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O charme de contar histórias ao redor do vinho

Uma das poucas enólogas locais, Dayane conta historias ao redor do vinho

Por Evaldo Ferreira @evaldo.am @JCommercio

28 Ago 2019, 17h58

Crédito: Evaldo Ferreira

Manaus, desde a época das bonanças geradas pelo comércio da borracha (1890/1910), sempre foi abastecida pelas melhores bebidas do mundo. Vinhos italianos, champanhes francesas, cervejas americanas atravessavam oceanos e chegavam à capital da borracha para ocupar a adega dos endinheirados seringalistas.

O abastecimento de Manaus com essas bebidas continuou com a instalação da Zona Franca, a partir de 1967, e permanece até hoje através de empresas cada vez mais especializadas no assunto, sobretudo quando a bebida é o vinho.

A Bacozon é uma dessas empresas cujo diferencial é sua CEO Dayane Casal, ser uma das poucas enólogas amazonenses. Enólogo é a pessoa que estuda o vinho a fundo, conhecendo, inclusive, as histórias ao redor da bebida propriamente dita.

“Sempre viajei muito para o exterior. Conheço 25 países. Mas eram viagens turísticas. Ocorre que naqueles roteiros turísticos, nas histórias da cultura daqueles países, não raro o vinho aparecia, e revestido de muita importância. Foi então que, há dez anos eu, que nem bebia, resolvi dar uma atenção especial à bebida e descobri que as garrafas contam histórias”, disse.

Quem aprecia vinhos, lógico, reconhece a bebida quando a degusta, porém, sabe que nenhum vinho tem o mesmo sabor do outro.

Para os enófilos, ou apreciadores de vinho, o grande charme é justamente variar e descobrir. Repete-se pouco, experimenta-se muito. Pela diversidade de uvas, de climas, de solos, de safras, aromas e sabores, o enófilo é naturalmente levado a ser uma pessoa mais meticulosa. Sem ser atento a detalhes, é impossível se aprofundar no estudo do vinho. E olha que somente a Itália, o país com maior variedade de vinhos, produz mais de um milhão de vinhos diferentes. 

Maior feira do mundo

“Agora, nas minhas viagens, eu vou exatamente em busca de novos produtores, de novas vinícolas”, falou.

Se imaginarmos que só a Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul, possui mais de 550 vinícolas, conclui-se que a busca de Dayne é infindável. Mas muito prazerosa.

“Por isso disse que cada garrafa de vinho conta uma história. Portugal, por exemplo, um país com 92 mil km2, comparado ao Amazonas que tem mais de um milhão e meio de km2, é minúsculo mas, de norte a sul do país encontramos terroirs (relação entre o solo e o micro-clima particular, que concebe o nascimento de tipos específicos de uva) diferentes, com aromas e sabores distintos”, revelou.

“Este ano fui pela primeira vez à ProWein, a maior feira do mundo direcionada somente para profissionais do vinho”, esclareceu.

A ProWein é um evento anual que acontece em Dusseldorf, Alemanha. Lá são exibidos vinhos e bebidas alcoólicas de produtores da Alemanha, Europa e de todas as regiões produtoras de vinhos do mundo.

“Só consegui o passaporte para a ProWein depois que comprovei, com documentos, que tinha uma empresa importadora de vinhos no Brasil. Foi na feira que descobri países que você jamais imaginaria que produzem vinhos, como China e Japão, por exemplo, com excelentes produtos”, falou.

“Existe uma região no norte da Espanha, Rioja, uma província autônoma, famosa pelos vinhos sem muita qualidade produzidos lá. Em Rioja acontece o festival de verão e a Batalla de Vino, quando todos se banham com vinho. Pois um amigo me falou que, numa pequena região, dentro de Rioja, existia um produtor de excelente vinho. Eu fui lá, conheci o produtor, provei de seu vinho, e não é que meu amigo estava certo. O vinho é o Gil Berzal. A região parece a superfície lunar, mas a terra onde são cultivadas as parreiras que irão gerar o Gil Berzal recebe um tratamento tão especial, que isto se reflete no vinho. Para se ter uma idéia da meticulosidade na produção, eles realizam o cultivo de acordo com as fases da Lua”, revelou.

 

Sucesso do vinho brasileiro

“Mas se for contar as histórias dos vinhedos que conheço, elas não acabam nunca. No Vale do Mosel, da Alemanha, estão os vinhedos mais inclinados da Europa e a luz do Sol reflete no terroir. Na Eslovênia existe a videira mais antiga do mundo e de suas uvas são produzidos vinhos servidos somente a chefes de estado que visitam o país. Na França, na Borgonha, são produzidos os vinhos mais caros do mundo e onde também estão os terroirs mais caros do mundo. De uma vinícola para outra, ao seu lado, você já nota a diferença no sabor da bebida”, garantiu.

“Num recente viagem que fiz a Borgonha, levei o Ana Cristina, vinho de um produtor amigo meu de Santa Catarina para um produtor de lá provar e dar sua opinião. Para os franceses não existem outros vinhos no mundo e os deles são os melhores. Pois não é que esse produtor ficou maravilhado com o vinho brasileiro. Comparou-o, em qualidade, aos seus”, contou.

“Todas as vezes que viajo, levo vinhos e sucos brasileiros para serem apreciados pelos produtores da Europa. Faço questão de divulgar nossos produtos lá porque são de excelente qualidade”, assegurou.

E para quem acha que mulheres não entendem de vinho, Dayane preside a CAV (Confraria Amigas do Vinho), no Amazonas. A confraria reúne 16 mil mulheres em todo o país.

“Costumo dizer que o melhor vinho não é o mais caro. O mais caro é aquele produzido com muito requinte. O melhor é aquele que você gosta e pode comprar”, concluiu.       

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