Opinião

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O ator precisa tirar a máscara

O ator, neste caso, precisa se despir do personagem - o trocadilho é inevitável

Por Fred Novaes

04 Mar 2019, 13h40

Crédito: Divulgação

O lenga-lenga que dominou as redes sociais na última semana foi, para variar, a rotineira manifestação de polarização política neste Brasil com Bolsonaro. Dessa vez, o estopim dos conflitos veio com polêmicas sobre a carta do ministro propondo o hino nacional nas escolas e sobre o uso da máscara do ator Fábio Assunção nas aglomerações pré-carnavalescas.

Neste texto, trato da solidariedade ao ator global, taxado por muitos da linha de pensamento mais liberal como vítima de uma doença terrível chamada alcoolismo. Para esses, usar a máscara do ator é quase uma heresia decorrente da ignorância e da falta de empatia ao doente.

Reconheço, é óbvio, que o alcoolismo é uma doença terrível. Entendo até mesmo que o artista citado é, de certa forma, vítima de um mau-hábito que potencializou um distúrbio pré-existente na sua condição orgânica e lhe tornou escravo de um estímulo artificial para acessar determinadas químicas cerebrais que hoje cobram um preço caro nas suas emoções e na sua capacidade de controle.

Antes de me deter em minha reflexão, preciso contextualizar assumindo que falo como leigo sobre esse tema. Mas, por outro lado, também faço minha exposição como alguém que não detém apenas o conhecimento teórico sobre o assunto. Mas, enfim, vamos aos argumentos.

Potencializar a vitimização do doente não ajuda na cura (que sabidamente, nesses casos, não é instantânea e nem permanente, mas um processo contínuo, com risco de recaídas). O coitadismo recorrente não deve servir de muleta para contínuas decisões equivocadas por parte do portador do transtorno. Isso é muito comum neste tipo de condição.

Nada adianta se o viciado não tomar decisões conscientes, muitas vezes consideradas radicais, para interromper esse fluxo de retroalimentação doentia. Como diriam os antigos, não dá para assoviar e chupar cana. O ator, neste caso, precisa se despir do personagem - o trocadilho é inevitável -  e decidir romper com hábitos, companhias, rotinas e até cenários que hoje estão associados, na sua mente, ao seu vício.

Talvez ele precise até mesmo mudar de profissão. Eu não sei, mas, no fundo, ele sabe. Jesus ensinou que é melhor perder um membro do que ter todo o corpo lançado no inferno. Isso nos ensina sobre decisões. As decisões precisam estar amparadas em um propósito. O propósito é moldado pelos nossos princípios e valores. Logo, é preciso enxergar lá do alto desses propósitos, princípios e valores as decisões que determinam aquilo que fazemos aqui embaixo.

Essa decisão precisa ser consciente enquanto a consciência guardar sanidade e não ter sido totalmente cauterizada. Chega um ponto em que o quadro aparenta ser mesmo irreversível. Não parece ser o caso do ator em questão que ainda dá demonstração de plena capacidade intelectual e poucas sequelas emocionais.  

O que se vê, infelizmente, em muitos artistas que naufragam neste problema é a incapacidade de fugir de si mesmo. De realmente despir-se do personagem e descobrir o eu interior, desconstruído dessa projeção exteriorizada de si mesmo. Mesmo sendo uma imagem que renda um bom dinheiro. Mas há coisas que valem mais do que dinheiro, fama e poder. Pena que nem todos conseguem ver.

*Fred Novaes é publisher do Jornal do Commercio  

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