurso e faria parceria para levar a tecnologia aos quatro cantos da Amazônia. Nunca vi um escândalo envolvendo a EMBRAPA, tem excelente conceito internacional. Com tantos milhões que vieram ao Amazonas, temos uma população pobre, precária regularização fundiária, sem o indispensável Zoneamento Econômico Ecológico - ZEE, e sequer temos uma cultura amparada pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático, o conhecido ZARC. Em síntese, a porta de entrada desses recursos internacionais deveria ser a ciência, a Embrapa, só assim os avanços seriam expressivos. O mundo precisa discutir a causa, não os efeitos.

Satélites captam tudo, menos a fome dos habitantes da floresta

Os satélites rastreiam o fogo, mas não conseguiram rastrear essa tecnologia da Embrapa, e muito menos os 49,2% da população do Amazonas que não sabem o que vão comer hoje. Isso é muito triste! E com fome não tem saúde, não tem educação, mas tem o indesejável aumento da violência. Tudo o que realmente não queremos.  Os satélites ainda não conseguiram rastrear que o Amazonas é o segundo estado mais pobre do Brasil. Esses satélites ainda não conseguiram rastrear que temos o pior município do Brasil em termos de IDH. Espero que esses satélites rastreiem o que foi feito com os recursos internacionais que recebemos. Espero que esses satélites rastreiem os inúmeros seminários, simpósios, congressos, grupos de trabalho, comissões e viagens que foram realizados, mas que lamentavelmente nos levaram a um quadro preocupante em termos sociais e econômicos. Por exemplo, é lamentável ter, há dez anos, uma política federal (PGPMBio) que garante renda mínima ao extrativista, mas com desempenho vergonhoso no Amazonas, segundo dados da própria Conab. Quero o uso desses satélites em defesa dos produtores que esperam o licenciamento ambiental, e não só pra multar. Espero que toda essa polêmica nos leve a bons caminhos, já chega de "maus caminhos" em nosso estado. Ano passado, o jornal Diário do Amazonas trouxe matéria com o título "AM tem mais de 800 mil jovens em miséria extrema e pobreza". Isso reforça o título deste artigo mostrando o que realmente vem "queimando", há anos, é o estômago da população, de fome, sem ter o que comer diariamente. É lógico que devemos cuidar das queimadas, do desmatamento, mas isso só acaba com o povo bem alimentado e empregado. Sem dinheiro no bolso ninguém segura o pior, o que não queremos, isto é, a doença, a violência e o fim da floresta.

*Thomaz Antonio Perez da Silva Meirelles é servidor público federal aposentado, administrador, especialização na gestão da informação ao agronegócio. E-mail: thomaz.meirelles@hotmail.com

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