Meio Ambiente

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Novos anfíbios achados na Amazônia que se renova

Novo anfíbio vem integrar a lista de mais de 350 espécies desses animais existentes na Amazônia

Por Evaldo Ferreira

17 Mai 2019, 18h38

Crédito: Divulgação

Nidicola, caeruleodactylus, paleovarzensis, bacurau, grillisimilis, tinae, juanii. Não estranhe. Não estou escrevendo num outro idioma. Estas são as sete novas espécies de anfíbios descobertas somente no Amazonas, apenas do gênero Allobates, nos últimos 15 anos, praticamente uma a cada dois anos. Ainda assim, essas descobertas são motivo de comemoração por parte dos pesquisadores, pois mostram a riqueza da biodiversidade amazônica e a importância de preservar a região.

“Estas descobertas não são incomuns. De tempos em tempos descobrimos e descrevemos novas espécies, e bem perto aqui da cidade. As mais recentes aconteceram logo ali do outro lado do rio, no Careiro da Várzea, e outras, em Autazes”, contou a bióloga Albertina Lima, pesquisadora do Inpa. Albertina é uma referência no estudo de anuros (ordem de animais pertencentes à classe dos anfíbios, que inclui sapos, rãs e pererecas) da região.

Bilinguis: seus dois cantos estão sendo estudados
 

Até os alunos da pesquisadora conseguem encontrar novas espécies de anfíbios, como aconteceu com o biólogo Igor Kaefer, então estudante de doutorado em ecologia no Inpa. Enquanto fazia seus estudos em Santarém/PA, em 2012, Igor descobriu um sapinho de menos de dois centímetros, de cor marrom. Só recentemente a descoberta foi publicada na revista científica Zootaxa, certificando que o sapinho, que recebeu o nome de Amazophrynella bilinguis, realmente pertencia a uma nova espécie.

Foram sete anos do achado até a descrição, em função do volume de estudos simultâneos em andamento e do fato de que a descrição formal de uma espécie em uma revista de taxonomia requerer a análise de muitas classes de informações, como cores, sons, formas e genes.

O interessante desses achados é que eles não acontecem por acaso, e acontecem de uma forma bem interessante.

Kaefer: descobertas não são incomuns na Amazônia
 

“Nós conseguimos identificar se é, ou não, uma nova espécie, através do canto dos anfíbios. Só quem canta é o macho, para atrair a fêmea, ou defesa de território e de predadores, que nós chamamos de canto de anúncio, e cada espécie tem um canto distinto, exatamente para que uma espécie não se confunda com outra. Sabedoria da natureza”, explicou.

“Agora se imagine numa floresta, ouvindo o canto de centenas de animais, mamíferos, aves e anfíbios, e entre os anfíbios, ainda ter que diferenciar o canto de um do outro”, indagou.

Dois cantos em meio a tantos

Mais interessante ainda foi Igor ter conseguido identificar que o canto ouvido, na realidade eram dois, por isso a referência no nome bilinguis.

“A nova espécie emite dois sons bem distintos. Estes sapinhos alternam o tempo todo entre os dois cantos, em alguns momentos se confundindo com os sons emitidos por pequenos grilos”, destacou.

Logo que entrou na floresta (Fazenda Taperinha, na margem sul do rio Amazonas, a 80 quilômetros do centro de Santarém), Igor ouviu dois sons e pensou que fossem duas espécies, mas a experiência de Albertina ouviu mais alto. “Ela prestou atenção no canto e disse: é o mesmo bicho. Isso é novo”, lembrou Igor.

“Até a nossa descoberta, todas as espécies descritas do gênero Amazophrynella tinham um único canto, por isso a descoberta de um deles com dois tipos de canto distintos foi inédita para esse gênero”, revelou Albertina.  

A partir de então, os pesquisadores realizaram análises morfológicas, acústicas e genéticas para descrever formalmente a espécie, reconhecida agora como nova.

“Muitas outras descobertas de novas espécies animais, não só de anfíbios, estão acontecendo em outros estados amazônicos e temos certeza que ainda muitas outras acontecerão espero que, antes que o homem acabe com a floresta. Cada uma dessas espécies tem um significado para a natureza. Elas não estão ali por acaso”, alertou.

“Uma das espécies que mais gostei de encontrar foi a caeruleodactylus, do gênero Allobates, porque o sapinho tem dedos azuis, e já adianto que descobrimos mais uma nova espécie, aqui no Amazonas. Estamos finalizando o manuscrito e ainda este ano ela deve ser confirmada como nova para a ciência”, adiantou.

Até agora, 350 espécies conhecidas

Há, aproximadamente, oito mil espécies de anfíbios registradas no mundo, mais de 1.100 no Brasil e mais de 350 na Amazônia brasileira. Os números aumentam constantemente em uma taxa altíssima, revelando o quanto ainda se desconhece sobre a diversidade de espécies de países megadiversos como o Brasil.

Na natureza, os anfíbios desempenham papéis muito importantes como elos fundamentais de teias alimentares, indicadores da integridade de ambientes e fornecedores de compostos que podem ser utilizados na indústria farmacêutica. Para Igor, agora professor da Ufam, “independentemente do papel ecossistêmico ou utilidade ao homem, a diversidade biológica é um patrimônio nacional e devemos conhecê-la”, concluiu.